Formação

Evangelização também precisa de conversão

Uma evangelização com espírito requer superar a alternativa falsa entre contemplação e ação, para concentrar-se no amor.

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Ao deparar-se com a encíclica Evangelii Gaudium (EG) ou a Alegria do Evangelho, principalmente no quinto capítulo (evangelizadores com Espírito), percebe-se que mesmo a evangelização precisa passar por um processo paulatino de conversão. Esta pode ser prejudicada pelo excessivo caráter identitário dos missionários ou evangelizadores que acabam por priorizar sua própria forma de viver a fé, de servir, ser Igreja, de ler e interpretar as escrituras o que acaba por diminuir sua pureza e radicalidade.

O Espírito Santo não é propriedade ou exclusividade de ninguém nem de organismos eclesiásticos, mas os anima, assim como os pobres não são bandeira de evangelização de poucos, mas obrigação de todos. Os dois devem estar presentes na atuação sistemática da Igreja que percebe a beleza do nutrir-se espiritualmente por meio da contemplação e incentiva a vivência da realidade do mistério da encarnação.

Encontram-se, hoje, dificuldades teóricas e práticas para o caminho de uma vida cristã como um todo. Precisamos reconciliar os opostos, sem suprimir as tensões que eles trazem.

O Papa Francisco ressalta que todos têm o direito de receber o Evangelho e que os cristãos têm o dever de anunciá-lo “não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível” (EG 13).

A EG faz o diagnóstico da atual situação de evangelização apresentando complexidade, pluralidade e extrema variedade. Concomitantemente, há a secularização, com a remoção de Deus da vida pública; a mentalidade racional volta-se ao sucesso econômico e ao consumismo; existe o indiferentismo e o relativismo. A Igreja precisa de uma renovação que não acontece instantaneamente.

Por isso um questionamento se faz necessário: qual a espiritualidade que é necessária para evangelizar?

Assim como não há evangelização sem espírito, não há nenhuma comunidade sem ele: a missão alimenta-se da Comunhão porque ela prospera sob o amor. A missão sem Comunidade perde seu sabor e sua implicação não serve porque ele não dá fruto (Jo 15, 1ss).

A EG toca claramente neste assunto: por um lado, esclarece que não oferece uma síntese da espiritualidade cristã, mas, por outro lado, aspira a uma espiritualidade missionária, superior a um relativismo prático, que lhe faz agir como se Deus não existisse e rejeita o espiritual “mundanismo” que impede de viver o amor. Ou seja, o documento faz uma proposta concreta.

O Papa Francisco lembra nesta exortação que a igreja precisa aprofundar a vida de oração. Neste sentido, diz-se que “a igreja precisa desesperadamente de pulmão de oração” (EG 262).

A questão não é escolher entre a Contemplação e a Ação: o desafio está na integração e a motivação que esta traz ao cristão. A Encíclica coloca-a com o monástico distintivo do ora et labora de São Bento, ou seja, não há nenhuma alternativa real dentre elas e isso liberta da tentação de superestimar a contemplação e desvalorizar, portanto, a ação.

Parece, muitas vezes, que a teologia e a espiritualidade, ainda trabalham certas oposições binárias que deixam um hiato em equilibrar a contemplação em ação. A orientação do Papa Francisco, não deixa margem para esses modos inadequados e prejudiciais de entender o Evangelho de Jesus, que para a verdade e a vida não são coisas separadas (Jo 14, 6a) (CAVACA, 2004).

Nessa perspectiva, então, faz-se necessário recuperar um espírito contemplativo na missão: não só de oração pessoal, mas também de discernimento da vida, relacionamentos, história e sinais Dele. Além disso, essa contemplação, por nutrir-se das entranhas de Jesus, é um espírito de amor compassivo com a carne e o sofrimento dos outros na periferia existencial.

Além da contemplação e ação, o fundamental é o amor. Uma evangelização com espírito requer superar a alternativa falsa entre contemplação e ação, para concentrar-se no amor. Ser amigo de Deus e amigo dos homens são dimensões inseparáveis, como é o amor para Deus e ao próximo. Com respeito a duas práticas fundamentais da vida cristã: a prática da oração onde existe o encontro íntimo e pessoal com Deus e prática do amor ao povo. O mesmo ímpeto de comunhão no altar deve repetir-se no encontro com o outro.

Com efeito, como a liturgia, a oração de intercessão é uma forma de amor para os outros: Muito ama os seus quem reza muito para a sua comunidade. Cristo Jesus, no ato de dar a vida, respeitar a vontade do Deus e nos amar com amor maior (cf. Jo 15,13).

Um espírito contemplativo se caracteriza primeiro, pela recepção: é o Espírito que clama em nós e nos faz gritar Abba Pai (Rm 8, 15). É, aliás, um espírito de filiação: em Cristo, a filiação tem como ápice a “existência na recepção”, recebendo o Espírito, nos corações, nas comunidades e na história.

Ao mesmo tempo em que é Deus que se dá ao seu Filho por meio de seu Santo Espírito, existe o convite à ação que em sentido teológico quer dizer participação no drama da salvação; por esta razão, para encontrar Deus e aprofundar a recepção de seu dom, a palavra e os sacramentos, precisa-se procurá-Lo e amá-Lo com toda a alma, coração e todas as forças.

É por isso que o papa Francisco lembra que: sem tempos de detenção de adoração, reunião de oração com a Palavra, diálogo sincero com o Senhor, as tarefas são facilmente esvaziadas de sentido, enfraquecemos de fadiga e dificuldades, e esvai-se o fervor…  (EG 262), ou seja, sem receber os presentes da transformação e da experiência, a ação é sem alma, porque é puro trabalho, sem o espírito renovado a ação é filantrópica e não transforma a vida do irmão para sempre, mas apenas naquele momento de saciedade física e/ou material. Um grande auxílio para se manter o vigor espiritual são os carismas do Espírito Santo que encorajam e enchem de parresia e criatividade capacitando o cristão possibilitando-lhe “mover montanhas” na comunhão com Deus e no cuidado com o irmão.

O papa Francisco considera a Igreja como “em saída”, a qual em sua estrutura e em sua atividade se torne “um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à sua autopreservação”, sabendo “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho”. Os pastores e evangelizadores devem contrair “o cheiro das ovelhas”.

Referências

CAVACA, Osmar. Uma eclesiologia chamada Francisco Estudo da eclesiologia do papa Francisco a partir da Evangelii Gaudium. Revista de Cultura Teológica. Ano XXII. Nº 83. Jan/Jun 2014.
FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. Carta Encíclica sobre a alegria do evangelho. São Paulo: Paulinas, 2013.
FRANCISCO, Papa. A igreja da misericórdia: minha visão para a igreja. São Paulo: Paralela, 2014.

 


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