
“É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição. Da mesma maneira, uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade do ser. À luz disto, creio justificado o meu apelo veemente e incisivo para que a fé e a filosofia recuperem aquela unidade profunda que as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no respeito da recíproca autonomia. Ao desassombro (parresia) da fé deve corresponder a audácia da razão”. (Fides et Ratio 48)
A Igreja, pelo fato de ser depositária da revelação de Jesus Cristo- Caminho, Verdade e Vida (Cfr. Jo 14,6) -, reafirma a necessidade da reflexão sobre a verdade:
A necessidade de um alicerce sobre o qual construir a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, principalmente quando se é obrigado a constatar o caráter fragmentário de propostas que elevam o efêmero ao nível de valor, iludindo assim a possibilidade de se alcançar o verdadeiro sentido da existência. Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase até à borda do precipício, sem saber o que os espera. Isto depende também do fato de, às vezes, quem era chamado por vocação a exprimir em formas culturais o fruto da sua reflexão, ter desviado o olhar da verdade, preferindo o sucesso imediato ao esforço duma paciente investigação sobre aquilo que merece ser vivido. A filosofia, que tem a grande responsabilidade de formar o pensamento e a cultura através do apelo perene à busca da verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação originária. É por isso que senti a necessidade e o dever de intervir sobre este tema, para que, no limiar do terceiro milênio da era cristã, a humanidade tome consciência mais clara dos grandes recursos que lhe foram concedidos, e se empenhe com renovada coragem no cumprimento do plano de salvação, no qual está inserida a sua história . (Cfr. FR 6.)
Quando alguém critica ou duvida da comunhão entre fé e razão, no fundo está marcado pelo fideísmo ou pelo racionalismo: O primeiro propõe essencialmente uma fé sem ou contra a razão: quem crê não somente é dispensado da razão, mas deve exorcizá-la como uma perigosa tentação. Considera a razão como sinônimo de arrogância e de presunção, ou seja, uma inimiga do mistério. Por outro lado, o racionalismo opõe a razão à fé e considera que a fé, para ser levada à sério, deve deixar-se avaliar pela razão.
Ao contrário do que afirmam os fideístas, a fé não começa onde falha a razão, quase fosse construída sobre os seus escombros; nem é contrária ao bom senso. No NT vemos dois verbos que se tornam sinônimos de fé: “conhecer” e “saber”. A existência de Deus não é indicada no NT como objeto da fé, mas sim o amor de Deus:
“Nós temos reconhecido o amor de Deus por nós, e nele acreditamos” (1Jo 4,16).
Na razão humana Deus não criou uma faculdade inimiga, mas a possibilidade de anunciar-Se, de manifestar-Se como aquele mistério que precede e acompanha a existência do homem. Antes de ser a elevação do homem a Deus, a razão é a descida de Deus ao homem, porque Ele habita na razão humana para poder falar-lhe ao coração. A fé só pode afirmar-se onde o homem conhece a verdade e a liberdade e é na razão acontece um primeiro encontro com a verdade de Deus, capaz de fascinar, de libertar de todos os ídolos, da confusão de confundir o Único com aquilo que não é.
Quando o homem diz creio, ele mostra não entender ser aquilo que ele pode ver, ouvir e tocar a totalidade de tudo o que lhe diz respeito, que ele não considera o espaço de seu mundo delimitado por aquilo que ele pode ver e tocar, mas que está à procura de uma segunda forma de acesso à realidade, e a essa forma ele chama de fé; ela é a opção de não considerar irreal o que não se pode ver e o que de modo algum pode ser colocado no campo visual, acreditando que justamente aquilo que não é visível representa a verdadeira realidade que sustenta e possibilita toda a realidade restante. Em outras palavras: ter fé significa decidir que no âmago da existência humana há um ponto que não pode ser alimentado e sustentado pelo que é visível e tangível, mas que toca na fimbria daquilo que não é visível, a ponto de este se tornar tangível para ele revelando-se como algo indispensável à existência (Cfr. Josefph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, pg. 39).
O amor, como afirma Ricardo de São Vitor (‘Ubi amor ibi óculos’), comporta sempre um olhar capaz de vê-lo. Um tipo de amor que se propõe a quem não pode nem vê-lo nem acolhê-lo seria absurdo! Ver o amor significa que este dom me envolve e me compromete e, portanto, pede a minha visão, a minha audição, o meu coração. E na linguagem bíblica “coração” assemelha-se mais a razão, como uma faculdade que decide sobre aquilo que lhe se manifesta. A fé é um tipo de conhecimento que, se quero fazer experiência de um dom, não posso permanecer sozinho, mas devo confiar no outro.