Uma vez estando em relação com Deus, não é raro identificarmos momentos do nosso dia a dia em que dizemos: “eu vi Deus”. De fato, Deus se faz encontrar. Uma cara amiga, Santa Teresa de Jesus, poderia dizer que O encontra até mesmo entre as panelas.
Não é raro também O escutarmos quando O buscamos: “A voz do Amado é reconhecida pela alma que O busca” (Escrito Amor Esponsal, 21). Ora O buscamos, ora somos buscados. É isso o que constitui o encontro.
Justamente nesse “mistério” de buscas, eu vi uma cena que me fez perceber: fui visitado por Deus.
Madagascar, maio de 2024.
Em uma visita missionária à missão da Comunidade Shalom em Antsiranana, Madagascar, acompanhei a rotina dos missionários e do povo ao qual eles serviam. Por uma semana, a minha missão se transformou em uma só: documentar em fotos aquilo que era a vida missionária do lugar.
Laudes, adoração, faxina, cozinha, missa, futebol, aulas de violão, de culinária, de francês… Eu estava tão inserido na beleza daquela missão que não vi Deus apenas entre as panelas, mas em tudo.
Em uma das atividades com as crianças assistidas pela Comunidade, foi organizado um momento de dança, onde se formou um círculo com as crianças de mãos dadas. Eu registrava os movimentos, as expressões… mas algo, em especial, me chamou a atenção: o detalhe das mãos unidas.
Sou eu
Em uma foto, percebi que uma das crianças tinha uma ferida próxima ao polegar. Notei aquele detalhe (talvez até irrelevante) e me vi. Eu me vi ali, naquela ferida. Sou eu esta criança ferida!
E, apesar da ferida, a outra criança sustentava com força a sua mão, para que o círculo não se rompesse. No detalhe, contemplei a mão de Deus que me sustenta, apesar das minhas feridas (e com elas).
Eu, homem ferido, sou mantido, sustentado, pela mão do Senhor.

Isso se torna ainda mais profundo quando percebo que, inúmeras vezes, essa mão faz parte de um corpo físico: o daquele que está ao meu lado. Penso nos meus irmãos de Comunidade, nos meus amigos, na minha família, ou até mesmo em um irmão de rua que esconde em si o rosto de Jesus.
Sou abraçado nas minhas feridas.
A mão que resgata
Em outros momentos, a mão sã é a minha, e sou chamado a abraçar o outro em suas feridas, a amar a ferida do outro para que o círculo da a unidade e da caridade não se rompa.
Pode parecer uma comparação desigual, mas lembrava-me de Jesus como o novo Adão, que desce à mansão dos mortos e puxa Adão pela mão: a mão ressuscitada que resgata da morte devolvendo a vida.
A mão do Ressuscitado que abraça a ferida para transformá-la em glória. Diante disto, não posso esquecer que a mão do Ressuscitado também é esta mão ferida de amor.
São figuras que se misturam, mas que revelam uma verdade: somos feridos, mas sustentados pela mão de Deus.
Wallace Freitas
Comunidade de Aliança
Celibatário
