Formação

Filhos de um mesmo Pai

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Jean Vanier
Por Laurence Meurville

Nas Comunidades da Arche, onde pessoas deficientes e assistentes partilham a mesma vida, a compaixão é uma realidade palpável. Jean Vanier, fundador da Arche, nos diz, aqui, o fruto de sua experiência.

Somos todos chamados à compaixão? A realidade nos leva a pensar que ela é reservada àqueles que têm uma vocação para o serviço aos mais pobres…

Na realidade, todo ser humano, todo discípulo de Jesus é a ela convidado. O Cristo o confirma: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). E Ele descreve o que é a compaixão: “Não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37).

O drama do ser humano consiste na rejeição daquele que é diferente dele, o pobre, o inimigo, em resumo, aquele que o constrange. Ele se justifica retrancando-se atrás da idéia de que ele é melhor, é o melhor, ele condena o outro porque o outro é diferente e pobre, simplesmente porque é outro. Jesus veio destruir essas barreiras e nos fazer descobrir o amor universal.

A compaixão é acolher o outro tal como o outro é, com suas feridas, fragilidades, pequenez e descobrir, além se suas fraquezas, a fonte de seu ser. A compaixão consiste em perceber, por detrás das ruínas do outro, a presença de Deus.

Pode-se distinguir duas formas de compaixão…

De um lado, a “compaixão-competência”: se alguém tem fome, não se trata somente de orar por ele, mas dar-lhe o que comer! É preciso ser competente diante de sua pobreza: como médico, psicólogo… ou competente para criar leis justas, que respeitem a dignidade de cada um.

Por outro lado, a “compaixão-acompanhamento”. É o mistério de Maria aos pés da cruz; como ela, estar presente ao lado daquele que sofre.

Na Arche, a competência é necessária: desde que alguém está doente ou fragilizado, precisa de um bom médico, um bom psicólogo, um bom ortopedista… Mas, uma vez que esta competência é colocada em serviço, a pessoa não está atendida. Ela tem necessidade, principalmente, de não ficar sozinha em sua fragilidade, de encontrar um amigo ao seu lado.

A compaixão é “ser com” e dizer ao outro: “Tu és meu irmão, minha irmã na humanidade; eu quero estar contigo.”

Ter compaixão é também responder ao convite de Jesus: “Quando deres um banquete, não convides os membros de tua família, teus vizinhos, teus amigos, mas os pobres, os estropiados, os cegos, e sereis bem-aventurados” (cf. Lc 14,12-13). Jesus nos convida a nos tornar amigos do marginal, daquele que é colocado de lado, daquele que se sente excluído da sociedade, do grupo, ou mesmo da comunidade cristã, qualquer que seja a razão. Tornar-se como Maria, que acompanhou Jesus crucificado. Ela permaneceu de pé perto dele.

Parece, então, que a compaixão seja de um sentido único: um dando e outro recebendo?

Não. Jesus veio revelar algo inteiramente novo: a compaixão é comunhão. O outro é uma presença de Deus. Jesus se identifica àquele que tem fome, que tem sede, que está na prisão porque Ele quer se revelar não somente na Igreja-templo mas também nas ruas.

Em um belíssimo conto indiano, um brâmane que vai todas as manhãs orar no templo há várias décadas, um dia diz a Deus: “Faz muito tempo que eu venho aqui todos os dias. E tu jamais vieste à minha casa!” E Deus responde: “Amanhã irei à tua casa!”. O brâmane volta para casa, lava o assoalho, prepara um festim,… e se levanta de madrugada. Pela manhã ele foi incomodado por um menino que vem apanhar um doce. Algum tempo depois ele expulsa um mendigo que suja o assoalho tão cuidadosamente limpo para acolher o rei dos reis; depois foi importunado por uma velha mulher… No dia seguinte, o brâmane se lamenta: “Por que tu não foste como havias prometido?”. “Eu cumpri minha promessa, responde-lhe Deus, eu fui: eu era o menininho, o mendigo, a pobre mulher!”

Jesus se identificou com os mais pobres para nos fazer entender que Ele não está somente no templo, mas também nas ruas, no pobre… É a revelação do próprio Nome de Deus: compaixão, amor, proximidade com os pobres e marginalizados. O amor de Deus e o amor ao próximo não são mais que um. Na prática, não é fácil viver. Desta maneira, por exemplo, a comunidade cristã que quer ser bela, forte, unificada, tem o mal, ao mesmo tempo, com aquele que a ela não se enquadra. Ela vive uma tensão entre o desejo de tornar-se uma realidade bela – correndo o risco de se debruçar sobre si mesma – e este mistério da compaixão de Jesus, morto do lado de fora de Jerusalém. Deus se esconde no pobre. Nós estamos em face a um mistério que nos humilha a todos: a comunidade cristã deve encontrar sua unidade estando inteiramente próxima dos marginais.

