Reconhecemos que muito mais que o material, Cristo nos chama a nos comprometer, a nos doar, a sairmos de nós mesmos em vista das necessidades do outro; estar atento ao outro. Enquanto Promoção Humana, três palavras orientaram nossas ações neste tempo: amar, socorrer e evangelizar. Todas as semanas, buscamos estar com os mais pobres, nas ruas, nas praças. Visitando as famílias que estão em estado de vulnerabilidade social.
Em uma dessas idas à praça, encontramos um amigo, que nos chamou a atenção por ter muitos cachorros. Ele nos contou sua história, tinha 8 filhos. Ele estava em situação de rua e não tinha mais um vínculo próximo com a família, mas, por sentir falta dos filhos, adotou os 8 cachorros e deu o nome de cada um dos filhos a eles.
O servir me conduziu à conversão
De forma particular, fui sendo realmente alcançada e salva por meio do serviço aos pobres. Ao me relacionar com os pobres, fui descobrindo as minhas fragilidades, as minhas misérias, as minhas pobrezas e riquezas. E, nesta relação com os pobres, Deus foi e vai me conduzindo a uma conversão.
Estar com os pobres é uma constante renovação na minha vocação, onde, sendo chamada a me ofertar, a viver o sacrifício, vou encontrando oportunidades para assim viver.
Uma dessas oportunidades foi, ainda neste ano, reencontramos aquele mesmo amigo (que tinha os cachorros). Ele se encontrava em uma situação difícil. Toda a pele do seu corpo estava caindo, por falta de vitaminas. No outro dia, a pedido dele, conseguimos levá-lo para Recife, para uma casa terapêutica e conseguimos ainda a medicação prescrita pelo médico.
Em todo o caminho até Recife, fui perto dele, vendo suas mãos e os seus pés na carne viva, ia sentindo o cheiro forte… E ali, eu pude amar! Ele foi o caminho inteiro falando, eu morrendo de sono, por ser bem cedo, mas Deus me concedia a graça de escutar. De forma concreta, pudemos amar, socorrer e evangelizar aquele irmão.
Por meio dos pobres, meus olhos se voltam para o essencial, me fazem buscar estar mais em oração, deixo de ser o centro e vou sendo mais grata a Deus pelas oportunidades. Todos os dias, eles me fazem amadurecer e crescer no amor. Vou tendo a graça de viver esse amor desinteressado, mas encarnado. Vou tendo a oportunidade de viver esse movimento de amor da Trindade.
A fila
Recordo-me de um assistido que me dava medo, receio. E ao sair de mim mesma, buscando amar, descobri nele um grande coração, descobri um filho. Esse mesmo filho foi me mostrando o quanto a mudança se dá aos poucos e que Deus vai fazendo nos pequenos detalhes.
Ele nunca ia para a fila (que organizamos para distribuir a refeição e também para conseguirmos rezar por cada um), não ficava muito, pois queria pastorear os carros. Eu insistia para ele entrar na fila, mas ele nunca ia, nos buscava sempre depois para receber a oração.
Até que um dia, ele olhou pra mim e disse: “está vendo algo diferente?”, olhei pra ele de cima a baixo e não havia nada de diferente nas roupas, o estilo permanecia do mesmo jeito. Ele então me disse: “Estou na fila!”. Então eu fui enxergando que são nas pequenas coisas que Deus vai mudando e movendo os corações.
Estar com os pobres é uma verdadeira experiência com o amor. Com eles fui e vou amadurecendo. É uma escola, onde constantemente, por meio deles, Deus vai me ensinando a AMAR.
Sinto-me privilegiada, amada por Deus, por estar servindo aos mais pobres.
É uma grande graça poder cuidar dessa parte da Vinha. Vejo nisso uma grande oportunidade e desejo de Deus, para que eu venha a crescer ainda mais na intimidade e relação com Ele. Pois “o próprio Cristo está nos pobres.”
Com os pobres eu aprendi…
Aprendi a escutar mais, a ter paciência, a amar, a me relacionar com Deus e com o outro;
Aprendi a reconhecer as minha pobrezas, fragilidades, fraquezas;
Aprendi que preciso viver o hoje, e que as escolhas que fazemos podem nos distanciar de Deus e nos colocar em situações que nunca pensamos;
Aprendi que preciso rezar mais, que preciso dar o próprio Cristo por meio da minha vida.
Adriana Lima,
Missionária da Comunidade de Vida
na Missão de Natal

