Formação

Estudo Bíblico: O caminho que Deus fez para ir até o homem

Daniel Ramos, missionário da Comunidade Shalom na França, conduz o Estudo Bíblico de hoje a partir da Liturgia do Dia.

Foto: Unsplash

IV SEMANA DA QUARESMA

Primeira Leitura – Êxodo 32,7-14 | Salmo – 105/106 | Evangelho – João 5,31-47

Bom dia, queridos irmãos! Vamos mais uma vez meditar no Evangelho do dia, deixar o Senhor nos falar, converter a nossa consciência à mentalidade do Evangelho. 

A Palavra de Deus pode nos dar essa verdadeira conversão de vida. Deus não quer apenas mudar o nosso comportamento. É muito superficial. Quando você ama alguém, você quer o coração da pessoa, você não se contenta com menos disso não. Da mesma maneira é Deus, que é amor infinito. Deus não quer apenas que você vá à Missa ou que você reze o Terço. Claro que isso são momentos de intimidade com Ele muito importantes e essenciais, mas o que Deus quer mesmo é o seu coração, e isso é a Palavra de Deus que vai conquistando, nos apaixonando. Quanto mais tempo passamos com uma pessoa, mais vamos aprender a amá-la. Quanto menos tempo passamos, menos a conhecemos. 

Então, se é verdade que Deus ama a todos, nem sempre é verdade dizer que todos amam a Deus. Por mais que tenhamos um carinho às vezes quando pensamos em Deus, ou até aquela relação um pouco supersticiosa: “Ah, vou rezar um pouquinho para ver se dá certo”, e lembramo-nos de Deus quando estamos na necessidade, e depois vamos viver a vida como se Ele não existisse. O Senhor nos ama tanto que até isso Ele aceita, mas o que Ele quer mesmo é o nosso coração. Rezando com o Evangelho nesses dias nós vamos permitir que o Senhor vá conquistando o nosso coração para Ele.

O caminho que Deus fez para ir até o homem

A diferença entre o cristianismo e as outras religiões é porque todas as outras religiões mostram um caminho que o homem deve fazer para ir até Deus, e o cristianismo mostra em primeiro lugar o caminho que Deus fez para ir até o homem e salvá-lo, e ao nos salvar, nos amando, esse amor muda o nosso ser. Só o amor é capaz de nos mudar.

Nessa Quaresma, no Tempo Pascal, vamos ver o que Deus fez por nós, o que Deus faz por nós, porque na Celebração Eucarística é atualizado esse mistério. Mesmo que você esteja assistindo nesse tempo pela televisão, mas a Celebração Eucarística nos introduz no hoje de Deus. Então, aquilo que aconteceu há 2.000 anos é trazido para o nosso hoje, ou melhor, nós somos levados para o tempo de Deus, e as mesmas graças que estavam disponíveis para a humanidade há 2.000 anos quando Jesus morreu na cruz, estão disponíveis para nós quando celebramos o mistério Pascal.

Vamos pedir o Espírito Santo, para que ele ilumine a nossa leitura orante da Palavra de Deus: “Senhor, nos te pedimos, envia sobre nós o Teu Espírito, porque sem Ti nada podemos fazer. no entanto, tudo podemos naquele que nos fortalece. Derrama unção, Senhor, sobre nós, para que possamos experimentar com gosto a Tua Palavra. Retira a nossa insensibilidade e dai-nos a Tua graça, Senhor. Como os doentes, Senhor, que perdem os gostos das melhores comidas porque estão doentes, muitas vezes o pecado tirou o gosto das coisas de Deus do nosso coração. Vem nos curar dos nossos pecados, liberta-nos deles, para que nós possamos de novo degustar, sentir o gosto das coisas espirituais”.

Vamos abrir o Evangelho de hoje, quinta-feira da IV semana da Quaresma, João 5, 31-47:

“Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: “Se eu der testemunho de mim mesmo, meu testemunho não vale; mas há um outro que dá testemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. Vós mandastes mensageiros a João e ele deu testemunho da verdade. Eu, porém, não dependo do testemunho de um ser humano; mas falo assim, para a vossa salvação. João era uma lâmpada que estava acesa a brilhar e vós com prazer vos alegrastes por um tempo, com a sua luz. Mas eu tenho um testemunho maior que o de João: as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou. E também o Pai que me enviou dá testemunho a meu favor. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes sua face, e sua palavra não encontrou morada em vós, pois não acreditais naquele que ele enviou. Vós examinais as Escrituras pensando que nelas possuis a vida eterna; no entanto, as Escrituras dão testemunho de mim, mas não quereis vir a mim para ter a vida eterna. Eu não recebo a glória que vem dos homens. Mas eu sei que não tendes em vós o amor de Deus. Eu vim em nome do meu Pai, e vós não me recebeis; Mas se um outro viesse em seu próprio nome, a este vós o receberíeis. Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus? Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai; Há alguém que vos acusa, Moisés, no qual colocastes a vossa esperança. Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu. Mas se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis então nas minhas palavras?

