Formação

Estudo Bíblico: Não dar somente daquilo que nos sobra

Daniel Ramos, missionário da Comunidade Shalom na França, conduz o Estudo Bíblico desta quarta-feira a partir da Liturgia do Dia.

V SEMANA DA QUARESMA (Roxo – Ofício do Dia)
 
1ª Leitura – Gn 17,3-9 | Salmo – Sl 104, 4-5. 6-7. 8-9 (R. 8a)
Evangelho – Jo 8,51-59

Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém.

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João 8,51-59.

Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: Em verdade, em verdade, eu vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte.’ Disseram então os judeus: ‘Agora sabemos que tens um demônio. Abraão morreu e os profetas também, e tu dizes: ‘Se alguém guardar a minha palavra jamais verá a morte’. Acaso és maior do que nosso pai Abraão, que morreu, como também os profetas? Quem pretendes tu ser?’ Jesus respondeu: ‘Se me glorifico a mim mesmo, minha glória não vale nada. Quem me glorifica é o meu Pai, aquele que vós dizeis ser o vosso Deus. No entanto, não o conheceis. Mas eu o conheço e, se dissesse que não o conheço, seria um mentiroso, como vós! Mas eu o conheço e guardo a sua palavra. Vosso pai Abraão exultou, por ver o meu dia; ele o viu, e alegrou-se.’ Os judeus disseram-lhe então: ‘Nem sequer cinquenta anos tens , e viste Abraão!’ Jesus respondeu: ‘Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão existisse, eu sou’. Então eles pegaram em pedras para apedrejar Jesus, mas ele escondeu-se e saiu do Templo. Palavra da Salvação.

Tudo está consumado: o cumprimento perfeito da missão

Nós estamos aqui chegando a um desfecho dramático, aquele clímax de tensão, aonde realmente o evangelista João vai nos colocando na pele de Jesus e da Sua missão. Quando João escreve o Evangelho, já estava consumada a separação entre a sinagoga e a Igreja nascente.

Os judeus já tinham expulsado da sinagoga todos os cristãos. Então, é muito presente aqui no Evangelho essa tensão; é um período da Igreja onde estava mesmo consumada esta separação entre os judeus e os cristãos.

E aí Jesus aqui fala que “quem guardar a minha palavra, jamais verá a morte”. Ele se coloca como alguém que tem autoridade sobre a morte, e é isso que chama a atenção de seus interlocutores.

Porque aqueles que eles diziam conhecer, – “somos filhos de Abraão”, “somos filhos dos profetas”, “seguimos a lei de Moisés” – “Abraão, os profetas e Moisés, eles dizem aqui, morreram e tu dizes que ‘Se alguém guardar a minha palavra jamais verá a morte’”.

E aí, a pergunta que não quer calar: Tu és capaz de vencer a morte? Tu tens mais autoridade, tu és alguém maior que o nosso pai Abraão, do que todos os profetas? Quem pretendes, tu, ser?

Jesus diz logo: “Eu não estou com pretensão. Não sou eu que dou testemunho de mim mesmo, mas é o Pai. O Pai me conhece. Vós dizeis que o conheceis, mas vós não o conheceis”.

Intimidade de quem está em relação

E vocês sabem que a palavra conhecer, biblicamente falando, não é apenas um conhecimento puramente intelectual ou de uma doutrina, ou de uma teoria, mas é um conhecimento experiencial, é uma relação, tanto é que é a palavra usada para falar da relação conjugal.

Maria disse: “Eu não conheço homem”[1].  Então, o conhecer, na Bíblia, é o mais alto nível de intimidade que uma pessoa pode ter com outra. “Ele a conheceu depois do matrimônio”, fala-se. ”Depois de terem casado, fulano conheceu Beltrana, e assim se uniram com todo o ser”. Então, o conhecer é um conhecimento que envolve todo o ser de quem está em relação.

O “Shemá Israel”: como é que Deus pede para ser amado? “Tu amarás o Senhor teu Deus de toda a tua mente, de todo o teu coração, de toda a tua força, de toda a tua alma.[2]” Então, tu amarás ao Senhor teu Deus com um amor de quem conhece, de quem se envolveu inteiramente, de quem arrisca a vida, de quem aposta toda a vida nesse conhecimento.

O relacionamento com Deus não é puramente intelectual. Eu não sou católico ou cristão apenas porque eu sei rezar o Credo ou porque eu vou à missa de vez em quando.

Eu conheço a Deus quando eu aposto a minha vida na vida de Deus. Eu conheço a Deus quando eu aposto todas as minhas forças na via que Jesus abre para nós: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

Quem crê em mim, ainda que morra, viverá”[3].  Então, Jesus vem mostrar que se você tiver um conhecimento de Deus nesse nível, que não é o dos seus interlocutores, Ele diz: “Vós dizeis que o conheceis, mas não o conheceis.”

