Formação

Estudo Bíblico: Nós somos hoje os discípulos amados de Jesus

Daniel Ramos, missionário da Comunidade Shalom na França, conduz o Estudo Bíblico desta sexta-feira a partir da Liturgia do Dia. Acompanhe.

comshalom

 
Estudo Bíblico 17/04/2020 – Sexta-feira na Oitava da Páscoa
 
1ª Leitura – At 4,1-12 | Salmo – Sl 117, 1-2.4. 22-24. 25-27a (R. 22) | Evangelho – Jo 21,1-14

Oração

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém. Senhor, nós Te suplicamos, pela intercessão da Rainha dos Céus, Nossa Senhora, derrama sobre nós o Teu Espírito, faz-nos encontrar o Ressuscitado que passou pela cruz através dessas narrações das aparições do Ressuscitado aos Seus discípulos.  Amém.

Cristo Ressuscitou, aleluia! Sim, verdadeiramente Ressuscitou, aleluia!

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João 21,1-14

Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus. Simão Pedro disse a eles: ‘Eu vou pescar’. Eles disseram: ‘Também vamos contigo’. Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: ‘Moços, tendes alguma coisa para comer?’ Responderam: ‘Não’. Jesus disse-lhes: ‘Lançai a rede à direita da barca, e achareis.’ Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor!’ Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: ‘Trazei alguns dos peixes que apanhastes’. Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu. Jesus disse-lhes: ‘Vinde comer’. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe. Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Palavra da Salvação.

Meditação

Se você der uma olhada na sua Bíblia, vai ver que no final de João 20 o Evangelista faz como que uma conclusão. Então, torna-se estranho ter um capítulo 21.

Os exegetas dizem que foi muito provavelmente um acréscimo que foi feito pelos discípulos do discípulo amado que escreveu o Evangelho, querendo narrar tantos outros episódios da Ressurreição, mas, sobretudo, o episódio que vem logo depois desse Evangelho aqui, que é o encontro de Jesus a sós com Simão Pedro, onde Ele faz aquelas três perguntas: “Tu me amas?”.

Teremos a oportunidade de depois meditar sobre esse Evangelho. Mas o que importa é mergulharmos na palavra, no que ela quer dizer para nós hoje.

Aqui Jesus continua as Suas aparições. Jesus aparece de novo aos discípulos a beira do mar. O mar é como que aquele lugar que lembra o chamado inicial de muitos dos discípulos.

Jesus começa chamando a beira do mar, eles deixam as redes e O seguem. Inclusive, esse mesmo episódio é narrado por São Lucas, no início do ministério público de Jesus[1].

Após a pesca milagrosa, Pedro cai aos pés de Jesus, em Lucas, e diz: “Senhor, retira-te de mim, pois sou um pecador”, e Jesus vem sustentá-lo nessa experiência com a manifestação de Deus.

Quando Deus se manifesta nas Escrituras o homem cai por terra, desde o Antigo Testamento, e percebe que é pecador. Você pode fazer memória do próprio Isaías:

“Ai de mim, que sou homem de lábios impuros e que contemplei o Deus vivo”[2]. O homem que contempla Deus só pode morrer, porque, digamos, ele é pecador e Deus é o Santo! Então, diante do Santo nós só podemos morrer. E aí Jesus vem dizer: “Calma! Eu vim para retirar-vos dessa situação de distanciamento do Santo. A partir de agora sou Que eu morri no lugar de vocês, e venci a vossa morte!”.

Aqui, em João, ele coloca o episódio como uma narração do Ressuscitado, e os discípulos tem também essa experiência da pesca miraculosa. Eles estavam como que retomando um pouco a vida de antes, e Jesus vai lá nesse lugar aonde muitos deles tinham recebido o primeiro chamado para seguir Jesus, e vem renovar já com a experiência Pascal por excelência, através da pesca miraculosa.

Primeiro Ele lhes pede a comer. Eu acharia melhor a tradução quando fala: “Filhinhos, tendes alguma coisa para comer?”[3], porque é mais segundo a sensibilidade do Evangelista, inclusive nas suas cartas chama os seus discípulos de filhinhos.

