Formação

Frei Patrício: Como receber o Espírito Santo?

O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Para nós que temos fé e a riqueza de Deus, se revela na Encarnação do Verbo eterno, que se faz carne no seio da Virgem Maria e pela força do Espírito Santo, que é dinamismo e vida.

Louvor

Um dos nomes mais belos do Pentecostes é “Pascoa de Fogo ou das Rosas”. O Pentecostes é um fogo que vem do Alto, prometido por Jesus muitas vezes durante a Sua vida, Sua passagem entre nós. Quem ama nunca nos deixa sozinhos, mas sempre caminha conosco.

O Espírito Santo não é uma fantasia do imaginário religioso, mas sim uma realidade que encontramos desde o início da criação do mundo, que vai percorrendo todos os livros da Bíblia, mas especialmente caminha sempre ao lado do povo que tem necessidade de enxergar bem o caminho que deve percorrer. Um povo que deve atravessar o deserto para chegar à terra prometida, um povo que tem necessidade de escutar a Palavra de Deus, e que tem necessidade de purificar-se e tirar a sandália para entrar na tenda da Salvação.

O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Para nós que temos fé e a riqueza de Deus, se revela na Encarnação do Verbo eterno, que se faz carne no seio da Virgem Maria e pela força do Espírito Santo, que é dinamismo e vida. Através dos séculos, a Igreja sempre tem refletido e compreendido a missão do Espírito Santo e o anuncia com os Seus dons.

O Espírito e seus dons

Sabedoria, piedade, fortaleza, temor de Deus, ciência, intelecto, conselho… Cada dom é presente não porque o merecemos, mas por pura misericórdia de Deus. Cada dom é uma dádiva que recebemos no dia da Crisma e nos confirmamos, para poder desempenhar a nossa missão, que nos é confiada por Deus.

Os dons do Espírito Santo não são uma riqueza para ser guardada em um “cofre”, mas para dar frutos, ser dinamizada. O Espírito Santo guia o caminho da Igreja em todos os momentos da vida, mas há sempre o “risco” de se manipular a Sua ação por causa dos nossos interesses humanos, pelo egoísmo, pela autorreferencialidade ou por atitude partidária, ferindo a liberdade de quem busca a verdade, a glória de Deus e o bem dos outros. 

Devemos invocar o Espírito Santo em todas as circunstâncias da vida, mas particularmente quando temos decisões importantes para tomar, sejam individuais, sejam comunitárias. Não há nenhum encontro eclesial, do conclave aos capitólios gerais, ordenação de um Bispo ou sacerdote, profissões religiosas, sem cantar o hino ao Espírito Santo. Ele é força e luz que vai fecundando toda a nossa vida.

No período histórico que vivemos, parece que temos ainda mais necessidade do Espírito Santo para não sermos precipitados nas nossas decisões nem sermos pessoas que se afastam de Deus e proclamam a idolatria da ciência humana e não do Espírito Santo.

Quando era noviço, aprendi, e até hoje o faço, a convidar amiúde o Espírito Santo antes de rezar, de estudar, e de trabalhar mesmo que trabalhe pouco. Façamos do Espírito Santo o nosso grande amigo e fonte de coragem para darmos sempre, em todas as situações, testemunho da nossa fé.

As palavras não fazem santos 

“Para identificar qual seja essa palavra que o Senhor quer dizer através dum santo, não convém deter-se nos detalhes, porque nisso também pode haver erros e quedas. Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo e que sobressai quando se consegue compor o sentido da totalidade da sua pessoa.” (Gaudete et Exsultate, 22)

Muitas vezes, perguntamo-nos como podemos distinguir os sinais de santidade de uma pessoa. É importante que se saiba que não são as palavras que uma pessoa pode dizer, mas sim o conjunto de sua vida, o testemunho da sua fidelidade a Deus, ao próximo e à Igreja que mostram esses sinais.

Vivemos em um mundo no qual buscamos salvadores e Messias, que não estão nunca atrás da porta, sendo preciso confrontá-los com a vida. Porque somente uma vida de coerência pode nos fazer crer nas palavras que alguém diz.

