
O Evangelho nos mostra com clareza a ação de Jesus que reúne um povo e o organiza hierarquicamente. Primeiramente, notamos que o evangelista Marcos, por exemplo, já no primeiro capítulo apresenta o início da pregação de Jesus, o Filho de Deus, que percorrendo a Galiléia proclamava o Reino de Deus: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
Em seguida, percebemos que a pregação de Jesus é atraente ao ponto de despertar o interesse de multidões que vem ao seu encontro para escutá-Lo e serem curadas por Ele: “E a cidade inteira aglomerou-se à porta” (Mc 1, 33). Enfim, neste primeiro momento, a partir do evangelista Marcos, notamos que a pregação do Senhor se dirige a todos que O quiserem escutar e reúne todos aqueles que decidem fazer parte do Seu povo, do novo Povo de Deus reunido em Cristo. De certo modo, poderíamos dizer que no primeiro capítulo do Evangelho segundo Marcos notamos, no sentido histórico, o nascimento da Igreja. Igreja enquanto eclesia, ou seja, convocação de um povo, convocação popular. No nosso caso, convocação do Novo Povo de Deus que se dá por meio da palavra do Filho Eterno.
No entanto, o Senhor não somente reuniu uma multidão em torno a si, mas dessa multidão escolheu homens que foram enviados para agirem em Seu Nome e com o Seu poder. O evangelista Lucas ensina que Jesus, após ter falado das exigências da vocação apostólica, designou setenta e dois homens e os enviou dois a dois à Sua frente a todo lugar onde devia ir (conf. Lc 10,1). E disse-lhes: “a messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi pois ao senhor da messe que envie operários para a sua colheita” (Lc 10,2). É claro que a missão de evangelizar é vocação de toda a Igreja, no entanto, não podemos não colher, na eleição dos setenta e dois, a instituição de um particular ministério no seio da Igreja. Um ministério que particularmente agiria em Nome e no Poder de Cristo.
Aprofundando o nosso pensamento, encontramos no Evangelho segundo Mateus, Jesus que escolheu um grupo ainda menor. Elegeu doze homens aos quais chamou de Apóstolos que em grego quer dizer enviados (conf. Mt 10,1-4). O grupo dos doze, além do chamado de viverem mais intimamente com o Mestre, recebeu poder pleno para agir, aqui no tempo e no espaço, em Nome de Cristo sobre o Novo Povo de Deus. Ressuscitado, Jesus, usando de Sua suprema autoridade, disse aos Apóstolos: “Todo poder me foi dado no Céu e sobre a terra. Ide portanto, fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 18b-19). E, segundo João, ainda disse: “Recebei o Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22-23). Aliás, o fato de terem sido doze, evidencia ainda mais que a Igreja é o Novo Povo de Deus em Cristo. Pois doze eram os Patriarcas que geraram as doze tribos de Israel. E agora, Em Cristo, doze são os Apóstolos por meio dos quais o Espírito Santo gerará o Novo Povo de Deus em Cristo.
Além de ter escolhido o grupo dos doze, a um dos Apóstolos, o Senhor depositou uma especial eleição: Este é Pedro o qual o Senhor escolheu para ser o príncipe dos Apóstolos. No famoso diálogo de Jesus com os discípulos, no capítulo 16 de Mateus, o Senhor disse a Pedro: “tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu” (Mt 16,18-19). É interessante notar que o mesmo poder de ligar e desligar que o Senhor, noutro lugar, deu aos doze, aqui, Jesus confere somente a Pedro. Daqui podemos compreender que quem recebeu o supremo poder na Igreja foi o colégio apostólico, ou seja, os onze junto a Pedro e nunca sem a presença de Pedro.
