Institucional

Eu, o Tau e o mendigo

Em uma cidade enorme como São Paulo me chama a atenção que um simbolo tão pequeno chame tanto a atenção das pessoas que cruzam conosco por essas ruas e avenidas tão movimentadas e tão cheia de outros simbolos.

Era segunda-feira, neo-discípulo, fui à missa em uma paróquia, pela primeira vez, usando meu tau. Era uma manhã fria. Voltava para casa. Eu em meu costume de prestar atenção em tudo o que me rodeia. Um mendigo caminha em minha direção e me pára. Segue-se um dos diálogos mais emblemáticos e ao mesmo tempo revelador para mim.

– Me dá esse cordão com essa cruz.

-Ih, negão este aqui não posso não. Mas providencio outro para ti.

-Mas eu quero é esse. Esse teu.

-Este não.

E toca no sinal. E eu querendo evitar esse toque. Com medo de sujar, de contaminar com algo de sua falta de higiene. Passado mais de três horas do acontecido, viajando para São Luis do Maranhão, eu entendo que ele não sujou meu sinal. Ele o abençoou. Lembro neste exato momento de uma frase de Nikos Kazantzakis que em seu livro O pobre de Deus  diz que “as vezes, Jesus vem à terra disfarçado de mendigo”. Lembro de meu amigo Francisco com medo e asco do leproso. Eu, ainda, emotivo pelo ingresso no discipulado, me emociono só em pensar naquele e neste encontro. No diálogo que se estabeleceu entre aqueles homens e entre eu e esse mendigo. E me arrependo, ao relembrar da expressão de desejo que se estampou em seu rosto. Eu não o abracei. Poderia ter feito isso. Apenas pus as mãos em seus ombros e continuei:

-Esta não é apenas uma cruz. É um tau. É o simbolo visível de uma vocação invisível. É de uma comunidade.

-Mas eu quero. Ela é minha.

Me dói seriamente não ter chamado ele para ir comigo no Shalom.

-Meu irmão, quer algo para comer?

-Não. Quero esse teu cordão.

Escrevendo sobre isso a emoção toma conta de mim. Eu que estava com tanto medo de como me veriam usando o tau, de como seria tratado na faculdade por meus professores e colegas de turma. É para sentir vergonha, eu sei. Mas a vergonha cedeu seu lugar à alegria, porque esse mendigo veio me dizer o que nenhuma daquelas pessoas a quem eu confessara isso me disse: “esse tau é o sinal de Deus em tua vida. Ele te fará alguém melhor. Ele te levará ao encontro de Deus e de quem Ele quer que você evangelize. Ele te fará amar aqueles que ninguém ama, ele te fará perceber os invisíveis desta sociedade”

É revelador para a minha vocação que na última reciclagem eu tenha  tirado como pessoas pelas eu devesse rezar justamente os moradores de rua. Que Deus é esse que vem nos lembrar do que esquecemos e é importante em nossas vidas? Quem me conhece sabe que sou teimoso. Que sou resistente. Sabe que eu tenho muito mais perguntas do que respostas. E quando penso em tantas perguntas uma certeza se faz: eu jamais terei respostas para muitas dessas perguntas, mas um dia, ao chegar diante de meu Senhor, Ele me dirá: senta-te aqui, sabe aquelas perguntas todas? Aqui estão as respostas.

Mas enquanto este dia não chega, Ele com sua pedagogia fantástica vai respondendo algumas. E uma delas foi essa.

Eu não dei o meu sinal a ele. Mas me decidi a ter sempre comigo algo que pudesse expressar o amor de Deus pela humanidade como Ele fez comigo.

“Querido Deus, eu não sei aonde me levarás, mas ensine-me a ser teu sinal nesta cidade e aonde me enviares. Como meu santo do ano eu me abandono em ti e com a valentia de Francisco eu te suplico faze de mim o que quiseres. Estou aqui e diposto a tudo, desde que a tua vontade se faça em minha vida.”

Jorge Marvão

Neo-Discípulo/ Missão São Paulo

 

 


Comentários

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  1. Jorge, enquanto eu lia, inicialmente, entendi o morador de rua como sendo Jesus e não o seu leproso. O próprio Jesus que TE pede: me dá a sua cruz, me dá a sua vocação, me dá a sua vida. É para “mim”(o mendigo) que vc tem esta cruz.

    Deus te abençoe e sustente! Parabéns por este novo passo.

    Bruna Arreguy Marcondes – P2 Cal – Nova Friburgo (RJ)