Formação

Frei Patrício: Cada um deve encontrar o seu próprio caminho de santidade em Jesus

Conversão não é apenas uma palavra do dicionário para ser repetida por aí como refrão quaresmal, mas é algo para ser vivido em uma mudança total do nosso agir.

Foto: Unsplash

Que número de sapato você calça? Eu calço 38. Se eu colocar um sapato de número 45, não consigo caminhar, e se colocar o número 30, não consigo nem mesmo pôr. Assim, é o caminho da santidade, cada um deve encontrar o próprio. Deus não exige de todos a mesma coisa, a mesma maneira de viver.

Teresa do Menino Jesus, por exemplo, compreendeu muito bem tudo isto, e, querendo ser santa e vendo que não podia sê-lo como os outros santos nem como um gênio da santidade, descobriu o caminho da infância espiritual. Estamos na Quaresma, a Palavra de Deus bate com força à nossa porta, assim como a palavra do Papa, da Igreja. Porém, a cada um de nós é dada a responsabilidade de viver tudo isto segundo a capacidade e segundo a compreensão.

Precisamos, sem dúvida, de orientações, luzes para o caminho, mas depois é cada pessoa que deve caminhar com coragem, sem desanimar. Deus não olha a grandeza das obras, mas o amor com que são feitas. Vemos como o povo, no seu caminho pelo deserto, rumo à terra prometida, era cansado, queria água, queria carne… Deus dá tudo a ele, mas o povo não corresponde às graças que recebe. É preciso corresponder à graça de Deus, converter-se.

Conversão não é apenas uma palavra do dicionário para ser repetida por aí como refrão quaresmal, mas é algo para ser vivido em uma mudança total do nosso agir, para que seja cada vez mais conforme à vontade de Deus, que quer que sejamos sinais vivos do Seu amor.

Cada um tem seu caminho

“’Cada um por seu caminho’, diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1Cor 12,7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele.  Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. De fato, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse ‘a seu modo’. Pois a vida divina comunica-se ‘a uns duma maneira e a outros doutra’.”(Gaudete et Exsultate, 11)

Este número da Gaudete et Exsultate é de importância fundamental para o nosso caminho de santidade. Cada um deve colocar em movimento a sua inteligência e o seu coração para descobrir o seu caminho de santidade e de perfeição. Neste número que cita São João da Cruz, o místico do Carmelo tão exigente e, ao mesmo, tão compreensivo, que nos recorda que cada pessoa é chamada a ser santa, perfeita, à
comunhão com Deus, mas não na mesma maneira que os outros.

Não existe uma santidade pré-fabricada, mas Deus nos quer santos diferentes, embora que todos juntos revelamos a beleza e grandeza de Deus, nosso Pai. O paraíso é o mais belo jardim do mundo, com uma multidão de flores diferentes umas das outras, mas todas enfeitam o Céu e cantam a glória de Deus. Procure um bom diretor espiritual que possa ajudá-lo a ser você mesmo. Será o mesmo João da Cruz a dizer que o diretor espiritual que quer os dirigidos sejam igual a ele é um péssimo diretor espiritual, é como o diabo…

Não deixemos endurecer o coração

O povo caminha cansado, no deserto, rumo à terra prometida, a que parece que nunca vão chegar. O deserto é duro de atravessar, falta comida, falta água. E o povo se queixa não contra Deus, mas contra Moisés, que fala em nome de Deus e quer libertar o povo da escravidão do Egito. Quando o povo sofre há sempre um clima de revolta contra os dirigentes.

Moisés tem no seu coração a certeza de que Deus não pode abandoná-lo, mas tem medo, é inseguro, e reza, queixando-se, com o mesmo Deus, da demora desta travessia no deserto: “Não sei o que fazer com este povo. Daqui a pouco me vão apedrejar.” O coração se endurece até diante das maravilhas do Senhor. Deus fará derramar a água para matar a sede do povo, mas permanece a pergunta final: “Deus está ou não
no meio de nós?” A mensagem é que devemos escutar sempre a voz do Senhor, mesmo quando nos pareça difícil.

A realidade do endurecimento do coração do povo em Meriba se repete constantemente até os nossos dias. É tempo de Quaresma, tempo de crer na Palavra do Senhor e sermos fiéis ao que Ele nos diz através dos Seus mensageiros. Para nós, a palavra do Papa é determinante para o novo caminho da Igreja e de cada um de nós, como pessoas e como povo de Deus a caminho. O Salmo 95 nos convida a nos aproximarmos de Deus com confiança para contemplar a Suas maravilhas e não endurecer o nosso coração, petrificado pelo pecado.

A esperança em Deus nunca é vã

A certeza de que Deus nos ama está no fato de que embora estivéssemos mergulhados no pecado, Jesus, o justo, morreu por nós. Isto não é filosofia barata e nem bons pensamentos para enganar a nós mesmos, mas uma realidade; por isso que a esperança do cristão nunca é vã, já que se fundamenta não em palavras humanas, mas na Palavra de Deus, que sendo amor não ilude ninguém.

Paulo escreve isto à comunidade de Roma, onde havia um oceano de filosofia e de religiões que prometia e não cumpria. Ele recorda a solidez da fé na Pessoa de Jesus. Hoje em dia, vivemos em um supermercado de esperança, de ilusão que não tem fundamento, envolvendo a saúde, a cultura, o trabalho, a política… Promessas, palavras e mais palavras. Não se entra no paraíso pelas muitas promessas e palavras, mas pelas
obras de fé.

Onde está a nossa esperança?

Creio que já sei de cor e salteado este capítulo 4 do Evangelho de São João. É um dos textos que nunca me canso de ler, meditar e de comentar, e o faço sempre quando tenho oportunidade. Também é um texto muito importante para Santa Teresa d’Ávila, Santa Elizabeth da Trindade e para São João da Cruz.


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