“’Filhinhos, tendes alguma coisa para comer?’ Responderam: ‘Não’. Jesus disse-lhes: ‘Lançai a rede à direita da barca’”. Os Padres da Igreja, que veem sempre um sentido alegórico em todas as manifestações de Cristo, dizem que “à direita” é o lugar onde Cristo foi transpassado pela lança do soldado.

Então, ali Cristo vem alimentar a humanidade com a água, que simboliza o Espírito Santo, e o sangue, que é a Eucaristia. À direita da barca, o corpo de Cristo, que é a Igreja, nas Suas feridas, feridas por amor, Jesus vem realizar os Seus milagres. Aquilo que foi uma ferida Ele vem transfigurá-las e trazer do lado direito o derramamento do Espírito Santo e o dom do Seu corpo, que é um dom esponsal por excelência.

“Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor!’”. Você vê de novo mais uma vez a figura entre discípulo amado e Pedro. Pedro vai simbolizar, como nós já comentamos, toda a dimensão hierárquica e institucional, o pastoreio da Igreja.

Pedro reconhece o Ressuscitado, mas como naquele episódio em que os dois correm até o túmulo, Pedro corre mais lentamente, e foi papel do discípulo amado ir mais rápido, mas em seguida permitir que Pedro passe adiante, se submeter à autoridade constituída pelo próprio Jesus.

O discípulo amado simboliza toda a dimensão profética e carismática da Igreja. Nós, hoje, somos os discípulos amados de Jesus, e temos de ajudar os nossos irmãos a perceberem onde está o Senhor, e a gritar com convicção:

“É o Senhor!”, e essa convicção que vem do mais profundo do nosso ser é que é marcada pela unção do Espírito Santo. Não são tanto os nossos conhecimentos, porque Deus pode transformar as pedras que estão aqui em filhos de Abraão, como dizia São João Batista[4].

Claro que nós precisamos nos formar para melhor ajudar as pessoas a avançar na fé. Quanto mais você ama, mais você quer conhecer, e quanto mais você quer conhecer, mais você é convidado a amar, já dizia Santo Agostinho.

Mas é preciso que nós nos lembremos de que o nosso ensino para o mundo, a nossa pregação, não vem deste mundo. Ela vem de um acontecimento que é a revelação do próprio mistério de Deus em Jesus Cristo, que é o mistério Pascal.

A nós, cabe gritar para aqueles que estão surdos: “É o Senhor!”, e aqueles que têm um anseio mais profundo na sua alma de encontrar de novo aquele que o seu coração ama, eles se jogam na água. Pedro se jogou na água e foi nadando a frente até da barca, para encontrar o Senhor.

“Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes”. Diz o evangelista que eles pescaram cerca de cento e cinquenta e três grandes peixes. São Jerônimo vai dizer que é o número de espécies conhecidas na época, simbolizando as cento e cinquenta e três nações também conhecidas na época de Jesus.

É toda uma linguagem simbólica para dizer que o Senhor nos envia a fazer de todas as nações discípulos de Cristo. Tinha-se na época, e isso é uma interpretação dos Padres da Igreja, não é exegética, mas a percepção de que se existia cento e cinquenta e três nações, que correspondiam às espécies também de peixes.

Jesus sempre convidando para a intimidade com Ele. Antes de enviar, vinde comer! Vinde estar Comigo! O Papa Francisco, em um de seus discursos para a vida consagrada, vai dizer: “O Senhor nos chama para estar com Ele e para anunciá-lo ao mundo”[5].

O Moysés, principalmente nos primeiros anos de Comunidade pregando sobre vida de oração, ele sempre usava dois exemplos muito marcantes. Um era aquele de Madre Teresa de Calcutá: Quando o trabalho começou a aumentar muito das missionárias da Caridade, vieram ver Madre Teresa, e disseram: “Madre, vamos diminuir o tempo de oração, porque o trabalho está aumentando”, e ela respondeu: “O trabalho está aumentando? Então vamos aumentar a oração, porque o que nós temos para dar não é de nós mesmos, mas é de Cristo, nosso Esposo”.