Fica claro, então, que por amor a seu povo o Senhor constitui uma hierarquia na Sua Igreja com a finalidade de anunciar a Boa Nova, ensinar a verdade, proteger a autenticidade da revelação e pastorear em nome e na autoridade de Cristo. Na realidade, desde o Antigo Testamento, Deus sempre se preocupou com o pastoreio do Seu Povo. Sempre escolheu mediadores e lhes deu colaboradores hierarquicamente organizados. Basta lembrar de Moisés e dos setenta anciãos de Israel, seus colaboradores no livro dos Números (Nm 11). Também, o profeta Ezequiel advertirá fortemente os falsos pastores, inclusive, atribuindo a eles a culpa pelo Povo ter-se desviado do verdadeiro caminho (conf. Ez, 34). Assim, compreendemos que a instituição da Hierarquia da Igreja é um sinal do cuidado de Deus que ama o Seu Povo e deseja que este caminhe na verdade e sob os cuidados de mediadores sobre os quais Ele derrama o Espírito Santo em vista da santificação, do ensino e do pastoreio do Seu rebanho.
A Hierarquia da Igreja não foi constituída somente para a primeira geração dos cristãos, mas sim, como colégio estável que permanecerá até o final dos tempos, passando de geração em geração através do Sacramento da Ordem. Só para registrar, a partir do Novo Testamento, a autenticidade da sucessão apostólica, pela qual o Santo Padre e os Bispos são verdadeiramente sucessores dos Apóstolos, usufruindo, no tempo presente da mesma autoridade de ligar e desligar que Jesus conferiu aos Apóstolos, poderíamos citar o texto de Paulo na primeira carta a seu amado discípulo Timóteo. O Apóstolo diz: “permanece fiel ao dom da Graça recebida pela imposição das mãos do colégio dos anciãos (conf. 1Tm 4,14)”. Paulo está dizendo que Timóteo, então Bispo da Igreja de Éfeso, recebera uma especial graça por meio da imposição de mãos dos do colégio dos anciãos.
O termo ancião, do grego presbítero, não está simplesmente indicando uma etapa da vida, mas o ministério de em Cristo governar a Sua Igreja. Ao longo dos séculos, a Tradição da Igreja sempre contemplou neste texto um momento de transmissão daquele poder apostólico dado à Igreja pelo próprio Senhor. Seria, então, a imposição de mãos por parte do colégio dos anciãos, um gesto sacramental equivalente ao que, durante os séculos, a Igreja sempre chamou de Sacramento da Ordem.
Como podemos perceber, desde a eleição dos doze, a Hierarquia da Igreja tem um caráter colegial. Pois os Apóstolos foram chamados conjuntamente e conjuntamente foram enviados em missão. Ao longo dos séculos, de modo análogo ao colégio dos doze em torno a Pedro, os Bispos, em torno do Santo Padre, constituem um colégio através do qual o Espírito Santo conduz a Igreja de Cristo. Por outro lado, o ministério hierárquico é de caráter pessoal, pois se os ministros de Cristo agem em comunhão, agem também sempre de maneira pessoal, pois cada um é chamado pessoalmente pelo Senhor. Como Pedro, Paulo, João, André e Tiago foram chamados pessoalmente.
Este chamado pessoal a ser vivido na comunhão eclesial tem, por natureza, um caráter de serviço. O ministro ordenado é, então, um homem com os outros e para os outros. Vive o seu ministério em virtude da autoridade do Outro, com “O” maiúsculo e para o Outro que é o próprio Senhor. Assim compreendemos que o (O)outro é o sentido do ministério ordenado. Deus e os homens são o sentido de existir de uma Hierarquia na Igreja que através dos munus de santificar, governar e ensinar se faz, livremente, serva de todos.
Podemos concluir dizendo que a Hierarquia da Igreja é sinal do amor paterno de Deus que sempre assiste e conduz o Seu Povo. É sinal do amor redentor e do zelo pastoral de Jesus que através dos Seus ministros, cotidianamente, atualizada de modo sacramental a obra da redenção e faz com quê todo o Seu rebanho possa continuar escutando a Sua voz. Acolhamos com amor esse grande dom do amor de Deus por nós que chama-se Hierarquia da Igreja. E rezemos pelos nossos pastores, para que a Graça faça com que cada vez mais eles possam nos conduzir ao encontro definitivo com Cristo.
Formação Shalom