Olho para a mochila em cima da cama querendo criar coragem de arrumá-la. O sair de si começa já nesse momento. Sair do conforto da minha casa, minha cama, minhas irmãs, minha rotina. Tudo tão meu. Partir em missão é justamente essa partilha. Do que acho que é meu, que na verdade só me é dado para partilhar com o outro.
Vencido por graça aquilo que interiormente me faz querer paralisar, peguei a estrada. Rostos, cheiros, paisagens. Tudo é novo. E aquela vontade de ficar no mesmo lugar vai ficando para trás. O coração começa a arder de desejo pelo novo. Partir em missão também é abandono. No início me preocupava mais com cada detalhe: hospedagem, horários, alimentação, roupas. Com o tempo, a gente passa a conhecer mais o Pai que cuida de todas as coisas, e deixa Ele responsável pelos detalhes e a mim cabe amar. Amar o povo. Amar a missão. Amar a cultura. Amar o novo. Amar os jovens. Amar os pobres, amar… e, amar!
Chego ao destino e o sorriso de quem acolhe desarma qualquer temor que ainda poderia haver no meu coração. Sempre me constrange a acolhida, porque percebo que nada trouxe e o quanto eles esperam. Logo me dou conta, o Evangelho começa a ser vivido. Quem acolhe um missionário, acolhe o próprio Cristo. Eles O acolhem. A obra é dEle. A missão é dEle.
“O teu povo é meu povo”, dizia Rute a Noemi nas Sagradas Escrituras, e não demora muito para que esse seja também o sentimento do missionário. Seja pelo período que for. Aquele povo agora é seu. Sua história, sua cultura, sua forma de falar. Evangelizar é ser um com eles. Estar e amar.
Mas missionário também recebe não. Tem quem ainda não está no tempo de acolher. Mas nossa principal missão continua no amar. Acho incrível, sim é incrível, o que acontece quando olhamos nos olhos das pessoas e proclamamos a simples frase: “Deus ama você”. Os olhos enchem de lágrimas e logo a semblante da pessoa muda. Realmente não existe melhor verdade do que esta: Deus nos ama!
A única coisa verdadeiramente ruim de ir em missão é o ter que voltar. Porque agora tudo aquilo passou a ser meu também. Não quero mais deixar. Minha oração passa a ter novos rostos, novas intenções, novo ardor, nova fé. Descubro ao chegar em casa que não levei nada, mas voltei cheia de tesouros que foram as vidas que toquei. Fui imensamente amada. A lógica se inverteu e recebi mais de quem tinha menos e fui surpreendida a cada instante e é tão bom poder dizer: sou missionária!
No final descubro: não levei nada, mas trouxe tudo.
Lydiana Rossetti