Formação

Frei Patrício: Deus suscita profetas e santos em todos os tempos

Cada um de nós abre a porta com suas próprias mãos. Paulo nos fala de uma linguagem dos sábios, dos que vivem o mistério de Jesus. Ele vai revelar Jesus e não pode fazer menos que isso. Esta sabedoria não é deste mundo.

O mundo, desde a criação do homem, está em luta e dividido, mesmo entre Adão e Eva, depois do pecado, começou a reinar a divisão, quando um culpava o outro. O diabo ria com gosto, vendo esta rivalidade, na qual não se queria assumir a própria responsabilidade.

E a história da divisão continuou com Caim e Abel, e vai terminar somente com o fim do mundo.

A liberdade de escolher o bem

A humanidade vive em luta entre os que são bons e os que se consideram bons. Creio que ninguém se considera com a consciência ruim. E se o mundo vai mal não podemos colocar a culpa em Deus; Ele nos oferece um caminho de bondade, que são os mandamentos, e todos nós podemos vivê-los se quisermos e se recusarmos a tentação do mal. 

Sabemos que o diabo tomou livremente a decisão de ser mal e de levar todos os que lhe obedecem no báratro e Deus faz todo o possível para derrotá-lo, em luta aberta.

Mesmo que no fim o mal vá ser derrotado, vemos muitas vezes, ao nosso redor, o mal que levanta a cabeça. Porém, nem tudo está perdido: sempre há esperança no mais profundo do nosso coração.

A voz dos santos

Para nos lembrar disso e para que não nos entreguemos ao mal, Deus suscita profetas e santos em todos os tempos. 

A única coisa que Deus não vai fazer é tirar a liberdade do ser humano de ser responsável por suas decisões. Somos chamados a escolher o que está diante de nós, uma escolha que custa e que exige de cada um de nós perseverança, e se por acaso cairmos vai exigir humildade para recomeçar o caminho.

Sempre a porta do coração de Deus, fonte da misericórdia e do perdão, estará à nossa disposição.

“Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque ‘aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente’.

O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo.” (Gaudete et Exsultate, 6)

Ninguém chega ao Céu sozinho

Não devemos pensar e chamar de santos somente os que estão canonizados pela Igreja através de um processo minucioso e severo (antes de proclamar um milagre para serem beatificados e outro milagre para serem canonizados).

Esta exigência é mais do que justa, já que a Igreja nunca foi leviana e superficial para apresentar os vivos como modelo de fidelidade total a Deus. E isto o diz São João da Cruz “por quanto o homem possa ser santo e perfeito, jamais o tome como modelo”.

Depois da morte, não temos mais possibilidade nem de pecar nem de fazer o bem, pois se fecha o espaço da nossa possibilidade de viver ou não os mandamentos de Deus.

É preciso que se saiba também que não se vai ao paraíso sozinho e como também não se vai só ao purgatório e, Deus nos livre, nem ao inferno.

Somos responsáveis pela vida dos outros através do bom exemplo. Devemos ser santos para ajudar os outros a serem santos.

Deus não deu a ninguém a licença para pecar

Confesso que nunca tinha reparado nestas palavras tão claras e tão duras do livro do Eclesiástico.

É verdade que é um livro de sabedoria, mas uma sabedoria tão profunda que nos coloca com as costas nas paredes: não temos licença de Deus nem das leis para fazer o mal. 

Deus nos deu a força para dominar o mal, vencê-lo e derrotá-lo, e não sozinhos, mas com Sua ajuda; no entanto, a liberdade chega ao ponto de que podemos recusar seja a ajuda de Deus seja a ajuda dos outros que nos avisam dos perigos da vida.

Quantos amigos bons temos encontrado no caminho que nos têm advertido do mal que faz o fumo, a bebida, o uso indiscriminado dos meios de comunicação, aquelas leituras ou companhias… E, claro, também falsos amigos…

Entretanto, a decisão é nossa de dizer sim o não, de acolher ou não os bons ou os maus conselhos.

O bom uso da liberdade

É importante saber usar bem a nossa liberdade de escolha e de recusa; saber dizer não ou sim ao que convém para a nossa vida humana, de saúde, e para a nossa vida espiritual.

Chorar sobre o leite derramado, como diz o povo, pouco adianta. Mas Deus ama tanto a cada um de nós, que até o último instante de nossa vida nos oferece a oportunidade de recuperar o tempo perdido no mal e na indiferença. O refrão do Salmo 118/119 nos ajuda a viver a alegria:

“Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!”

A linguagem da sabedoria de Deus

Vou contar um segredo que não é segredo, mas que muitas vezes esquecemos no nosso dia a dia.

Se você quiser conhecer uma pessoa, é suficiente ficar um dia com ela em silêncio só escutando o que diz, vendo o que faz e como age. Cada um de nós revela o conteúdo escondido no seu coração. 

Há uma linguagem que ultrapassa a palavra e se faz gesto silencioso que abre novos caminhos para o conhecimento do outro sem curiosidade, sem bater à porta.

Cada um de nós abre a porta com suas próprias mãos. Paulo nos fala de uma linguagem dos sábios, dos que vivem o mistério de Jesus. Ele vai revelar Jesus e não pode fazer menos que isso. Esta sabedoria não é deste mundo. A falsa sabedoria do mundo tem outra linguagem.

Mas qual?

Poder, dinheiro, prazer, corrupção e tantas outras coisas que não é necessário dizer, porque todos sabemos muitos bem quais são.

A linguagem do amor

Não é preciso dizer muitas coisas sobre este texto do Evangelho de Mateus. O capítulo 5 é uma continuação sobre as Bem-aventuranças e o seu oposto.

O que nos faz feliz é tratar bem os outros, amá-los, ajudá-los; o que nos faz infeliz, por seu turno, é tratar mal os outros com palavras e com pensamentos.

O único jeito é entrar dentro de nós mesmos, mudar de atitudes, sendo sempre bons com todos, custe o que custar.

Como meditação deste Evangelho, aconselho a relê-lo e silenciosamente fixar a atenção sobre cada palavra e se perguntar: “Como é a minha vida?”


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