
É sempre chocante, sobretudo, os sofrimentos não merecidos, as frustrações recebidas sem motivos aparentes. Nunca entendemos a dor das pessoas justas, conscientes, boas. Quem nunca foi ferido muitas vezes e nunca se perguntou: por que eu? Por que justo eu? Quanta incompreensão, raiva, inveja, proibições, desilusões, afetos destruídos e violentados. A dor é inerente à condição humana.
O homem hodierno tornou-se inimigo da dor e do desconforto (utilitarismo: cultura do descartável). As empresas de publicidade têm faturado milhões em propagandas com os chamados produtos do bem estar, que vai desde o conforto tecnológico, os analgésicos, a objetos mais fúteis. Não me refiro às necessidades legítimas quando se trata de alguma patologia. Mas daquela indisposição mesmo para o sacrifício que não raramente nos transformam em escravos do prazer e do bem estar.
A dor, desde a antiguidade – para muitos povos e civilizações – era vista como a ponte intermediária entre a vida e a morte. Um salto significativo veio dar o Cristianismo na compreensão e vivência da dor como uma ponte e não como fim. Em Jesus Cristo, a cruz é exaltada, é elevada, é colocada como degrau para uma subida. Parece mesmo que a dor passa a ter a sua “dignidade”.
Alguém poderia perguntar: mas existe dignidade na dor e na cruz? A dor pela dor não tem dignidade alguma, apenas se enquadraria como sadismo. Mas podemos, com o auxílio da graça, dignificar a dor assim como Jesus dignificou a cruz, que era símbolo máximo de ignomínia, dos condenados e dos perdidos.
Nele a cruz se tornou o símbolo máximo dos remidos, dos salvos. Em Jesus, portanto, a dor não se assemelha aos umbrais da morte por onde fatalmente o homem deve passar, mas ao prelúdio da vida sem ocaso, da vida verdadeira. Não queremos dizer que temos que sofrer e sentir dor, ficar procurando cruzes para viver a alegria e termos a vida, mas que entendermos que a cruz faz parte do caminho do cristão.
Quando a dor é vivida unida ao sacrifício da cruz de Cristo ela se torna passagem, páscoa. A dor para ser sinal de redenção depende do modo como me posiciono diante dela. Muitos santos tiveram a dor e a cruz como uma grande companheira de jornada nos caminhos do Senhor.
O que dizer de Pe. Pio, que durante cinquenta anos suportou em paz – em meio a grandes lutas e sofrimentos – as dores dos sinais da paixão no seu próprio corpo? O que dizer de Madre Teresa de Calcutá, que na maior parte de sua vida viveu uma longa e dolorosa noite escura, a qual lhe exigiu batalhas diárias em busca de uma mínima centelha de esperança para continuar?
E por que não falar do grande João Paulo II, que desde o atentado sofrido, suportou um longo e doloroso calvário, e nos últimos dias que antecederam sua páscoa deu-nos um testemunho eloquente de coragem e fé! Os santos foram homens como nós. Viveram uma vida virtuosa e deram testemunho da santidade de vida, porque foram amigos da cruz, amigos de Deus. Viver o mistério da dor e da cruz, exaltá-la em nossa vida só é possível mediante a vivência do amor, que brota do próprio amor de Deus. Este amor é santo, justo e tem um percurso para as nossas vidas chamado providência.
Por isso este amor não se limita a nos livrar das peripécias da vida, mas enriquece de sentido nossa existência, elevando a dor à categoria de amor recebido e doado. Portanto, exaltar a cruz no dia a dia é exaltar o poder salvador de Deus.
Rodrigo Santos
Missionário da Comunidade Católica Shalom
Assessoria Litúrgico-Sacramental