Institucional

Exaltar a cruz no dia a dia

comshalom

Santa CruzEm setembro, celebramos a festa da exaltação da Santa Cruz. Celebrar a cruz, exaltá-la, não significa cultuar o sofrimento, como se ele fosse capaz de nos redimir por si só. Mas meditar, sobre nossas cruzes e dores de cada dia. A perceber como o sofrimento imerecido, mas unido a Cristo, é redentor.

É sempre chocante, sobretudo, os sofrimentos não merecidos, as frustrações recebidas sem motivos aparentes. Nunca entendemos a dor das pessoas justas, conscientes, boas. Quem nunca foi ferido muitas vezes e nunca se perguntou: por que eu? Por que justo eu? Quanta incompreensão, raiva, inveja, proibições, desilusões, afetos destruídos e violentados.  A dor é inerente à condição humana.

O homem hodierno tornou-se inimigo da dor e do desconforto (utilitarismo: cultura do descartável). As empresas de publicidade têm faturado milhões em propagandas com os chamados produtos do bem estar, que vai desde o conforto tecnológico, os analgésicos, a objetos mais fúteis. Não me refiro às necessidades legítimas quando se trata de alguma patologia. Mas daquela indisposição mesmo para o sacrifício que não raramente nos transformam em escravos do prazer e do bem estar.

A dor, desde a antiguidade – para muitos povos e civilizações – era vista como a ponte intermediária entre a vida e a morte. Um salto significativo veio dar o Cristianismo na compreensão e vivência da dor como uma ponte e não como fim. Em Jesus Cristo, a cruz é exaltada, é elevada, é colocada como degrau para uma subida. Parece mesmo que a dor passa a ter a sua “dignidade”.

Alguém poderia perguntar: mas existe dignidade na dor e na cruz? A dor pela dor não tem dignidade alguma, apenas se enquadraria como sadismo. Mas podemos, com o auxílio da graça, dignificar a dor assim como Jesus dignificou a cruz, que era símbolo máximo de ignomínia, dos condenados e dos perdidos.

Nele a cruz se tornou o símbolo máximo dos remidos, dos salvos. Em Jesus, portanto, a dor não se assemelha aos umbrais da morte por onde fatalmente o homem deve passar, mas ao prelúdio da vida sem ocaso, da vida verdadeira. Não queremos dizer que temos que sofrer e sentir dor, ficar procurando cruzes para viver a alegria e termos a vida, mas que entendermos que a cruz faz parte do caminho do cristão.

Quando a dor é vivida unida ao sacrifício da cruz de Cristo ela se torna passagem, páscoa. A dor para ser sinal de redenção depende do modo como me posiciono diante dela. Muitos santos tiveram a dor e a cruz como uma grande companheira de jornada nos caminhos do Senhor.

O que dizer de Pe. Pio, que durante cinquenta anos suportou em paz – em meio a grandes lutas e sofrimentos – as dores dos sinais da paixão no seu próprio corpo? O que dizer de Madre Teresa de Calcutá, que na maior parte de sua vida viveu uma longa e dolorosa noite escura, a qual lhe exigiu batalhas diárias em busca de uma mínima centelha de esperança para continuar?

E por que não falar do grande João Paulo II, que desde o atentado sofrido, suportou um longo e doloroso calvário, e nos últimos dias que antecederam sua páscoa deu-nos um testemunho eloquente de coragem e fé! Os santos foram homens como nós. Viveram uma vida virtuosa e deram testemunho da santidade de vida, porque foram amigos da cruz, amigos de Deus. Viver o mistério da dor e da cruz, exaltá-la em nossa vida só é possível mediante a vivência do amor, que brota do próprio amor de Deus.  Este amor é santo, justo e tem um percurso para as nossas vidas chamado providência.

Por isso este amor não se limita a nos livrar das peripécias da vida, mas enriquece de sentido nossa existência, elevando a dor à categoria de amor recebido e doado. Portanto, exaltar a cruz no dia a dia é exaltar o poder salvador de Deus.

 

Rodrigo Santos

Missionário da Comunidade Católica Shalom

Assessoria Litúrgico-Sacramental


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *