Formação

Frei Patrício: a universidade da cruz é o calvário

Você conhece algum santo que não sofreu?

Foto: Unsplash

A Palavra de Deus é como uma espada que corta pelos dois lados e penetra até o miolo. É uma cirurgia em que o Espírito Santo é o cirurgião que corta na carne viva, sem anestesia. Nunca devemos permanecer indiferentes diante do Senhor que nos fala, mas devemos tentar nos desligar de tudo e oferecer o ouvido do corpo, da mente e do coração para que a Palavra entre em nós e, como fermento, possa nos fermentar para a vida nova.

Um caminho humilde de escuta

Estamos caminhando na santidade, e a santidade nos provoca e exige de nós uma vida de caridade, de amor. Muitas vezes, o nosso mal, leia-se “o meu mal”, é que escutamos a Palavra com ouvido surdo, sem compreender e sem nos deter na compreensão e sem dar a resposta ao Deus que nos fala.

A Universidade da Cruz é o Calvário, em que devemos escutar com o coração o que Jesus nos diz. Sem a ciência do amor e da cruz, não é possível ser discípulos de Cristo.

A “Universidade do Calvário”

Na vida dos santos, pode faltar teologia, conhecimento bíblico, mas jamais pode faltar a cruz, a oração e as obras de caridade. Eu tenho tido a alegria de trabalhar em processo de canonização de monjas e de leigos e é muito interessante ver como eles e elas, sejam leigos ou religiosos, foram espertos e receberam o diploma na universidade do Calvário.

“Nos processos de beatificação e canonização, tomam-se em consideração os sinais de heroicidade na prática das virtudes, o sacrifício da vida no martírio e também os casos em que se verificou um oferecimento da própria vida pelos outros, mantido até à morte. Esta doação manifesta uma imitação exemplar de Cristo, e é digna da admiração dos fiéis. Lembremos, por exemplo, a Beata Maria Gabriela Sagheddu, que ofereceu a sua vida pela unidade dos cristãos.” (Gaudete et Exsultate, 5)

A confiança

É bonito buscar na vida dos que são canonizáveis como eles e elas viveram heroicamente as virtudes, encontraram dificuldades, lutas, tentações, mas sempre confiaram na graça de Deus e, quando caíram, retomaram o caminho com esperança e com coragem.

Há santos que não foram incompreendidos e que não sentiram sobre si a indiferença dos que estavam ao seu redor? Jesus premia os que ama através do cálice da dor e do sofrimento exterior e interior. Você conhece algum santo que não sofreu? Se o conhece, por favor, me diga, que vou escolhê-lo como meu amigo e protetor.

Repartir o pão

Sem repartir o que temos e o que somos, não é possível viver a Palavra de Deus nem no Antigo Testamento e nem no Novo Testamento. Há textos de profetas que são uma beleza e que não diferem do anúncio de Jesus. Como este do profeta Isaías que nos diz qual é o jejum que o Senhor quer de nós.

O jejum se chama repartir, acolher, amar e isto vai exigindo de nós uma renúncia ao nosso comodismo. O jejum não é uma escola de beleza, mas sim uma escola de oração e de santidade. Quando jejuamos, nos tornamos transparentes da luz de Deus, que vive em nós.

A generosidade

Quem ama a Deus se coloca à Sua disposição e quando O invocamos é Ele mesmo que nos responde, dizendo-nos “Eis-me aqui”. Este capítulo 58 do profeta é um dos meus preferidos, que me dá continuamente coragem em todos os momentos de minha vida. Faça também você a experiência.

Sempre que dou o meu tempo, o meu amor, as minhas coisas, Deus me envia o cêntuplo. O refrão do Salmo muito nos ajuda: “Uma luz brilha nas trevas para o justo, permanece para sempre o bem que fez” (cf. 111/112). Os santos são, pois, luz no nosso caminho.

Somos pobres entre os pobres

A comunidade de Coríntios tem muitos problemas. Pode ser que o problema maior seja o orgulho, em que cada um se sente maior e mais importante que os outros. Uma doença terrível que tem cura só com a graça de Deus, é um câncer que acontece até mesmo na vida dos santos. Precisamos, então, tomar o remédio para que não padeçamos.

Este remédio não se encontra na farmácia, mas o temos pela oração. Ele se chama humildade.

Paulo se apresenta na comunidade como o último de todos, com a força do Senhor. Ele não fala da sua cultura nem da sua sabedoria, mas somente do seu amor a Jesus. Não sabia nada além de Jesus.

Voltar ao essencial

Hoje em dia, devemos voltar a esta total simplicidade, visto que a nossa força na evangelização não são os títulos que podemos ter adquirido com o estudo, mas sim a nossa identificação com Cristo Jesus, que é o nosso único amor.

“Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens.” (1Cor 2,3-5)

Ser sal e luz

O Evangelho de hoje é curtinho, mas é sal e luz. Não são necessários, para compreendê-lo, muitos discursos difíceis. Todos nós sabemos que o sal que não salga se joga fora e se pisa, e que luz que não ilumina é treva. Devemos voltar a ler o primeiro capítulo do Evangelho de São João: “veio a luz, mas as trevas a recusaram. Veio o sol, mas os que são insípidos o recusaram.”

A concretude do nosso sim

É tempo de profetismo feito de gestos concretos, de pequenos gestos que têm uma força impressionante na Igreja e na vida. Um pouco de sal é capaz de salgar toda a comida e, uma vez colocado, não é fácil tirá-lo apenas colocando muita água corrente; assim, o cristão autêntico não se deixa corromper por nada, mas salga os que vivem com ele pelo sal da fé, da esperança e do amor.

É tempo urgente de dar testemunho da nossa fé, muito mais com o silêncio das obras do que com a força das palavras.


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