Formação

Frei Patrício: Como viver o tempo, dom de Deus?

 Assim, deve-se dar ao momento presente o valor do eterno, pois, para quem crê, o tempo é simplesmente um kairós, isto é, um momento em que Deus faz explodir o Seu amor e ciência na criação do mundo.

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Os anos passam, a morte se aproxima, e isto é algo em que nem sempre nós pensamos. Quando alguém morre, dizemos que era chegada a sua hora, por estar velho, doente, e por sermos ainda jovens. O interessante disso é que nossa fala depende da idade que temos. Quando somos jovens e morre uma pessoa de cinquenta anos, dizemos que era velha, mas quando somos velhos de 75 anos e morre uma pessoa de 85, dizemos que ela ainda era jovem. Tenho observado isto e não sei se é o medo que revira a contagem matemática ou é a memória que se perde lentamente. Mas seja qual for o motivo, o importante é ter a consciência de que o tempo que Deus nos dá e oferece como dom é para ser vivido.

Ninguém previu que iria nascer nem pode prever o dia  em que vai morrer. Então, o que é o tempo? Como devemos vivê-lo, visto que não está no poder de nenhuma criatura humana pará-lo ou modificá-lo? Vivemos em um momento histórico no qual é muito fácil nos enganarmos, dizendo-nos que somos eternos. Esperamos com uma alegria estúpida o dia em que a ciência poderá superar e vencer a morte. Sabemos, entretanto, que isto não irá acontecer, mas preferimos enganar a nós mesmos e aos outros.

Tudo passa

O tempo, para os filósofos e para a mitologia grega, era o deus mais terrível, que não se podia comprar nem dominar com presentes e sacrifícios. Ele corria como a água em um rio que se vê obrigado a ir à frente, sem poder voltar atrás. Disso, surgiu a triste frase: “Tudo passa”, complementada, genialmente, à luz da fé, por Santa Teresa d’Ávila: “Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta: só Deus basta”. É a partir dessa luz que devemos olhar o nosso presente. 

Será necessária, porém, a vinda de Jesus para que possamos compreender plenamente que o tempo não é malvado nem homicida, ele é simplesmente uma “oportunidade” do amor de Deus, que nos é dada para fazer e anunciar o bem, para cantar as misericórdias do Senhor. Não importa a quantidade de tempo: “mil anos diante de Deus são um momento, e um segundo é uma eternidade”.

 Assim, deve-se dar ao momento presente o valor do eterno, pois, para quem crê, o tempo é simplesmente um kairós, isto é, um momento em que Deus faz explodir o Seu amor e ciência na criação do mundo. O amor, sem embargo, se faz reciprocidade somente na criação do ser humano, que é a escada, a filosofia e a teologia mais bela para conhecer o mesmo Deus que se espelha em nós e em Quem nos espelhamos. Isto até que chegue o dia em que poderemos contemplar face a face, olhos nos olhos, o amor que não conhece o ocaso. 

É belo o tempo. Ele é uma página branca que Deus nos deu no nosso nascer, a fim de que nela escrevamos com a tinta do amor e do bem, para que a entreguemos cheia de amor e não de cálculos difíceis. O amor não calcula, é sempre gratuito.

Ser feliz é igual a ser santo

“A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinônimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade.” (GE 64)

Este número da Gaudete et Exsultate é o menor de todo o documento, mas como diz o ditado brasileiro: “nos menores frascos, se conservam os perfumes mais preciosos”. Logo, se soubermos abrir este perfume, sua essência inundará toda a nossa vida com o doce cheiro da vida de Jesus, que é a síntese das bem-aventuranças. Entrar no santuário das bem-aventuranças é entrar no coração de Jesus e deixar que o Seu amor nos invada e nos transforme em Seu rosto luminoso e feliz.

É proibido desobedecer a Deus

Na leitura atenta deste pequeno texto do profeta Jonas, podemos colocar em evidência três palavras-chave que nos ajudam a compreender que é proibido desobedecer a Deus. A primeira delas é: “Levanta-te!” Jonas está cansado, desanimado, fugiu de Deus e tomou um caminho diferente do que o Senhor lhe pedia. O pedido divino era de que ele partisse para Nínive, mas ele tinha ido para Társis. 

A segunda palavra era: “Nínive será destruída”. Esta mensagem deveria ser anunciada pelo profeta aos ninivitas, que se tinham afastado da Lei do Senhor. Essa, por ser uma notícia perigosa, colocava em risco a vida do profeta que a anunciasse. Jonas, além dessa razão, não acredita que o povo de coração duro e fechado de Nínive possa se converter. 

A terceira palavra “Nínive se converteu” é muito bela. Vemos que não podemos duvidar nunca de que uma pessoa pode se converter. Deus sempre dá novas oportunidades e chances para que tenhamos uma nova página no caminho da misericórdia e do amor. 

O salmista, no Salmo 24(25), pede a Deus que lhe mostre o caminho que deve seguir para obter a Salvação e o perdão dos seus pecados.

Viver com os olhos fixos na eternidade

Paulo tenta convencer os coríntios de que é necessário mudar de vida e observar os mandamentos de Deus, que não devemos correr atrás de coisas que passam, que devemos deixar a amargura do pecado e o perigo de perder a vida eterna. 

Há uma palavra que Paulo usa quatro vezes: “A figura deste mundo passa”. O que ela quer dizer? Isso significa que apenas Deus é eterno e não passa. Ele é sempre o mesmo Pai que fala ao nosso coração e espera que voltemos a Ele. Significa que não devemos deixar que o nosso coração se apegue às coisas nem às pessoas, mas somente a Deus. João da Cruz, com uma linguagem mais compreensível, diz: “Devemos deixar todos os desejos. O único desejo que devemos ter é de Jesus, porque Nele está encerrada toda a nossa alegria, todo o nosso presente e futuro”.

A conversão é seguir Jesus

Eu imagino que os discursos de Jesus eram breves, feitos de frases simples, poucas palavras, mas que desciam como faca na mente e no coração das pessoas. Ele muitas vezes não explicava o que dizia, porque sua mensagem era tão clara que todos os pobres e os ricos, os estudiosos e os analfabetos a podiam compreender. 

As nossas pregações devem voltar a ser evangélicas. Sejam elas poucas, secas e duras, ou doces e fraternas, é preciso deixar que cada um as receba na terra do seu coração e que depois de morrer a semente, deem os frutos desejados.

“Convertei-vos e crede no Evangelho”, imediatamente após estas palavras de reconciliação e de conversão, o Senhor começou a chamar os seus Apóstolos. Eles, deixando tudo o que tinham, seguiram Jesus sem discutir, sem deixar reticências ou cláusulas. Quem discute e pensa muito antes de seguir a Jesus, acaba por não segui-Lo. 

Palavra que ilumina a semana

Acolhamos as palavras: “Convertei-vos e crede no Evangelho” não como um simples conselho opcional, mas como uma ordem que nos vem de Jesus.


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