Formação

Frei Patrício: Não é bom queixar-se com o Senhor

Deus, no Seu amor, escuta as nossas queixas e, na medida do possível, as transforma em oração.

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Pode ser que eu esteja cansando os meus bons amigos e amigas que me leem todos os domingos, mas quero insistir na abertura deste domingo, fim de setembro, que não é bom bom e nem educado nos queixar com Deus das nossas dificuldades, especialmente daquelas a que chamamos de “desgraças”. 

Não é fácil compreender que quem ama às vezes deve usar um método severo para corrigir os filhos rebeldes que não querem obedecer. Se lemos a Bíblia com atenção, encontramos este tipo de correção, que não é fácil de entender e harmonizar com a misericórdia.

Os longos anos de escravidão no Egito, as pestes, as derrotas bélicas, as idolatrias, as carestias, os terremotos, enfim, sabemos que nada disso é obra de Deus, mas que muitas vezes é fruto da ganância humana, que não sabe respeitar a natureza. Vemos isto com o coronavírus, que provoca mortes, medo, mas vêm a palavra da Igreja e do Papa que são sempre palavras de esperança, de coragem.  

Deus, no Seu amor, escuta as nossas queixas e, na medida do possível, as transforma em oração. A vida é a mais bela oração, em que a primeira palavra é de Deus, que a pronuncia chamando-nos à vida, e a última é também Dele, que a pronuncia quando nos chama  novamente para entrar na glória do Senhor.

É muito importante compreender que no tempo que nos é dado, entre o nascimento e a morte, somos chamados a realizar grandes coisas, não monumentos para si mesmos, mas obras de amor para os outros.

Qual o projeto de Deus para mim?

Ninguém nasce à toa ou vive à toa, todos temos um projeto diante de nós e este projeto somente nós podemos realizar, ninguém mais. Convido cada um de vocês, durante este domingo, a encontrar um espaço de tempo para entrar dentro do seu coração e se perguntar: “O que tenho realizado até agora corresponde ao projeto de Deus para mim? E o que ainda tenho de realizar, como devo fazer e por quê? Uma das missões que pessoalmente tenho achado mais difícil na minha vida é a de corrigir os outros? Por quê?  Para corrigir os outros, devemos ser nós mesmos fiéis, exemplos, testemunhas… E quando não somos é difícil corrigir outra pessoa. Por exemplo, se eu não sou uma pessoa de oração, é muito difícil  conseguir convidar os outros para rezar.

Às vezes, a melhor correção não vem pelas palavras, mas pelo silêncio e pelo bom exemplo, que tem uma força muito grande na conversão pessoal e comunitária. Não é bom se queixar com Deus dos nossos males, é melhor fazer um exame de consciência  e ver por que não somos felizes e por que certas coisas acontecem na nossa vida.

A Razão tem limites

“Só de forma muito pobre, chegamos a compreender a verdade que recebemos do Senhor. E, ainda com maior dificuldade, conseguimos expressá-la. Por isso, não podemos pretender que o nosso modo de a entender nos autorize a exercer um controlo rigoroso sobre a vida dos outros. Quero lembrar que, na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspectos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, ‘ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. [Certamente,] a quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita’. Por isso mesmo, algumas correntes gnósticas desprezaram a simplicidade tão concreta do Evangelho e tentaram substituir o Deus trinitário e encarnado por uma Unidade superior onde desaparecia a rica multiplicidade da nossa história.”  (Gaudete et Exsultate, 43)

O Papa Francisco nos recorda que a razão não é capaz de explicar tudo, e que devemos saber aceitar o mistério assim como ele é; e diante do mistério, se adora, se ama e se busca razões até onde for possível.

O gnosticismo rejeita o Evangelho, a Bíblia, e cria um ser superior, uma unidade maior que “explicaria” tudo. Mas o conhecimento humano é limitado, seja nas coisas materiais, seja, muito mais, nas coisas espirituais. Nós vivemos como que mergulhados em um profundo oceano de mistério que não nos sufoca, mas que simplesmente deveria nos levar a louvar e a bendizer a grandeza de Deus, que continua a ultrapassar toda a nossa compreensão. Jamais a inteligência humana poderia explicar, por exemplo, como Jesus está presente na Eucaristia, mas, pela fé, cremos que Ele está presente, e isto nos basta. O que não compreendemos, adoramos.

Sem conversão não há salvação

Esta afirmação pode até pegar de surpresa ou parecer dura demais, mas, se a refletirmos, veremos que está mais do que certa. A conversão não é uma decisão que se toma uma vez, não é como uma vacina que se toma uma única vez e está resolvido, visto que o pecado sempre está à nossa porta e nos seduz, e quando pensamos tê-lo vencido, descobrimos que estamos sendo vencidos, devendo, então, recomeçar a nossa luta. Temos inteligência suficiente para saber o que é o bem e o que é o mal, e por isso  precisamos nos converter.

O profeta Ezequiel sabe que o povo não quer se converter, que eles gostariam de ter todas as bênçãos de Deus, mas que permanecem nos seus pecados, na sua indiferença e no comodismo dos prazeres. Isto não era possível nem no tempo de Ezequiel, nem no tempo de Jesus, nem ontem, nem hoje, nem amanhã.

O Salmo 25 responde a esta ânsia por Deus e pela Sua misericórdia, que nos chama à conversão.

A competição vem do paraíso terrestre

Sabemos que o apóstolo Paulo tinha um amor todo especial pela comunidade de Filipos, não porque fosse mais santa e sem pecado, mas porque era sincera, afetiva, humana. Esta comunidade tinha, no entanto, um grande defeito: a competitividade. Lá, cada um queria ser maior que o outro. Este é um pecado velho, aliás é o segundo pecado que encontramos nas Escrituras. O primeiro foi quando Lúcifer disse a Deus: “Não quero te servir”, e o segundo foi quando Lúcifer, que já era diabo, convenceu Eva e Adão a tentar dar um “golpe de Estado” e ser deus… E tudo deu errado.

Cada um deve ocupar o seu lugar com amor e com alegria. Para vencer este pecado de orgulho, devemos fixar o nosso olhar na Pessoa de Jesus, que, mesmo Filho de Deus, se fez nosso irmão e servo. A competição é uma terrível desgraça que destrói a humanidade e cria “classes”.  Parece que eu quero ser mais do que você e você quer lutar para me destruir, para subir mais alto. O que são as guerras senão uma luta, uma competição?

A humildade de voltar atrás

Esta parábola, não sei como, mas era bem conhecida pela minha mãe Domenica, que era teóloga, biblista e anafabeta. Quando eu não queria obedecer, ela me recordava esta passagem no seu jeito, dizendo-me: “voltar atrás e fazer o que a mãe diz não é nem vergonha nem pecado, como fez aquele filho do Evangelho”.

Nem sempre o que Deus nos pede é fácil, há momentos em que o nosso orgulho, a nossa incapacidade, nos leva a dizer “não”, mas depois, pensando melhor, somos obrigados a dizer “sim” e só assim fazemos a vontade do Senhor. Não tenhamos medo de pedir perdão pelos nosso erros, mas tenhamos vergonha de não ter vergonha de errar.


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