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Frei Patrício: Na calúnia, Deus está ao meu lado

Mas tem uma categoria de pessoas que o vento gélido da calúnia faz crescer, dá força, coragem e os firma nos objetivos de bem. Quem são estas pessoas? São os profetas, os santos, os seguidores de Jesus.

Vivemos um momento particular da humanidade sempre mais sedenta de novidade, sejam boas ou ruins, e isto pode nos fazer cair com facilidade no abismo das falsas notícias, das “fake news” que destroem a dignidade das pessoas. O “ouvi dizer…”, “me disseram…” e não verificar o que foi dito, é algo de terrível para a pessoa. Este vento gélido que mata a vida no seu nascer, está presente nas famílias, na Igreja, na política e no dia a dia. A calúnia é algo gratuito e não verificado, e isto é um veneno que entra no sangue e se transforma em epidemia, como temos visto com o Coronavírus. A calúnia é pecado gravíssimo, é um julgamento sem fundamento que pode nascer mesmo das antipatias ou de julgamentos apressados: se vejo uma pessoa num bar não quer dizer que seja alcoólatra, ou se vejo alguém que fala com malandro não quer dizer que seja também malandro, e por aí vai.

Mas tem uma categoria de pessoas que o vento gélido da calúnia faz crescer, dá força, coragem e os firma nos objetivos de bem. Quem são estas pessoas? São os profetas, os santos, os seguidores de Jesus. É belo ver como todos os profetas sofreram este vento gélido e não pararam na própria missão. Os profetas, ou todos os que seguem Jesus, têm três atitudes diante do que dizem deles: escuta, medita e continua o seu caminho.

Não podemos deixar nos amedrontarem com as calúnias, mas sim tranquilizarmos a consciência e termos a certeza de que somos inocentes diante de tudo que dizem de nós. Não podemos e nem devemos ter medo dos que nos acusam, caluniam, mas da verdade do que somos. Os meios de comunicação de hoje têm criado rápida e velozmente o que chamo “a dependência das notícias”, o querer ter o primado de comunicar notícias que geram “fogueira”, e dão escândalo.

Ninguém escapa deste vento gélido da calúnia. Não devemos desanimar, mas ter a coragem de lutar contra este vento e nos colocar a serviço da verdade.

Diante de tudo isto devemos assumir uma atitude corajosa, para defender a verdade, o bem e condenar o mal, quando temos a certeza de sua presença. Não devemos encobrir o mal e nem cobrir o bem, mas termos a capacidade da honestidade, de sermos autênticos e verdadeiros.

“Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo da mesa, mas no candelabro para iluminar a todos” (Mt 5,15), para que todos saibam assumir o bem e o mal na nossa vida. Calúnia é só mentira, quando é verdade não é calúnia.

Poderá o Espírito Santo enviar-nos e não enviar-nos?

“Poderá porventura o Espírito Santo enviar-nos para cumprir uma missão e, ao mesmo tempo, pedir-nos que fujamos dela ou que evitemos doar-nos totalmente para preservarmos a paz interior? Obviamente não; mas, às vezes, somos tentados a relegar para posição secundária a dedicação pastoral e o compromisso no mundo, como se fossem «distrações» no caminho da santificação e da paz interior. Esquecemo-nos disto: ‘não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão'”. (GE, 27)

O apostolado, a missão nunca é distração para sermos santos. Somos enviados por Deus a comunicar uma missão que é anunciar o Evangelho e, por isso, a missão não pode distrair-nos e nem nos afastar do caminho da santidade. Temos santos que se dedicaram 100 por cento ao apostolado e nem tinham tempo nem para comer. Nunca encontraremos um santo que não tinha tempo para rezar. Encontramos santos e santas que se dedicaram 100 por cento à vida contemplativa, mas nunca esqueceram de ser Igreja e de oferecerem toda a vida para a missão. Contemplação e santidade não podem ser inimigos.

Na calúnia, Deus está ao meu lado

Não sei por quê, mas amo muitíssimo o profeta Jeremias. Sinto-o pessoa humana que sabe sofrer, chorar, confiar em Deus e, especialmente, queixar-se de tudo, mas nunca perde a esperança em Deus e no povo. É alguém que caminha com fadiga, corre das dificuldades, depois volta em si mesmo e pede perdão.

O texto de hoje é de uma beleza única. É o vento gélido da calúnia e dos seus inimigos que querem eliminá-lo, mas ao mesmo tempo ele faz a sua confissão e o seu credo na presença forte de Deus que está ao seu lado. E depois encerra tudo com um convite a louvar e a bendizer a Deus por todos os benefícios que recebemos. A vitória na Bíblia é sempre dos pobres que, mesmo na dor, não perdem a confiança no amor infinito do Senhor. A barca da Igreja, cheia de pobres e sofredores, mesmo quando parece afundar, recebe um vento benfazejo de esperança e retoma o seu caminho para o porto seguro que é o coração de Deus.

O refrão do Salmo 69 é confiança em Deus que não nos abandona, mas que nos envia o seu Filho Único para redobramos a esperança e a força de caminhar. “Em Tua grande bondade responde-me, Senhor” (Sl 69,14c). Sempre o Senhor responde a quem o invoca com fé.

O velho Adão despareceu

Paulo como sempre nos surpreende com sua teologia mística, levanta voo sobre o velho Adão pecador e nos oferece o novo Adão, Jesus Cristo, modelo de renovação e salvação. Não podemos parar e chorar sobre os pecados dos nossos antepassados. Devemos olhar a nossa fragilidade humana salva pela força de Jesus que, através de sua morte, nos doa a ressurreição dos pecados e a coragem para continuar o caminho. Através de Jesus foi e é derramada sobre nós a plenitude da graça e do amor. Deixemo-nos salvar, abramos as portas do nosso coração ao Evangelho da misericórdia e o peso do pecado será destruído pelo amor e pelo sangue de Jesus Cristo.

Por que ter medo?

É triste ter medo. O medo nos impede de sermos nós mesmos, de acolher a mensagem de Deus, e de anunciar o Evangelho. Hoje vivemos um medo que mascaramos como prudência, como delicadeza, como atenção a quem não crê. Na verdade, não é outra coisa senão medo – e medo bravo – do que os outros podem dizer de nós, e de perder amigos que tem outra religião, mas que servem para nossos interesses.

Não teve medo Jesus de se colocar contra os fariseus, nem teve medo Jeremias, nem tiveram medo os apóstolos, nem teve medo Paulo e nem teve medo a Virgem Maria. No coração do cristão não deve existir medo, deve existir coragem, testemunho. E você, tem medo da solidão? De perder amigos e por isso, muitas vezes, não anunciamos o Evangelho e não defendemos a Igreja? A cada um, as respostas.


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