Só é amor se doer

E aí eu fico pensando: às vezes dizemos tanto que conhecemos a Deus, que conhecemos a fé. O Papa João Paulo II – acredito que eu já deva ter comentado isso, mas vamos lá mais uma vez  – no seu documento sobre a Europa[4], ele diz que o problema do europeu é porque ele acha que sabe o que é o cristianismo, mas desconhece os fundamentos mais simples da fé.

E, às vezes, nós podemos achar – e isso é válido pra todos nós!- que já conhecemos porque temos uma certa experiência. Mas eu só posso dizer que conheço o Pai, nesse sentido que Jesus fala, quando eu aposto a minha vida, quando custa amar. Só é amor quando dói, diz Madre Teresa de Calcutá.

Não basta amar, tem que amar até doer. E podemos dizer: não basta saber o Catecismo de cor, conhecer as passagens bíblicas, é preciso amar a Deus até doer!

Por isso que me custa ajudar financeiramente uma obra de Deus, mas não tem problema se custa. É sinal que eu estou fazendo um ato de conhecimento de Deus.

A minha vida vai ser influenciada por aquele valor que eu estou dando, porque aquilo ali talvez até me falte e eu não tenha a vida confortável que eu gostaria de ter porque vou fazer a minha comunhão de bens, porque eu vou fazer a minha partilha de bens.

Então, eu não vou manter o nível de vida que gostaria de dar pra mim, para os meus filhos, porque eu sei que a maior riqueza é mostrar para eles que eu não tenho medo de perder para Deus. No fundo, quem dá para Deus está dando para o Céu, vai receber de volta. Custa, mas eu dou.

Sair da zona de conforto

Às vezes só queremos dar quando nos sobra. Isso não é doação, isso é apenas fazer o que é justo. Porque, se me sobra, é porque não é meu. Eu estou apenas sendo justo.

Mas, se eu quero doar, eu dou do que vai me custar talvez um conforto maior, vai me custar talvez aquela comida que eu gostaria de ter, vai me custar talvez o computador que eu precisaria comprar naquele mês, vou ter que adiar para daqui a dois meses porque eu não posso deixar de ajudar essa realidade.

E não só na área financeira, mas também no tempo. Vai me custar rezar hoje porque eu estou muito cansado, mas eu não vou rezar para me satisfazer, porque Deus não está ali para me satisfazer, como se Ele estivesse ao meu serviço, mas eu vou rezar porque tenho um relacionamento com Deus.

Assim como Deus vem para mim, eu vou para Deus. Ele está me esperando, e Ele também está presente porque Ele sabe que eu o espero. Vai me custar permanecer fiel naquela oração, mas é justamente porque me custa, porque arranca pedaços nossos. Então, é um verdadeiro conhecimento de Deus, aonde eu aposto a minha vida em Deus.

Por exemplo, às vezes as pessoas da minha família que não conhecem o Senhor me pedem para tomar atitudes que não são honestas. Para não gerar incômodo familiar, eu talvez pense: “Ninguém vai saber”, não! Talvez até gere uma tensão familiar, mas eu vou deixar claro que não vou sonegar os impostos.

Eu vou deixar claro que não vou abrir minha casa nessa situação para receber esse contexto de pecado. Entende?

O conhecimento de Deus é o amor até doer. Eu amo tanto a Deus que dói em mim, dói! É como Jeremias, que dizia: “Senhor, é como se tivesse um fogo nos meus ossos”[5]. Eu até gostaria de te esquecer um pouquinho, mas dói, e eu não posso deixar de fazer esse sacrifício por amor a Ti”.

Essa é a alma esposa, a alma apaixonada, que não está mais naquele nível de quem diz assim:

“Não vou rezar o meu Terço não, porque Deus me entende, Ele sabe que estou cansado”. Não é questão de Deus me entender, de saber que estou cansado. É questão de amor!

Claro que Deus não precisa daquele meu Terço, quem precisa sou eu de fazer aquele ato de salvífico de amor! Arrancar talvez aquele meu pedaço de carne ali, porque eu queria estar deitado naquela cama, mas vou passar aqui 20 minutos rezando esse terço, e vou fazer aquele ato que me custou por amor, para salvar almas, porque um sacrifício unido ao de Jesus salva almas.

As almas estão precisando! Deus não está precisando, mas as almas estão precisando para não caírem no inferno, para serem libertas do purgatório!

A graça da perseverança

Então, é esse o conhecimento. Seria muito triste se escutássemos de Jesus: “Vós dizeis que conheceis o Pai, mas vós sois mentirosos, porque tudo o que o Pai pede vocês “tiram o corpo””. Dizemos: “O Pai me entende. Ele não vai me pedir isso não”. É o coração apaixonado que quer dar.

