Formação

Estudo Bíblico: Rezo não somente por eles, mas por aqueles que crerão em suas palavras

Elton Alves, missionário da Comunidade Católica Shalom na Alemanha, conduz o Estudo Bíblico deste sábado a partir da meditação do Evangelho.

comshalom

V SEMANA DA QUARESMA (Roxo – Ofício do Dia)
 
1ª Leitura – Ez 37,21-28 | Salmo – Jr 31, 10. 11-12ab. 13 (R. Cf. 10d)
Evangelho – Jo 11,45-56
 

Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém.

Súplica

Espírito Santo de Deus, nós suplicamos a Tua intervenção em nossas vidas, para que compreendamos as Sagradas Escrituras, sobretudo neste tempo tão rico de Quaresma, esse tempo conclusivo. Que o Evangelho de Jesus Cristo possa penetrar em nossas vidas e transformá-las. Amém.

___________

Então, nós vamos iniciar mais uma Lectio, mais uma compreensão e um favorecimento à oração com a Palavra de Deus, e queremos fazê-lo com o Evangelho deste dia de hoje, sábado que precede o Domingo de Ramos, ou seja, o sábado que precede a Semana Santa. Por isso, a temática do Evangelho, particularmente o Evangelho de João, que leremos, é riquíssima e realmente nos introduz naquilo que estamos vivendo.

___________

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João 11,45-56.

Naquele tempo, muitos dos judeus que tinham vindo à casa de Maria, tendo visto o que ele fizera, creram nele. Mas alguns dirigiram-se aos fariseus e lhes disseram o que Jesus fizera. Então, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: “Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação”. Um deles, porém, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: “Vós nada entendeis. Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?”. Não dizia isso por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação – e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos. Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo. Jesus, por isso, não andava em público, entre os judeus, mas retirou-se para a região próxima do deserto, para a cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com seus discípulos. Ora, a Páscoa dos judeus estava próxima, e muitos subiram do campo a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. Eles procuravam Jesus e, estando no Templo, diziam entre si: “Que pensais? Virá ele à festa?” Os chefes dos sacerdotes e os fariseus, porém, tinham ordenado: se alguém soubesse onde ele estava, o indicasse, para que o prendessem. Palavra da Salvação.[1]

Meditação

Nós temos aqui uma passagem que sucede um fato muito importante no Evangelho de João, porque aquilo que vem antes do versículo 45 são exatamente as palavras de Jesus ditas a Lázaro: ““Lázaro, vem para fora!” O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o ir””[2]. E aí exatamente segue-se o Evangelho que acabamos de ler.

Nós estamos no momento exato em que Jesus acaba de realizar o Seu último milagre no Evangelho de João, que João não chama de milagre, mas João chama de sinais.

São sete sinais que Jesus realiza, a começar pela transformação da água em vinho[3], em Caná; depois a cura do filho do funcionário da Sinagoga[4]; depois, temos outros sinais, como o homem que estava há 38 anos e não andava, ao lado da piscina de Betesda[5]. Temos, em seguida, o pão da vida, temos Jesus que multiplica o pão[6], depois Jesus que caminha sobre as águas[7]. Temos, no capítulo 9, o cego de nascimento[8]. No capítulo 11 completa-se o 7° sinal, que é justamente o momento em que Jesus ressuscita Lázaro.

Porque é chamado de sinal no Evangelho de João?

O sinal, como nós sabemos, o nome indica, sinaliza algo. O milagre que Jesus está realizando é um sinal de algo. O que é este algo? A pessoa de Jesus, a identidade de Jesus.

Nós estamos no momento em que Jesus realizou Seu 7° sinal. Sete não é um número casual nem no Evangelho de João e nem nas Sagradas Escrituras. Jesus completa, assim, a manifestação daquilo que Ele é, de quem Ele é para os Seus discípulos e para o mundo. Jesus realiza esses sete sinais para indicar quem realente Jesus é.

