Mais uma vez chego de férias na casa da minha mãe, na casa onde cresci, antes a minha casa, agora, a casa da vó! Crianças, bagunça, fraldas de um lado, uma cidade de lego do outro, mãos sujas de tinta guache… “Casa de vó é assim”, penso, mas não perco a oportunidade de comentar, “mamãe, diga algo a essas crianças, diga que se aquietem”. A resposta não poderia ser outra: “Deixe-os brincar! Prefiro uma casa bagunçada com eles a uma casa organizada e vazia!”.
A história é Natal. É nascimento de uma Criança! Parece não combinar muito com o velhinho que chega pela chaminé para não incomodar, que deixa o presente na meia e desaparece. O velhinho não tira nada do lugar. Ele nos estabiliza e nos anestesia com presentes. Além de não incomodar, satisfaz o afã de gastar as sobras do décimo terceiro e posa para a foto com suas roupas de inverno mais uma vez antes de voltar ao Polo Norte.
A Criança, verdadeiro sentido do Natal, muito similar aos meus sobrinhos me desestabiliza. Nasce em meio aos animais, na pobreza de um estábulo fora de casa, em Belém, em fuga, pois mal nascera e já fora ameaçada de morte. A Criança bagunça a casa interior, nos questiona sobre o que é essencial. A Criança não exige presentes, apesar de apreciá-los, ela deseja mesmo é o coração, o perdão, amor sincero, a reconciliação e a caridade. A Criança faz barulho, chora, exige que sejamos pais e mães, nos faz repensar em nossas posturas de adolescentes que pensam demais em si mesmos.
Volto a analisar a casa da vó e me percebo em meio a uma incomodada alegria, as crianças tiram a estabilidade, sorriem para mim e decido sorrir para elas, tomá-las no braço, conversar com elas. Escolho aproveitar a oportunidade – olho para o presépio – e percebo que é isso mesmo o Natal. Só um pai entende a alegria de uma criança em casa. Afinal, a comodidade gera estabilidade, mas poucas vezes traz alegria. Por isso, encontro espaço no meu coração para pensar na Criança que nasce no Natal. Decido me alegrar pela festa em família com as crianças em torno de mim e eu em torno da Criança.
Neste Natal você pode escolher o velhinho ou a Criança. Coragem! Sai do teu sofá e vem para o presépio. Feliz Natal da Criança.
