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Frei Patrício: Em uma família pode faltar o conforto, mas, sem dúvida, não pode faltar o amor

A Sagrada Família é modelo também da comunidade religiosa e isto é bom repetir, uma vez que pode haver alguns religiosos e religiosas ou membros de comunidades que pensem que a festa da Sagrada Família é só para marido, mulher e filhos.

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A festa da Sagrada Família é uma das que mais gosto. Ela faz com que eu nunca desanime na vida. Eu, particularmente, não posso viver sozinho, porque, se assim o fizesse, acabaria sendo mais neurótico do que sou, e também mais agressivo comigo mesmo e com os outros. Amo a companhia das pessoas, mesmo que, em certo momentos, o chamado ao deserto, para estar com Deus e recuperar a coragem, se faça grande no meu coração.

Deus, que sabia a respeito de tudo isto, não me chamou para viver sozinho no deserto por toda a vida nem me chamou para a vida matrimonial, mas sim à vida do Carmelo. Recordo que, no dia da minha entrada na ordem, o provincial, com voz solene e séria, me perguntou: “O que você pede?” A minha reposta estava já decidida e escrita: “a misericórdia de Deus, a pobreza da ordem e a companhia dos irmãos”.

A família de Nazaré é, pois, o espelho visível para toda a vida humana, seja matrimonial ou religiosa, seja eclesial ou também eremítica, porque se um eremita odeia a companhia dos outros, odeia o mesmo Deus que é família de amor trinitário. Toda família deve, então, se espelhar na Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, que vivem uma perfeita comunhão de ideais, projeto de amor. No coração humano não pode haver, então, espaço para o individualismo.

Eu sou feliz com minha família?

Por isso, quando nós somos individualistas, não somos normais, necessitando, logo, não tanto dos psicólogos humanos, mas do psicólogo divino que é Jesus, que nos manda amarmos uns aos outros. A Igreja não pode não se preocupar com a situação da família humana que está cada vez mais desintegrada, dividida, ensimesmada. É preciso que as famílias busquem a luz da Palavra de Deus e da experiência, que busquem caminhos novos para se reconstruir, uma vez que a família é a Igreja em miniatura, sendo reflexo da Santíssima Trindade.

Como é belo poder ler com amor e com dedicação o documento da Igreja sobre a família, o Amoris Laetitia. Esta exortação apostólica pós-sinodal é fruto de dois sínodos de Bispos para ser vivido. Isto revela como o tema não era nada fácil. É o “evangelho familiar” que toda família deveria ter, meditar e colocar em pratica. É verdade que tem se levantado muita poeira, devido às ideias restritas de alguns, para quem a lei vale mais do que a vida. No entanto, devemos reencontrar caminhos de amor, para que família se reconstrua em toda sua beleza e mesmo com as suas feridas e cicatrizes, possa revelar o seu desejo de ser santa.

Também é bonito que a Igreja tenha proclamado santos os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, Luís e Zélia, casal que teve dificuldades, mas que tudo superou à luz da fé. A família é paraíso, mas todo paraíso passa pelo purgatório. Que, nesta festa da família, possamos nos fazer duas perguntas: eu sou feliz com minha família? E minha família é feliz comigo? Se a resposta é sim, vamos avante, melhorando sempre mais. Se a reposta for não, não desanime. Procure começar a melhorar hoje mesmo o seu relacionamento familiar.

Isto vale também para as comunidades religiosas e para a própria Igreja. Ter medo das dificuldades é ter medo de ser gente. É preciso saber que tudo, com amor, pode ser superado. Não apenas a família de Nazaré é santa, mas todas as famílias são chamadas a serem santas, começando agora.

O amor aos pais perdoa os nossos pecados

Não sei se é verdade, mas me dizem que os asilos de velhos estão cheios de pais e mães, os quais os filhos colocam ali para poderem trabalhar, viajar e levar adiante os compromissos. Repito: não sei se é verdade, mas se for, é necessário que se saiba que não é uma boa coisa os pais serem tratados como mercadoria, colocados em lugar de bagagem, à espera da última viagem para o Paraíso. Sei que isto acontece às vezes também na vida religiosa e que os religiosos idosos se colocam numa estrutura confortável “de coisas” e desconfortável de amor.

O Papa Francisco tem levantado a voz contra este estilo de amor robotizado, mas parece que os frutos não são grandes. A primeira leitura da festa da Sagrada Família nos fala da beleza da família reunida: filhos, pais, avós… Em uma família pode faltar o conforto, mas, sem dúvida, não pode faltar o amor. Os últimos versículos do texto valem para todos, não só para os relacionamentos de pais e filhos, mas também para velhos e jovens:

“Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive. Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele; não o humilhes, em nenhum dos dias da sua vida: a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados e, na justiça, será para tua edificação”.

A Sagrada Família é modelo da comunidade religiosa

Paulo é consciente de que o fundamento da Igreja, como pedra angular, é Jesus, e deve ser também o fundamento de toda a sociedade. O grupo humano que se inspira no Evangelho não pode ter outro fundamento a não ser Jesus Cristo. A Carta aos Colossenses nos fala de como devemos nos comportar no nosso dia a dia e como devemos agir entre nós, que cremos na Palavra de Deus. Paulo nos convida a nos revestirmos dos mesmos sentimentos de Jesus, que é ternura, mansidão, bondade, amor, paciência.

Eis as virtudes que devem existir na família, na Igreja e em uma comunidade religiosa. Porque a Sagrada Família é modelo também da comunidade religiosa e isto é bom repetir, uma vez que pode haver alguns religiosos e religiosas ou membros de comunidades que pensem que a festa da Sagrada Família é só para marido, mulher e filhos. Seria um pecado pensar assim. Paulo termina esta sua exortação convocando maridos, esposas e filhos a viverem na harmonia e no amor. Bonito o conselho que dá aos pais “para que não intimideis os filhos”, isto é, não os desanimem, mas os encorajem na vida.

Não ter medo, mas amar

Desde que passei a viver no Egito, comecei a adquirir um amor especial pela Sagrada Família, que se refugiou no país. Não gosto de falar da “fuga” para o Egito, embora o Evangelho diga que José, depois de o Senhor mandar fazê-lo pelas palavras do anjo, se levantou às pressas e “fugiu” para cá. Toda fuga é nomadismo, é ir de um lugar ao outro, em busca de segurança, de trabalho e de proteção. Sem dúvida, Deus vai recompensar para sempre o povo egípcio por ter recebido Jesus durante alguns anos, tempo durante o qual o louco Herodes O buscava, porque tinha medo de que lhe roubasse o poder.

Mas Jesus não é ladrão de poder, Ele recebe o serviço humilde, lava os pés, se faz um de nós e nos salva. Ele veio para ser o servo dos servos. Da leitura da fuga para o Egito, podemos aprender algo de importante: dar espaço aos outros, servir, e, na família, não pisar nos pés uns dos outros. Enfim, não ter medo, mas amar. Jesus, Maria e José, a nossa família vossa é.

“O Deus Trindade é comunhão de amor; e a família, o seu reflexo vivente. A propósito, são elucidativas estas palavras de São João Paulo II: ‘O nosso Deus, no seu mistério mais íntimo, não é solidão, mas uma família, dado que tem em Si mesmo paternidade, filiação e a essência da família, que é o amor. Este amor, na família divina, é o Espírito Santo’. Concluindo, a família não é alheia à própria essência divina. Este aspecto trinitário do casal encontra uma nova representação na teologia paulina, quando o Apóstolo relaciona o casal com o ‘mistério’ da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,21-33)” (Amoris Laetitia, 11).


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