É muito interessante percorrer cada um dos sete sinais e colher dali a riqueza da identidade de Jesus.

Nós temos esse 7° sinal: a Ressurreição. E Jesus, antes de realizar este 7° sinal, Ele falou justamente para a irmã de Lázaro. Ele disse a Marta: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?”[9]. Ou seja, Jesus diz que Ele é a ressurreição. Ele já havia dito dentro do Evangelho de João que Ele era a vida: “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida”[10].

Ora, a morte não pode vencer a vida. A própria vida, como disse Ratzinger na sua 1° homilia como Papa, em 2005, a própria vida não pode ser prisioneira da morte.

Jesus Cristo disse: “Eu sou a ressurreição”, e já havia dito: “Eu sou a vida”. Por isso, é uma frase difícil de compreender esta, mas o sinal faz compreender. Jesus dá a vida àquele homem, àquele homem que já há 4 dias estava ali. O cheiro, o odor ruim já estava sendo exalado.

Então, nós vemos ali a situação onde humanamente não há mais esperança, como foi com o cego de nascimento. Ele nunca enxergou. Diferentemente dos outros milagres que Jesus realiza nos Sinóticos, onde cura o cego, este homem nunca enxergou.

A esperança estava acabada, e, no entanto, chega àquele que é capaz de dar a esperança – com a linguagem de Paulo- contra toda esperança[11], contra toda expectativa humana Cristo vem vencer. É importante porque esse é o contexto do Evangelho no qual nós nos encontramos, tempo breve que precede a Páscoa, como diz o texto.

“A Páscoa dos judeus estava próxima”, diz o evangelista João 11, 55. A Páscoa estava próxima e Jesus realizou, enfim, o último dos Seus sinais.

E agora, qual é a reação dos judeus? Já no capítulo 5, após a realização de mais um sinal, que foi o sinal daquele coxo ao lado da piscina de Betesda que é curado, após aquele sinal os judeus já começam a querer matar Jesus.

Vamos retomar parte por parte desse Evangelho. “Naquele tempo, muitos dos judeus que tinham vindo à casa de Maria, tendo visto o que ele fizera, creram nele”. O que Ele fizera? A ressurreição de Lázaro. Muitos creram Nele.

“Mas alguns dirigiram-se aos fariseus e lhes disseram o que Jesus fizera”. Não se diz aqui se foi por maldade que esses outros foram até os fariseus, mas, realmente, foram lá e disseram que Jesus havia ressuscitado Lázaro, que era conhecido.

“Então, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o Conselho e disseram: “Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais””. Os fariseus e os sacerdotes, estes que estão em Conselho, se reúnem. Reunindo-se, discutem sobre Jesus. Eles sabem que Jesus realizou muitos sinais.

“Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação”. Há alguns elementos importantes nessa frase. “Se o deixarmos assim, todos crerão nele”, ou seja, eles têm medo que os sinais realizem a sua função, que é levar os homens a crerem em Jesus. É isso o que Diz João ao final do seu Evangelho: “Muitas outras coisas fez Jesus, que não caberia em todos os livros do mundo, mas essas que estão relatadas, foram relatadas para que creias no Filho de Deus”[12]. Os sinais têm por objetivo levar a fé em Jesus.

“E os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação”. Porque que os romanos virão?

Porque o que os judeus temem é um messianismo, é o nascimento de um messianismo que contradiga um pouco aquilo que é a fé hebraica.

E de repente, com esse movimento, o povo seguindo uma norma e algumas leis que não correspondem mais à lei hebraica, a lei hebraica perca a força.

Então, sem o apoio do povo, os romanos, que já dominavam naquela região, pudessem simplesmente retirar esses judeus do meio, que são inoportunos para os romanos. Então, a preocupação é uma preocupação compreensível.

Se nós olhamos o capítulo 12, ou seja, o capitulo seguinte, no versículo 12-13, lemos: “No dia seguinte, a grande multidão que viera para a festa, sabendo que Jesus vinha a Jerusalém, tomou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e o rei de Israel!””. Olha só!

