Formação

Frei Patrício: a Igreja é o lugar da misericórdia de Deus

O perdão de Deus nos leva necessariamente ao perdão entre nós, a deixar nossa oferta diante do altar e ir pedir perdão aos que têm alguma coisa contra nós, ou ainda deixar cair as armas que dividem e que produzem pobreza e ódio

Jovem confessando seu pecado
Pe. Aristóteles ministrando o sacramento da reconciliação.

Vimos como foi difícil enfrentar a pandemia do coronavírus, quantos sacrifícios foram necessários. O ser humano se encontra, de quando em quando, a combater doenças novas e, depois de sacrifícios, de lutas, os cientistas conseguem criar uma vacina, e a vida recomeça até que apareça uma nova doença.

A mesma coisa acontece com a vida espiritual: não é fácil vencer a pandemia do pecado, aliás, parece que esta pandemia se difunde cada vez mais através de um vírus que muda e que permanece, e nem sempre é fácil encontrar uma vacina que o vença. Mas sem dúvida o remédio sempre atual e que nasce do amor de Deus é o perdão e a misericórdia, que chega até os átrios da Igreja.

A Igreja, na pessoa de Pedro, recebeu de Jesus as chaves para perdoar os pecados e também para não perdoá-los, mas isto não acontece pelo capricho dela, mas depende do pecador aceitar ou não o perdão. Nem Deus pode perdoar as pessoas que não reconhecem que são pecadoras e não querem ser perdoadas. Existe hoje em dia uma indiferença e um fechamento à misericórdia de Deus que impressiona. Fruto do orgulho e da soberba humana que pensa ser capaz de mudar os valores fundamentais da vida.

Um lugar de perdão

A Igreja é o lugar do perdão e da misericórdia de Deus e onde aprendemos que não se pode ser feliz guardando no nosso coração o mínimo resquício de inveja ou de inimizade. O perdão de Deus nos leva necessariamente ao perdão entre nós, a deixar nossa oferta diante do altar e ir pedir perdão aos que têm alguma coisa contra nós, ou ainda deixar cair as armas que dividem e que produzem pobreza e ódio, que um dia vão explodir mais fortemente que as bombas atômicas.

As grandes guerras estão escondidas dentro do nosso coração. É tempo de assumir novamente o valor fundamental do amor e do perdão e caminhar de mãos dadas para ajudar os mais frágeis, os pobres e os necessitados, a fim de que todos tenham uma vida de qualidade e de amor. Pode ser que seja um discurso duro e que pareça quase impossível, mas é o único caminho que temos à nossa frente.

Sem esta muralha do amor que nos protege de todo o mal, não podemos pensar em um amanhã melhor do que o nosso hoje. O perdão é a chave do futuro. O gnosticismo nos fecha em nós mesmos “O gnosticismo supõe ‘uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos’”. (GE, 36)

Inimigos da Santidade

É necessário, antes de comentar brevemente este número, dizer que o Papa Francisco fala que os dois inimigos da santidade hoje em dia são o novo gnosticismo e o novo pelagianismo. Convido os meus leitores a fazerem, através do Google, uma breve pesquisa para compreenderem em que consistem estes dois movimentos filosóficos que contaminaram e continuam contaminando a própria teologia e a vida de cada dia, se não estivermos alertas.

Este número nos recorda uma verdade muito importante para a vida da espiritualidade: o perigo do subjetivismo, isto é, achar que somos capazes de ser santos de uma maneira pessoal, por meio de uma iluminação de Deus; que não dependemos da Igreja, mas apenas da nossa capacidade de compreender o mistério de Deus. Como diz este número da Gaudete et Exsultate, o gnosticismo nos fecha dentro do nosso subjetivismo e nos impede de ver fora de nós mesmos e de crer em um Deus que nos convida a uma santidade que nós não projetamos, mas que Ele
próprio projetou para nós.

Todo poder que não liberta cai

O profeta Isaías é um forte crítico do poder dos reis, dos sacerdotes, dos juízes, dos que usam o poder para servir não o povo, mas a si mesmos e a seus próprios interesses. Por isso que esse seu breve texto nos apresenta uma mudança do poder que é tirado de quem oprime e dado a quem se coloca a serviço dos mais pobres, da pessoas que têm necessidade de ajuda para poder sobreviver às dificuldades da vida, da pobreza, da fome e da guerra.

Os poderosos podem permitir-se o luxo de descansar durante a guerra quando querem e como querem, e têm a certeza de não morrer, porque ficam sempre escondidos e protegidos, já que quem morre nas guerras são os jovens, são os soldados que não têm nada a ver com aquilo e que não têm nem ambição nem ódio no coração.

O poder precisa passar de mãos em mãos até chegar às mãos de quem não se preocupa com os próprios interesses, mas, sim, com o bem-estar do povo. É de políticos deste tipo que o mundo precisa.

O Salmo 137/138 invoca o poder e a misericórdia do Senhor, que se manifesta na vida dos mais pobres, a quem falta a proteção dos poderosos, mas nunca falta a proteção de Deus.

Três perguntas que esperam a nossa resposta

O apóstolo Paulo confia na bondade de Deus e se sente pequeno diante da grandeza Dele, percebendo que as virtudes mais necessárias na vida são a humildade, sentir-se amado por Deus e saber que tudo depende Dele e não de nós. Quem conhece o pensamento do Senhor? Quem foi o Seu conselheiro? Quem deu por primeiro alguma coisa ao Senhor? A resposta é uma só: ninguém. Deus sempre tomou a iniciativa de nos amar primeiro e com pura gratuidade. Deus, no Seu amor infinito, nos deu o que tinha de mais precioso, que é Jesus Cristo, e Nele temos a resposta a todas as nossas perguntas, que, por sua vez, não têm respostas humanas, mas são respondidas somente pela força de Jesus.

Tu és Pedro, eu te darei as chaves

Muitas vezes eu me perguntei por que Jesus deu a Pedro a chave da misericórdia e do perdão da Igreja. E me parece que, hoje, cheguei a uma conclusão, que, por seu turno, me infunde uma grande paz no coração. Quero, então, comunicar isto também aos meus irmãos.

Pedro experimentou a misericórdia e o perdão de Jesus na própria vida, os quais chegaram a ele não por palavras, mas por um olhar e pelo silêncio. As palavras não podem nos dar a certeza do perdão, mas o silêncio e o olhar provocam em nós arrependimento e choro amargo.

Pedro reconheceu Jesus como Filho de Deus, como Messias, como Salvador. Esta profissão de fé sincera não impediu que ele experimentasse o amargo sabor do pecado e da traição. A chave do perdão está em boas mãos, nas de um pecador convertido que se chama Pedro.

É belo ver que os Papas de todos os tempos não são homens sem pecados, mas sempre são pastores que sabem compreender os erros da humanidade. Que o Senhor seja sempre força para uma Igreja pobre, humilde, pecadora, que condena os pecados e ama os pecadores.


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