Para ser compassivo, é preciso, então, ter um coração de pobre?

O próprio coração de Jesus! Na história do filho pródigo, o filho mais velho se julga irrepreensível. Ele não reconheceu suas próprias feridas e fragilidade. Por outro lado, o filho caçula compreendeu que era amado em sua pobreza, apesar de seu pecado. “Jamais poderia eu julgar quem quer que seja, uma vez que meu pai me ama tal como sou”, ele diz.

A compaixão implica no reparar em si mesmo. Ser compassivo com o pobre que está fora de mim supõe reconhecer o pobre que está em mim. Freqüentemente nós o escondemos com cuidado, o rejeitamos, até o condenamos porque não cremos suficientemente na misericórdia de Deus. Pensamos que Deus nos amará se formos virtuosos, se merecermos seu amor. Jesus nos convida a perceber que nós somos pobres e que a Boa Nova é também para nós.

O senhor diz que os pobres nos curam. Por quê?

Exatamente porque eles nos chamam à compaixão. Tendo medo de nossa própria fragilidade, de nossa vulnerabilidade, construímos imensas barreiras ao redor de nossas comunidades, de nossos corações. Esses sistemas de proteção nos impedem de encontrar verdadeiramente Deus. Procuramos uma imagem positiva de nós mesmos e temos medo de ver tudo o que está quebrado em nós: nossos medos, bloqueios e dificuldades de relacionamento.

O mistério do pobre é nos obrigar a romper essas barreiras e avançar para uma realidade mais profunda: a vulnerabilidade de nosso coração. Fazendo cair essas barreiras que nos impedem de encontrar Deus, o pobre nos aproxima dele.

A vulnerabilidade do coração do homem não é partilhada pelo próprio Deus?

Deus é comunhão, mistério de amor. Ele criou o homem gratuitamente e quis, de certa maneira, depender de nós. A pobreza, a pequenez de Deus é ser um mendigo de amor! Se lhe negamos o amor, nós o ferimos.

Deus tem medo de que tenhamos medo dele. Uma vez que amamos alguém e esta pessoa tem medo de nós, há como um obstáculo ao amor. No mistério da Encarnação, Deus escolheu ser bem pequeno: admira-se um grande, mas ama-se um pequeno. Deus quer ser pequeno para nos convidar a uma comunhão de amor com Ele. Todo o Evangelho não fala outra coisa a não ser sobre este vai-e-vem do amor.

Deus recusa o poder, com o sentido que habitualmente usamos tal palavra. Querem fazer de Jesus rei. Todo mundo está atrás dele e Ele declara: “Aquele que come minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,54). Seus discípulos ficaram desconcertados. “Não diga isso. Todos vão te abandonar”. Esse episódio nos revela o segredo de Jesus: Ele veio para a comunhão, e não para o poder. Ele evita até mesmo o poder espiritual. É este o significado do lava-pés.

Como Deus, que é perfeito, pode ser ferido?

O que é ser perfeito, no plano humano e cristão? É ser aberto a Deus, ser humilde e acolher suas próprias feridas e incapacidades. A perfeição humana é reconhecer suas pobrezas, aceitá-las tendo uma imensa confiança no Espírito Santo. A Sagrada Escritura termina com um apelo: O Espírito e a Esposa gritam: Vem, tenho necessidade de ti! (cf. Ap 22,17).

A perfeição na maneira humana não é o objeto de uma virtude. Teresa de Lisieux diz: “Não tenho nem virtude nem desejo.” Ela está em contato com sua fraqueza. Tudo o que pode fazer é gritar para Jesus: “Vem, eu não posso viver sem ti.”

A perfeição de Deus é uma loucura de amor: Ele escolheu tornar-se pequeno para que nós o pudéssemos acolher. Ele quer viver em nós e que nós vivamos nele. É uma completa loucura! Ele tem sede de dar e de se dar. O Ser de Deus se define pelo dom: o dom do Filho ao Pai, do Pai ao Filho no Espírito Santo e o dom da Trindade a cada um de nós. Neste dom há uma loucura: o Senhor não retém nada para si, Ele dá tudo! Tal é a perfeição de Deus! Eis por que Ele quer ser pequeno.

Pode-se ter compaixão com o “sofrimento” de Deus?

Sim, a vida dos santos o manifesta, e nas numerosas aparições do Sagrado Coração, o Senhor pede para ser consolado.

Teresa d’Ávila bem o compreendeu. Ela disse a Deus: “Quero receber as graças que os outros não querem”. Deus tem necessidade de se dar. Nós o consolamos a partir do momento em que permitimos que se aposse de nós, nos invada e permaneça em nós.


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