A vida eterna não é simplesmente você nunca morrer

Nós vamos entrando aqui nas leituras do dia nesse confronto, nesse diálogo difícil entre Jesus e as autoridades judaicas. Aqui é questão de testemunho. Quem fala a verdade? Quem fala a verdade? Jesus vai falar que o Pai e as obras que o Pai permite que Jesus cumpra dão testemunho Dele. Jesus vai falar que não depende de um testemunho de um ser humano, por quê?

Porque o ser humano testemunha daquilo que é humano. Então, o testemunho que Jesus recebe é o testemunho do Pai, porque as obras de Jesus dão testemunho de um outro estilo de vida, que não é um estilo de vida puramente natural, mas um estilo de vida que nos conduz a viver para sempre, e viver feliz para sempre.

A vida eterna não é simplesmente você nunca morrer. Você pode nunca morrer, mas estar sofrendo. A vida eterna a qual Jesus nos chama é um viver para sempre feliz, para sempre jubiloso, para sempre no amor e na verdade. Mas para isso é preciso acolher a Palavra que Jesus traz. 

E aí ele vai dizer algo muito impressionante, que me questiona pessoalmente: “Mas se um outro viesse dar testemunho em seu próprio nome, a este vós o receberíeis”, porque? Porque os homens quando aparecem, e têm aquelas pessoas que ficam famosas, os influenciadores da sociedade, então, essas pessoas vão falar de uma vida mundana, uma vida aparentemente feliz, aquela vida que as pessoas sonham: “Ah, eu queria ser rico, queria que todos me amassem. Eu queria que todos fossem loucos por mim, que todos me reconhecessem”.

É uma vida onde o nosso eu, o nosso ego, está no centro. Só que aparentemente essa vida é uma vdia feliz, mas quando você olha de perto esse ego, esse eu que está no centro, é como um fruto oco, é como uma castanha, algo que está oco no interior. Existe um grande vazio interior.

Quando você não quer mais viver…

Eu fiquei muito impressionado escutando as notícias esses dias, em que a primeira ministra da Alemanha, Angela Dorothea Merkel, disse que não queria decretar um confinamento, uma quarentena total na Alemanha com medo de uma onda de suicídios. Eu fiquei pensando: “Meu Deus, quando você não quer mais viver, mesmo tendo dinheiro, mesmo tendo condições para fazer o que você está com vontade de fazer a nível das suas próprias paixões, dos seus desejos, você não pode ficar na sua casa muito tempo porque senão você é tentado – e a não ser que a pessoa esteja doente-, mas toda uma sociedade que pode ter uma onda de suicídios?

Cabe a nós nos perguntar: será que se nós chegamos a esses ponto como sociedade é porque o nosso ego está no centro? E quando nós estamos no centro nós temos a responsabilidade de sermos deus para nós mesmos. Só que ninguém tem os ombros largos o bastante para se fazer feliz como só Deus pode fazer alguém feliz. 

O homem é limitado, mas ele tem um coração com uma sede ilimitada de felicidade. Se ele colocar uma pessoa humana no centro, ele primeiro vai ser muito exigente e essa pessoa vai ter de fazê-lo feliz, e como ela nunca vai poder ser perfeita, nunca vai poder ser Deus para ele, ela não vai aguentar.

E aí são casamentos que não dão certo, porque eu espero do esposo que ele me dê uma perfeição que eu espero no fundo de Deus. Mas como eu ainda não tenho essa experiência pessoal profunda com Deus, eu espero essa experiência que só Deus pode me dar daquela pessoa, ou espero dos filhos, dos pais. Às vezes eu posso até estar num caminho de fé já, ir à missa, mas será que eu espero do meu esposo, dos meus filhos, da minha esposa, do meu trabalho, que ele me dê uma compensação, um sentimento de plenitude que só Deus pode me dar? 

Quaresma mundial de isolamento

E aí o Senhor permite que vivamos essa Quaresma mundial de isolamento porque Ele nos leva a um tipo de deserto, e no deserto só permanece o que é essencial. O Senhor nos convida a não esperar mais uns dos outros o testemunho de que essas pessoas podem nos cumular de plenitude, mas a voltar-nos para Jesus.

O Papa Joao Paulo II escreveu um documento em 2003, Ecclesia in Europa, mas acredito que para todo o Ocidente é válido o que ele disse. Ele diz que o grande problema do europeu é que ele acha que sabe o que é o cristianismo, mas ele não conhece nem mais os fundamentos mais essenciais do cristianismo. Acham que sabe o que é a Igreja, acham que sabe o que é a fé. Eles dizem: “Eu sei o que é a fé. É aquela coisa chata, aquela missa chata”, e aí vai em busca de outros que dão testemunho de si mesmos e não acolhem o testemunho que o Pai dá de Jesus.