O que os fariseus e sacerdote temem está se manifestando no capítulo 12, o capítulo seguinte, exatamente o que se segue aos relatos que estamos lendo. Os romanos vêm diante de um messianismo que começa a tomar força. A lei hebraica começa a perder força, e os romanos, sem dúvida, não perderiam tempo em retirar os judeus, o lugar santo, que foram tão inoportunos algumas vezes para os romanos.

Sendo assim, tanto que no ano 70 vai ser destruído justamente o templo santo por causa das revoltas judaicas, daquele grupo fervoroso, mas no sentido até negativo muitas vezes, e que queria se livrar de Roma, e Roma estava atenta a isso. Os judeus, então, temem.

Mas há um outro elemento importante aqui! “Todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação”. A nação. Destruir o lugar santo, destruir a nação. Nação, em grego, temos duas palavras, assim como também em hebraico temos ao menos duas palavras.

Nós temos uma palavra para indicar no grego – porque se trata do Evangelho que foi escrito em grego – Laós (λαός), que indica povo santo; e nós temos Éthnos (ἔθνος), que indica as nações pagãs. Era uma forma de distinguir. Mas João coloca aqui, nas palavras desses fariseus e sacerdotes:

“Os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação”, e nação aqui que se trata de Israel, não está escrito como Laós, que é o nome, vamos dizer assim, desse povo eleito por Deus, mas Éthnos.

Ou seja, Israel é confessado por esses judeus não como esse povo, vamos dizer assim, separado, mas agora há um novo Israel, um novo Israel está se constituindo. E porque este novo Israel está se constituindo, não é mais só o Laós, aquele povo ali consanguíneo dos israelitas, mas Éthnos, todas as nações – de onde vem a palavra etnia-, todas as nações constituíam o novo Israel, a partir de Cristo.

“Um deles, porém, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: “Vós nada entendeis. Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?”. Não dizia isso por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação”. Olha só!

O Sumo Sacerdote, até ignorando um pouco o que ele mesmo está dizendo, ignorando não tendo compreensão profunda do que se está dizendo, porque diz João:

“Não dizia isso por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote”, disse: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda”.

Ou seja, Caifás está dizendo que esta morte é uma morte por todo o povo, é uma morte que realiza a expiação de todo o povo.

João diz: “Profetizou”. No judaísmo nós temos profetas involuntários. Temos, por exemplo, o próprio Pilatos, que vai dizer de Jesus: “Eis o homem”[13]. Nós temos, no Antigo Testamento, Balaão, um pagão, que profetiza ao povo de Israel, que diz que vai ali para amaldiçoar, mas no final acaba bendizendo e reconhecendo a grandeza deste povo[14].

Nós temos aqui Caifás, que sim, é um judeu, mas profetiza, e sua profecia está muito além daquilo que ele mesmo tinha compreensão: “É de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda”, ou seja, a morte de Cristo é aqui acentuada.

“Profetizou que Jesus morreria pela nação – e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos”. Lembram-se que acabamos de falar de nação? Éthnos?

A morte de Cristo serve para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos. Ou seja, a morte de Cristo realiza aquilo que Ele mesmo havia dito.

Se olharmos o João 12, 32, que é o capítulo seguinte, Jesus diz: “E quando eu for elevado da terra pela cruz, atrairei todos a mim”. Atrairei! Cristo é elevado da terra pela cruz. Ele atrai a humanidade assim, gerando aquela unidade que Ele vai suplicar ao Pai na oração sacerdotal: “Que todos sejam um”[15].

Mas o que significa que todos sejam um? “Como eu estou em ti!” Não é que todos concordem, estejam felizes e harmoniosos. Não é. Isso seria muito pouco. O que Jesus está pedindo é que todos estejam na unidade que Ele tem com o Pai. “Eles em mim e eu em ti”[16], disse Jesus. E Jesus continua, na oração sacerdotal: “Não rezo só por esses”, ou seja, os Seus apóstolos, “mas rezo por aqueles que crerão em sua Palavra”.