Se o meu coração não é apaixonado, aí é outra história. Então, seja sincero na presença de Deus: “Senhor, me inflama de amor! Apaixona-me de novo por Ti, porque eu não consigo mais fazer nenhum sacrifício por Ti, Jesus! Tudo para mim me custa.

Talvez eu esteja caindo numa tibieza profunda, ou seja, numa preguiça espiritual profunda. Talvez eu esteja paralisado nas minhas lamas, nas minhas preocupações, e tudo me custe muito, e eu não me preocupo mais em consolar o Teu coração, eu não me preocupo mais em salvar almas, em levar o maior número possível de pessoas para o céu através dos meus sacrifícios vividos por amor a Ti”.

Quando formos para o céu – e eu espero que o Senhor nos dê essa graça, que perseveremos. Peçamos a Ele isso!-, nós vamos conhecer todas as pessoas que estão lá graças também aos nossos sacrifícios. Graças à oferta de Jesus na cruz, ao Seu holocausto de amor, graças à intercessão de Nossa Senhora, dos santos, mas graças às nossas pequenas dores ofertadas por amor.

Que grande alegria será!

Abrir o coração: Eis-me aqui para fazer a Tua vontade

E aí Jesus diz: “Eu conheço e guardo a Palavra do Pai”, porque a carne de Jesus se envolve nesse conhecimento do Pai. “Tu me deste um corpo e eu te digo: Eis-me aqui, ó Deus, para fazer a Tua vontade”[6]. Isso é conhecimento de Deus.

“Vosso pai Abraão exultou, por ver o meu dia; ele o viu, e alegrou-se.’ Os judeus disseram-lhe então: ‘Nem sequer cinquenta anos tens, e viste Abraão!’ Jesus respondeu: ‘Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão existisse, ego eimi, eu sou””.

Nós comentamos esses dias sobre esse nome de Deus, o nome da revelação de Deus que Jesus assume para si no Evangelho de São João de uma maneira muito particular. Ele revela, mas como eles não estavam com o coração aberto, eles pegam pedras para linchar Jesus.

É muito interessante porque o Evangelho de hoje termina com essa frase: “Mas ele escondeu-se e saiu do Templo”. Tudo em João tem um significado mais profundo. Deus que a partir daquele momento estava se revelando, mas Ele esconde a Sua revelação e sai do templo.

Naquele momento, se consuma o Jesus que sai do templo. Jesus sai, porque o templo de Jerusalém, desde a época dos profetas era uma grande segurança para o povo, e daí a crise deles no exílio na Babilônia: “Se o templo foi destruído e fomos em exílio, Deus não está mais conosco”.

E aí eles descobrem através do Profeta Ezequiel e de Isaías que Deus os acompanha, que Deus não está prisioneiro do templo, mas os acompanha no exílio.

O templo é esse grande lugar da presença de Deus no imaginário popular e no religioso popular. Nesse momento, o Evangelista diz: “Deus sai do Templo”. Em outra passagem ele vai falar que Jesus fala do templo do Seu corpo.

A partir de agora é o corpo de Jesus o verdadeiro templo de Deus.

Vamos pedir ao Senhor a graça de não endurecermos o nosso oração, para que Ele não venha a sair do templo do nosso coração.

São Paulo nos diz aos Coríntios:

“Não sabeis que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Esse templo sois vós e vós sois consagrados”[7]. Nós somos consagrados. Por isso somos templo do Espírito Santo. Senhor, não permitas que o nosso coração se endureça a ponto de Tu deixares o templo do nosso coração, e deixar as trevas tomarem conta de nós. Nós queremos Te conhecer. Nós queremos apostar a nossa vida em Ti. Nós queremos, Senhor, amar até doer, mas a nossa carne é fraca. Então, vem em nosso socorro! Vinde, ó Deus, em nosso auxílio, socorrei-nos sem demora! Envia sobre nós o Pai dos pobres, o Consolador, o Espírito Santo de Deus!

Queridos irmãos, nos próximos dias vamos ter outros irmãos também que vão nos ajudar a fazer a nossa Lectio Divina. Para termos também outras sensibilidades, outros olhares, teremos outros irmãos da Comunidade que vão nos ajudar a fazer a nossa Lectio Divina, sempre às 10 hs da manhã.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado! Shalom!

[1] Lucas 1, 26-38.
[2] Lucas 10, 27; Deuteronômio 6, 5.
[3] João 11, 21-26.
[4] EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL ECCLESIA IN EUROPA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS BISPOS, AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS, AOS CONSAGRADOS E CONSAGRADAS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS SOBRE JESUS CRISTO, VIVO NA SUA IGREJA, FONTE DE ESPERANÇA PARA A EUROPA.
http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_20030628_ecclesia-in-europa.html
[5] Jeremias 20, 9.
[6] Hebreus 10.
[7] 1 Coríntios 3.

Daniel Ramos, Missionário da Comunidade de Vida Shalom na França


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