E o Senhor nos convida, então, que nós permitamos que as obras que Ele faz deem testemunho Dele no nosso coração. Nós nunca ouvimos a Sua voz, a voz do Pai, nem vimos a Sua face, e Sua palavra que pode nos revelar, o teor da voz de Deus e a luz da Sua face, nós não acolhemos no mais profundo do nosso coração. Nós até examinamos as Escrituras, mas nós não reconhecemos o amor de Deus por nós.

Grande estado de infelicidade

Irmãos, a humanidade, desde o pecado original, se encontra num grande estado de infelicidade. A maior desgraça que se abateu sobre a humanidade foi o primeiro pecado do homem. Sabemos que os primeiros capítulos do Gênesis não são históricos, são histórias que foram criadas para falar de algo que aconteceu no início, que não sabemos como aconteceu, mas que aconteceu. E o que eles falam? Que no início da humanidade Deus provou os primeiros homens e esperou deles uma resposta amorosa para que eles se afirmassem na felicidade da comunhão com Deus. Mas nessa prova os primeiros, os nossos ancestrais, se deixaram seduzir pelo maligno. 

E aí dizemos: “Mas o que eu tenho a ver com isso? eu não estava nem lá”. Isso é porque a nossa mentalidade ainda é muito centralizada no nosso ego. Então, achamos que “onde eu não estou, não tenho nada a ver com isso”, e não compreendemos  a solidariedade mundial que os homens tem uns para com os outros. 

Tudo o que eu faço de bom atinge a humanidade toda, e tudo o que faço de mal também. Eu achar que o que faço de bom só diz respeito a mim e o que faço de mal só diz respeito a mim, é como se eu estivesse num barco e fizesse um furo debaixo do meu banco, a água começar a entrar, e dizer: “Não, mas está debaixo do meu banco. O banco é meu. Pode entrar água aqui”. Só que essa água vai para todo o barco, e todo mundo vai se afundar. Enato, um ato de amor eleva a humanidade inteira. Um ato de desamor abaixa a humanidade inteira.

Em segundo lugar, como aquele pai rico que acaba sendo irresponsável e gasta  todo os eu dinheiro com bebidas, mulheres, drogas, jogos, e ao final da vida não deixa um centavo de herança para seus filhos, porque? Porque viveu como um eterno adolescente e gastou a sua herança. Os nossos ancestrais gastaram a vida eterna que Deus tinha dado para eles, e aí a morte entrou no mundo. Deram-nos como herança a morte. Por isso que nós moremos.

Queremos a comunhão com Deus

Mas o que vamos celebrar daqui a alguns dias é justamente Jesus que pegou essa morte que os nossos ancestrais deixaram como herança e a encheu com a Sua presença de amor, e assim Jesus implode a morte. Ele transforma a morte numa passagem para uma vida sem dor, uma vida feliz. 

Nós continuaremos a morrer, porque precisamos ainda escolher se queremos a comunhão com Deus ou não, e não escolher da boca para fora, mas escolher uma vida entregue a Deus, ao Espírito Santo. Acolher o testemunho que o Pai dá em Jesus ao recebermos o Espírito Santo que Ele derrama sobre nós hoje, e todos os dias afirmar essa escolha: eu opto por Ti, Senhor. Hoje eu quero te escolher! Hoje existe esse caminho aqui que vai quebrar a minha comunhão contigo.

Talvez seja um caminho até que me dê certo consolo imediato, mas depois vai me levar, como toda compensação, a um sentimento de vazio. Talvez hoje optar por Ti seja um grande sacrifício, mas como todo sacrifício abraçado por amor, quando eu abraço por amor vem a alegria de ter sido fiel.

Irmãos, se é verdade que existe uma imensa alegria em ser perdoado por Deus, é verdade também que existe uma imensa alegria quando nós começamos a ser fiéis a Deus. Vamos pedir a graça hoje de acolher o testemunho que o Pai dá de Jesus, de acolher Jesus na nossa vida, e não fazer como esses doutores da lei que conheciam as Escrituras, mas tinham uma vida dupla. Quantas vezes eu mesmo fui tentado quanto a isso, e o Senhor hoje me convida a uma profunda fidelidade, e eu quero, dia após dia, apoiado na Sua graça, dizer: “Sim, Senhor. Eu quero ser santo. Serei santo se for santo hoje!”.

Agora, o que fazemos com a palavra, com aquilo que Deus nos falou pela Sua palavra? Nós rezamos. Nós terminamos a nossa leitura orante rezando, e você depois de terminar de assistir esse vídeo pode continuar a rezar, ir dizendo com as suas palavras ou com uma música, ou no silêncio: “Senhor, dai-me a graça de Te acolher. Porque às vezes achamos que já Te acolhemos, mas será? Será que nós já Te acolhemos, Jesus? Será que a minha vida dá testemunho de alguém que já Te acolheu, que se deixa iluminar pela Tua luz? Que se enraíza na Tua graça, que não deixa a graça passar? Oh Senhor, por favor, faz-me fiel! Dai-me não apenas a felicidade de ser perdoado por Ti, mas a intensa felicidade de Te ser fiel”. 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado! Shalom!

Daniel Ramos
Comunidade de Vida


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