Sempre me vem em mente uma palavra do místico São da Cruz, que confiava muito no Senhor e na ação do Espírito Santo, mas que desconfiava muitíssimo nos santos que diziam que eram: “Nunca confiem no ser humano, por mais perfeito que possa ser”, uma vez que somente a morte nos consagra na nossa fidelidade a Deus.

A última palavra é do Espírito Santo

A Festa do Pentecostes não foi inventada por Jesus nem pela Igreja no seu nascer, mas é antiga, faz parte da memória e da história do povo de Israel. É a festa da colheita, das cabanas, em que todo o povo se reúne em Jerusalém, para festejar e agradecer a Deus.

Havia uma grande multidão do povo vinda de todas as partes do império e cada um falava sua língua. Onde estavam os Apóstolos? Escondidos no Cenáculo por medo dos judeus. Estava com eles a Virgem Maria e outras mulheres em oração. Um momento solene, um momento de espera. O próprio Jesus os tinha orientado para que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem, em oração, a vinda do Espírito Santo.

Lucas não estava presente. Provavelmente ainda nem era cristão, então o seu relato lhe foi comunicado pelas testemunhas que estavam naquela ocasião. Uma descrição maravilhosa, mas, ao mesmo tempo, terrível, que provoca medo: um tremor, uma grande ventania que arranca os telhados, e fogo que cai do céu sob forma de línguas, que pousam sobre a cabeça dos Apóstolos e, creio eu, sobre a cabeça da Virgem Maria e das mulheres. A grande transformação é operada.

O medo desaparece e a coragem entra no seu coração e eles, os Apóstolos, como que “embriagados” saem ao descoberto. Todos os escutam falar na própria língua. Uma grande admiração e medo toma posse de todos. É o início da mudança da sua história. Hoje, vivemos o novo Pentecostes, precisamos, então, falar a língua de todos: o amor.

O refrão do Salmo 144 deve nos acompanhar em todos os momentos de nossa vida: “envia o teu Espírito, Senhor, para renovar a terra.”

Um só é o Espírito Santo que une 

Paulo é fascinado pela unidade e pela comunhão. Ele sabe que, onde não há comunhão e unidade, há divisão, lutas, que prejudicam todo o caminho da Igreja. Se temos um só Deus, um só Jesus e um só Espírito Santo, por que nós somos tão divididos? E por que entre nós não conseguimos criar unidade e comunhão de fraternidade? Paulo não dá uma explicação deste drama humano e espiritual, mas nos faz compreender três coisas:

  1. Todos os carismas são suscitados pelo mesmo Espírito e são para o serviço. Por isso, não existe motivo para lutar pelos primeiros lugares e desejar ser mais forte que os outros.
  2. Todos os carismas são dons dados por Deus para um bem comum e não para o bem individual e pessoal. Devemos servir, pois, com todo o nosso coração, com amor e com dedicação.
  3. Todos os cristãos são batizados no nome da Santíssima Trindade e todo Batismo é dom do Espírito Santo, que nos consagra para sempre com um sinal que não pode nunca mais ser “apagado”.

            Eis o sinal que nos salva: a unidade, a comunhão e o serviço a Deus e ao próximo.

O Pentecostes segundo o evangelista João

Precisamos ler este texto do Evangelho de João junto do relato dos Atos dos Apóstolos para compreender toda a eficácia do Espírito Santo. A Páscoa e o Pentecostes estão unidos intimamente. No Evangelho, João nos relata a visita de Jesus aos Apóstolos reunidos no Cenáculo. Ele os saúda com a saudação da Ressurreição: “a paz esteja com vocês” e não uma só vez, nem duas vezes, mas muitas vezes.

Eu imagino que Jesus se aproximava de cada um dos Apóstolos, cheios de pavor e dizia para ele: “a paz esteja contigo”, e, então, uma grande paz invadia o coração dos Apóstolos. Aqui, no texto do Evangelho, Jesus dá aos Apóstolos o Espírito Santo para a grande missão do perdão dos pecados. Como é belo o sacramento da confissão! É o dom mais belo de Jesus, saber que Ele encarrega a sua Igreja deste sublime ministério. Sozinhos jamais podemos nos perdoar, precisamos escutar a voz de alguém que nos diga e garanta: “Os teus pecados estão perdoados. Vá em paz e não peques mais” Obrigado, Jesus, por este dom.


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