O outro exemplo era uma visão de um encontro da Renovação Carismática entre os líderes, onde Deus mostrava uma fonte de cristal que jorrava muita água, as multidões vinham beber dessa água, mas de repente parava de jorrar água, mas como o povo tinha sede, eles quebravam os cristais e começavam a engolir aqueles cristais de tanta sede.

Não havia mais água, mas eles, desesperados, engoliam os cristais e acabavam morrendo. A visão significava: “Vocês têm que continuar dando do Espírito Santo de Deus, e para isso devem permanecer rezando, fiéis a vossa vida de oração, porque senão vocês vão dar de vocês mesmos, e dando de vocês mesmos, vocês só podem fazer mal ao povo de Deus”.

Nosso fundador contava essas duas historinhas para mostrar a primazia da graça na vida cristã.

Nós necessitamos permanecer na presença de Deus para termos o que dar para as pessoas, senão vamos dar de nós mesmos, vamos levar as pessoas para nós mesmos, e aí vai haver as decepções com a Igreja, vai haver aquelas pequenas faltas de unidade, de fofoca, todas as coisas que terão sido levadas ao nosso nível tão minúsculo, quando na verdade o Senhor nos contempla às realidades do Alto.

Jesus convida: “Vinde comer”, vinde permanecer em intimidade Comigo! Como pano de fundo essas aparições nos dando uma lembrança do evento Eucarístico, Jesus que se dá como alimento à Igreja.

“Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe.

Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos”. Aqui o evangelista vai mostrando que a vida da Igreja é pautada pelo encontro com o Ressuscitado.

Como é que nós encontramos o Ressuscitado hoje? Através da leitura do Evangelho cotidiano, através da Adoração Eucarística.

Quantas vezes nós já não entramos na capela como que esmagados de preocupações, de sofrimentos mesmo, de situações que nos escapam, mas simplesmente ao permanecer sem pensar muito, mas em permanecer com Aquele que o nosso coração ama, nós fomos experimentando uma graça misteriosa de Ressurreição?

Encontrar o Ressuscitado na Eucaristia é encontrar o mistério da Ressurreição nas nossas vidas, mas se eu não acreditar mais, se eu viver de uma maneira automática, mecânica, eu vou me distanciando do mistério e vou achando de novo que a lei salva:

“Ah, eu estou rezando então estou bem com Deus”, quando na verdade não é uma questão de “eu estou fazendo isso ou aquilo”, mas é uma questão de encontrar o Ressuscitado. Através da Santa Missa também, poder comungar espiritualmente enquanto não podemos fisicamente, diante das Pandemias da vida, mas depois retomar a comunhão Eucarística e permitir que o Senhor venha nos alimentar com o mistério da vida em plenitude.

Não é qualquer “vidazinha” que Deus nos chama, mas uma vida em plenitude já neste mundo! Por isso que nós somos profetas, porque nós não somos chamados a viver como todo mundo, mas a nos alimentarmos de uma vida em plenitude, a vida do Ressuscitado que se manifesta até em meio as nossas dores de cada dia.

Senhor, nós Te pedimos que tu venhas nos encontrar todos os dias. Aumenta a nossa fé, para que esse encontro seja um encontro vivo e não um encontro mecânico, automático, que no fundo não é encontro nenhum. Faz-nos novos em Ti, Jesus! Ressuscita a nossa esperança! Faz-nos como o discípulo amado, profetas que anunciam ao mundo onde está o Senhor! Amém.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado! Shalom!

______________

[1] Lucas 5.
[2] Isaías 6,5.
[3] Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, 2° edição, 2002.
[4] Mateus 3, 9.
[5] Carta Apostólica do Papa Francisco às pessoas consagradas para proclamação do ano da vida consagrada. Vaticano, 21 de Novembro – Festa da Apresentação de Maria – do ano 2014. Clique AQUI para ter acesso.


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