Formação

“Eu queria ser médico”

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Dom Benedicto de Ulhôa Vieira


O grande teólogo dominicano, Padre Yves Congar, que deixou uma valiosa obra teológica, nos narra que “aos nove anos queria ser médico”.Quando, criança ainda, fez a primeira comunhão. Sua piedosa tia quisdar-lhe um presente e perguntou-lhe o que queria. Se fosse brasileiro,por certo teria pedido uma bola de futebol ou talvez, infelizmente, umuniforme do Corintians… mas não. Pediu um microscópio! Tinha apenasdez anos e prenunciava ser mesmo médico.

Mas,após a guerra de 14-18, vendo a miséria dos prisioneiros e dos pobres,veio-lhe a ideia do sacerdócio, já na quase entrada da adolescência.Ele conta o vazio de outras coisas que então sentia, quando clareou aideia de ser padre.

Daí para a frente, encantava-se, ao recitar o cântico de Zacarias (Lc 1, 68-79) no versículo: “Tu, menino, serás profeta do Altíssimo; irás à frente do Senhor para preparar-lhe o caminho”.Ao terminar o curso do Seminário Menor, foi aluno de Maritain e dodominicano Padre Blanche no Instituto Católico de Paris. Encantou-secom a espiritualidade da Ordem domincana e embebeu-se com a atmosferade intelectualidade e de serviço à Verdade. Assim se fez dominicano.

Aorelatar sua Ordenação Sacerdotal em julho de 1930, iluminou-se com suatríplice vocação: sacerdotal, dominicana e ecumênica. E no decorrer desua longa e frutuosa vida de mestre em teologia, deixou valiosa obrateológica e, como teólogo do Concílio Vaticano II, teve brilhante esilenciosa atuação no documento “Lúmen Gentium”.

Porque esta extemporânea lembrança de Padre Congar num simples artigosemanal? Veio-me esta inspiração por ter tido nossa Arquidiocese, hápoucos dias, a felicidade de ordenar cinco novos sacerdotes para oserviço de nosso povo. Uma ordenação suscita lembrança de grandessacerdotes do passado.

Cadapadre – novo ou velho – tem uma história pessoal diferente, com umdenominador comum: o chamado silencioso, mas cativante de Deus nasoiças atentas da alma. 

Setivéssemos a oportunidade de conhecer a história de cada um dos cinconeo-sacerdotes, teríamos por certo as mais lindas confidências sobrecomo foi que o Senhor os chamou para o seu serviço, que é o anúncio doEvangelho e a administração da graça.

Assimcomo o padre Congar, que em criança, queria ser médico e Deus o quisteólogo e padre, cada sacerdote tem a história do seu chamado, isto é,do sussurro da voz divina, que um dia o levou para a beira do altar,apesar de, em criança, ter tido sonhos de outras coisas.

É assim o mistério da vocação, que se faz história na vida sacerdotal de cada um de nós.


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