Formação

Frei Patrício: A santidade não é feita de grandes coisas

A vida de Abrão é caminho para Deus, mostra busca pela santidade. Uma santidade não feita de grandes coisas, mas sim de pequenas situações da existência humana vista com os olhos de Deus.

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Não sei por que, mas amo imensamente a pessoa de Abrão. Eu o imagino velho, buscador da vontade de Deus, sempre a caminho e atento aos sinais dos tempos e dos lugares. Ele sabia que Deus não abandonaria, se ele fosse fiel.

Seguir os passos de Abrão é algo difícil, uma vez que ele não queria briga com ninguém, intercedia por todos, e estava pronto a sacrificar até o seu próprio filho Isaac para agradar a Deus. É bela a sua figura orante, de profeta, de iniciador de um novo diálogo com o Deus vivo. Ele é modelo para todos os tempos, e todas as religiões olham para Abrão com respeito e amor.

Estamos no nosso caminho da Quaresma. Devemos, pois olhar para trás, mas sem desanimar, continuando o caminho na certeza de que seremos sempre amados por Deus, ainda que tenhamos fragilidades.

Vivemos em um mundo não mais da aventura da fé, mas da aventura humana. Nos nossos dias, antes de sair de casa, queremos saber aonde vamos, qual o melhor caminho a fazer; somos escravos da técnica, que nos afasta dos outros e nos torna cada vez mais individualistas. Por conta disso, se não vigiamos a nós mesmos, nos tornamos também pequenos “deuses” que dispensam o grande e verdadeiro Deus.  

A técnica nos desumaniza, mas, na verdade, nós é que devemos humanizar, poderia dizer até mesmo “divinizar” a técnica, para usá-la com amor e com inteligência. O caminho da santidade não poderá ser trocado pelos meios tecnológicos, pois será sempre de abandono e confiança total no Senhor.

Somos todos chamados a ser santos

“Tudo isto é importante. Mas, o que quero recordar com esta Exortação é sobretudo a chamada à santidade que o Senhor faz a cada um de nós, a chamada que dirige também a ti: ‘sede santos, porque Eu sou santo’ (Lv 11,45; cf. 1Pd 1,16). O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: ‘munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho’. (Gaudete et Exsultate, 10)

A vida de Abrão é caminho para Deus, mostra busca pela santidade. Uma santidade não feita de grandes coisas, mas sim de pequenas situações da existência humana vista com os olhos de Deus. Nós somos pessoas à escuta de uma voz que vem do Alto, passa através da nossa inteligência, desce no coração e vivifica todo o nosso corpo, que começa a viver na medida nova segundo o amor, que o chama à conversão constante.

Se Deus nos criou não foi para que fôssemos infelizes, tristes e sem rumo, para que a nossa vida humana fosse uma guerra constante contra nós mesmos e contra os outros. Fomos criados para realizar um projeto de amor e de vida nova, para construir juntos um mundo humano, onde cada um ama e respeita o outro.

Nem todos os caminhos são iguais para todos, nem todos os santos se tornaram santos fazendo as mesmas coisas. Todos amaram a Deus e aos irmãos, mas cada um buscou o seu caminho. Qual é o seu caminho de santidade? Como Deus o chama a viver o Evangelho? São Francisco de Sales disse que se um casado quisesse viver como um capuchinho não seria santo e se um capuchinho quisesse viver como um homem de negócios não seria santo. A vocação à santidade é, enfim, encarnar o Evangelho na vida que nos é dada.

Toma teu caminho

Para colocar em prática a Palavra de Deus, Abrão se viu obrigado a tomar um outro caminho diferente do dos seus ancestrais, parentes e amigos; teve de ir sozinho, apenas com um grupo de fiéis, para onde o Senhor o chamava. É uma realidade sempre validada. Nem sempre somos apoiados nas decisões que o Senhor exige de nós, nos encontramos sozinhos, mas devemos ir mesmo assim, se queremos realizar a nossa vocação e fazer o que a consciência nos pede.

Deus faz uma promessa a Abrão. Diz que será abençoado, será pai de uma grande multidão. Quantos santos tiveram esta dura experiência da solidão e Deus os abençoou! No nosso pequeno mundo, nós mesmos temos a experiência de que, para sermos fiéis a Deus, devemos ser infiéis às pessoas que se dizem amigas, mas que nos aconselham e nos levam a caminhos que não são de Deus.

Tome o seu caminho e vá. Para onde? Como? O Senhor mostrará devagar o caminho a seguir. O Salmo 33 confirma esta confiança no Senhor. Os Seus caminhos são retos, justos, e Deus não abandona quem Nele confia.

Sofrer juntos pelo Evangelho

Sempre encontraremos no nosso caminho pessoas que vivem com entusiasmo a nossa fé, que sofrem por Jesus e querem viver a vocação da santidade. Devemos, então, nos unir a estas pessoas. Santa Teresa d’Ávila dizia que devemos nos unir a amigos fortes de Deus. Paulo, por exemplo, anima o seu fiel discípulo Timóteo a não desanimar diante das dificuldades, mas eles as sofrem juntos pelo Evangelho de Jesus.

Como é belo poder dizer: “Senhor, sofro por ti, mas no meu caminho de cruz e de sofrimento não estou sozinho!  Há tantos irmãos e irmãs que, pela mesma fé, pelo mesmo ideal sofrem.”

O projeto que Deus tem sobre nós não é nem nosso e nem humano, é um dom de Deus, é um projeto divino. A santidade nos diviniza dia a dia, e divinizando-nos nos humaniza. Jesus venceu a morte e fez resplandecer a vida plena pela força do Evangelho. É Quaresma, é tempo de vida e não de morte, tempo de santidade corajosa e não de mediocridade.

A caridade transfigura o mundo

Não percamos de vista o tema da campanha da fraternidade: “Viu, sentiu compaixão e ajudou (Lc 10,33-34) – Fraternidade e vida, dom e compromisso”. O que transfigura o mundo e o transforma não são os discursos vazios, ainda que sejam bonitos e evangélicos, mas, sim, as ações.

Às vezes, tenho muito medo de eu mesmo fazer belos discursos e depois não conseguir vivê-los na vida diária, nos desafios que encontro, medo de não saber traduzir em ação concreta de amor a Palavra que Deus me oferece não para guardá-la no museu, mas para vivenciá-la.

Jesus, diante dos Seus amigos preferidos, se transfigura e, neste mistério que enuncia a glória futura, o Pai faz ouvir a Sua voz: “este é o meu Filho bem amado, em quem eu coloquei todo o meu amor. Escutá-Lo é importante. Mas será que é suficiente escutar se não praticar? É esta pergunta que se agita no meu coração ferido pelo pecado.


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