Formação

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida

comshalom

Esta fé «do coração» é fruto de uma especial unção do Espírito. Quando se está sob esta unção, a fé cria uma espécie de conhecimento, de visão, de iluminação interior: «Nós cremos e conhecemos» (Jo 6, 69); «Contemplamos o Verbo da vida» (cf. 1 Jo 1, 1). Ouça Jesus afirmar: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim» (Jo 14, 6) e ouça dentro de você, com todo o seu ser, que aquilo que escuta é verdadeiro.

Conheci recentemente um caso impressionante desta iluminação de fé ocorrida justamente graças a esta palavra de Jesus transmitida por João. Conheci em Milão um artista suíço que teve amizade com as personalidades filosóficas e artísticas mais conhecidas de seu tempo e organizou mostras pessoais de pintura em várias partes do mundo. (Um quadro seu foi exposto e adquirido pelo Vaticano por ocasião do octogésimo aniversário de Paulo VI).

Sua apaixonada pesquisa religiosa o tinha levado a aderir ao budismo e ao hinduísmo. Depois de longas estadas no Tibet, Índia, Japão, tornou-se um mestre em tais disciplinas. Em Milão, tinha todo um grupo de profissionais e homens de cultura que recorriam à sua orientação espiritual e praticavam com ele meditações transcendentais e yoga.

Seu retorno à fé em Cristo me pareceu imediatamente um testemunho extraordinariamente atual e insisti muito para que colocasse por escrito. Chegou-me justamente neste dia seu manuscrito e quero ler um pequeno trecho. Ajuda, entre outras coisas, a entender o que Saulo viveu no caminho de Damasco, diante da luz que destruía em um instante todo o seu mundo interior e o substituía com outro:

«Encontrava-me só, em um bosque espesso, quando veio aquela revolução interior que mudou toda a estrutura pensante da minha mente. Conhecia as palavras de Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém chega ao Pai senão por mim”. Mas, no passado, achava um tanto presunçosas. Agora estas palavras golpeavam o centro de meu ser. Depois de trinta e cinco anos de budismo, hinduísmo e taoísmo, eu era atraído por «aquele Deus». Contudo havia em mim a presença de uma profunda rejeição por tudo o que se refere ao cristianismo. Lentamente, senti invadir-me uma estranha sensação inteiramente nova, como jamais tinha experimentado. Percebi a presença de Alguém que emanava uma extraordinária força».

«Aquelas palavras de Cristo me obcecavam, tornando-se um pesadelo. Resisti, mas o som interior se ampliava e retornava como um eco em minha consciência. Cheguei perto do pânico, perdi o controle sobre minha mente e isto depois de trinta anos de meditação profunda era para mim inconcebível. “Sim, é verdade, tem razão, gritava, é verdade, é verdade, mas cesse, peço-te, peço-te”. Pensei em morrer pela impossibilidade de sair daquela tremenda situação. Não via mais as árvores, não sentia mais os pássaros, era só a voz interior daquelas palavras que se estamparam no meu ser».

«Caí por terra e perdi a consciência. Mas antes que acontecesse, senti-me envolvido por um amor sem limite. Senti liquefazer-se a estrutura que leva meu pensamento, como uma grande explosão da minha consciência. Morri para um passado no qual era profundamente condicionado, toda verdade se desintegrava. Não sei por quanto tempo permaneci lá, mas quando tomei consciência era como renascido. O céu da minha mente era limpo e lágrimas sem fim escorriam e me banhavam o rosto e pescoço. Sentia-me o ser mais ingrato que existe sobre toda a terra. Sim, a grande vida existe e não pertence a este mundo. Pela primeira vez descobri o que entendem os cristãos por “graça”».

Há vinte e cinco anos este homem, conhecido como Master Bee, junto com a mulher, uma artista também, leva uma vida semi-heremítica no mundo e aos antigos discípulos que vão consultá-lo ensina a oração do coração e a oração do rosário.

Não tem sentido a necessidade de renegar suas experiências religiosas passadas que prepararam o encontro com Cristo e lhe permitem agora estimar plenamente a novidade. Continua, por outro lado, a ter por essas profundo respeito, mostrando, com os fatos como é possível conjugar hoje a mais total adesão a Cristo com uma abertura enorme aos valores de outras religiões.

A história secreta das almas, fora dos refletores dos «mass media», está cheia destes encontros com Cristo que mudam a vida e é uma pena que a discussão sobre ele, inclusive entre teólogos, prescinda completamente daqueles. Estes demonstram que Jesus é verdadeiramente «o mesmo, ontem, hoje e sempre», capaz de prender o coração dos homens de hoje com não menor força que quando «prendeu» João e Paulo.

Fr. Raniero Catalamessa

Formação/2007


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