Também em João 10 Jesus vai falar que há muitas ovelhas que não são deste redil, que Ele ainda tem muitas ovelhas que não são deste redil.

Ou seja, o Bom Pastor, a ação de Cristo que entrega a Sua vida, porque quando Ele fala como Bom Pastor, Ele diz: “Ninguém tira a minha vida. Eu a entrego”[17], já indicando essa Sua morte para depois recuperá-la em Sua ressurreição, com o qual as ovelhas dispersas vão entrar no Seu redil, e aqui também:

“Quando for elevado da terra atrairei”.

Na oração sacerdotal, rezo não somente por eles, mas por aqueles que crerão nas palavras deles, pelos homens que continuarão a ser congregados, a ser integrados na unidade deste redil, cujo Pastor é Jesus Cristo. Por isso, congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos.

“Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo. Jesus, por isso, não andava em público, entre os judeus, mas retirou-se para a região próxima do deserto, para a cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com seus discípulos”.

Jesus se retira mais uma vez para um lugar distante onde Ele pode aguardar a Sua hora.

“Ora, a Páscoa dos judeus estava próxima, e muitos subiram do campo a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem. Eles procuravam Jesus e, estando no Templo, diziam entre si: “Que pensais? Virá ele à festa?” Os chefes dos sacerdotes e os fariseus, porém, tinham ordenado: se alguém soubesse onde ele estava, o indicasse, para que o prendessem”.

Considerações finais: Quando Jesus cura o cego de nascimento, os fariseus vão lá averiguar o que foi que aconteceu, e começam a perguntar: “O que foi que te aconteceu? O que este homem fez? Quem é este homem?”.

Depois vão perguntar às pessoas que conhecem este que era cego de nascimento, e em seguida perguntam até aos pais deste, fazem uma verdadeira pesquisa de campo para entender o que foi que aconteceu.

Os judeus aqui não fazem nenhuma pesquisa de campo. A ressurreição de Lázaro é algo tão evidente que não era necessário. 

O que surpreende aqui?

Quando Jesus se manifesta em Sua máxima potência, isto é, ressuscita um morto que jazia na morte há 4 dias, quando para os judeus já não havia mais nenhum sinal de vida e a decomposição se manifestava, o maior sinal, e é então que o coração deles se fecha completamente e decidem a morte de Jesus.

Ou seja, diante da luz divina, se não formos dóceis podemos cair no mistério da iniquidade, que é fechar o coração para não enxergar mais as grandezas de Deus, a beleza de Deus. Este é um grande mal. Que o Senhor nos livre! 

Que diante da imensidão de luz que jorra para nós do Seu Evangelho, possamos crer.

Oração

Senhor, nós Te suplicamos: apaga de nós, retira de nós este mistério de iniquidade que não quer enxergar a Tua luz e a Tua vida. Senhor, que não sejamos como estes fariseus, estes que se fecharam, mesmo diante da manifestação mais surpreendente de Tua glória. Senhor, queremos suplicar que este coração duro, o nosso, seja visitado por Tua graça.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado!

[1] Tradução Bíblia de Jerusalém.
[2] João 11, 43-44
[3] João 2, 1-11.
[4] João 4, 46-54.
[5] João 5, 1-18.
[6] João 6, 1-21.
[7] João 6, 16-21.
[8] João 9, 1-41.
[9] João 11, 25-26.
[10] João 14, 6.
[11] Romanos 5, 1-2.
[12] João 21, 25.
[13] João 19, 5.
[14] Números 22-24.
[15] João 17, 21.
[16] Joao 17,9.
[17] João 10, 18.

Elton Alves, Missionário da Comunidade de Vida Shalom na Alemanha


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *