Formação

Frei Patrício: Neste Domingo de Ramos temos pouco a dizer e muito a refletir

Tudo é festa em Jerusalém, a fim de se preparar para a Páscoa em que será imolado o cordeiro, fazendo-se memória da libertação do povo da escravidão do Egito… É memória festiva de ação de graças e o povo canta as misericórdias do Senhor.

Estamos quase chegando ao fim do caminho quaresmal para, então, entrar na grande Semana Santa, na qual tudo nos convida ao silêncio, à oração, a entrar dentro de nós mesmos para poder compreender o grande amor de Deus Pai, que entregou Seu único filho Jesus à morte e morte de cruz. Uma semana em que, mais do que as palavras, deve falar forte o amor de gratidão, a conversão da nossa vida, e o sério empenho para uma vida nova feita de obras.

Somos chamados sempre a nos despir do homem velho que, algumas vezes, quer renascer dentro de nós e nos afastar de Deus, sobretudo nesta que é uma semana de luta entre o bem e o mal. Deus às vezes permite que nós acreditemos, fazendo-nos pensar, por alguns breves instantes, que o mal vai vencer, que a noite das trevas vai encobrir para sempre a luz.

Há um terrível jogo do diabo que voltou mais furioso do que nunca através da mentira, que envolve o poder de instituições e de políticos, e o povo, que nem sempre tem como discernir o mal do bem, vai atrás dos que gritam mais forte.

Uma nova forma de reflexão

Esta semana merece uma atenção especial, por isso também o nosso comentário se vai afastar um pouco da metodologia ordinária e vai tomar um outro caminho, poucas palavras, muito silêncio e muita oração. O encontro com a Palavra de Deus desta semana é importante, é uma palavra escolhida, seleta, com fortes tintas emocionais diante do Justo que, por amor, não reage, não se revolta, mas como cordeiro manso levado ao matadouro se deixa amarrar para ser colocado no novo altar da cruz.

O Domingo de Ramos é algo de impressionante que os evangelistas tentam nos contar. É um momento de vitória, de alegria, de festa. Jesus é recebido em Jerusalém como o Messias, como libertador e salvador. O povo exulta, canta, estende os próprios mantos para que Jesus possa passar.

Ele é invocado com os nomes bíblicos de filho de Davi, de bendito, de Santo. Um grito de aleluia, de hosana, que alegra o coração dos que creem Nele e dos que foram beneficiados pela Sua força de cura, de perdão e de amor. Mas, ao mesmo tempo, é um grito que agride os detentores do poder que, através uma falsa religiosidade, dominam o coração do povo, e tem medo de perderá própria força, o próprio poder e a riqueza que provêm da dominação religiosa.

Não há dúvida de que Jesus morreu por intriga e por desafeto. Ainda hoje se discute quem foi o responsável que matou Jesus e O crucificou. A melhor resposta foi dada do povo: “Foram todos Pilatos que se lavaram as mãos, atiraram as pedras e esconderam as mãos.” E a história continua até hoje. Uma coisa é certa: Jesus não se autocondenou e nem se autocriticou. Até os Apóstolos tiveram parte nesta tragédia da humanidade, e até cada um de nós, com a sua falta de coerência, tem parte nas injustiças do mundo, que são cruz pesada para todos os que buscam a verdade e a paz.

Entrada em Jerusalém

Tudo é festa em Jerusalém, a fim de se preparar para a Páscoa em que será imolado o cordeiro, fazendo-se memória da libertação do povo da escravidão do Egito… É memória festiva de ação de graças e o povo canta as misericórdias do Senhor. Muitos têm dúvidas de que Jesus aparecerá no Templo por causa dos conflitos dos últimos tempos entre Jesus e os fariseus. O povo ama Jesus, mas nem sempre tem capacidade de distinguir, indo atrás de quem grita mais forte.

A Semana Santa deve ser vivida com amor, em silêncio, em oração e deixar que a Palavra de Deus “feita carne”, com sua Paixão, entre a fundo no nosso coração e nos transforme para sempre. Não é possível ressuscitar se antes não se morrer; não é possível dar frutos se não somos podados pela ternura e firmeza do Pai agricultor.

Neste Domingo de Ramos, diante da narração do Evangelho, tem-se pouco a dizer, a comentar, mas muito a refletir e interiorizar. Devemos sentir no nosso coração a dor dos sofrimentos da carne viva do Cristo humano que está presente nos nossos irmãos, que com as nossas superficialidades e pecados aumentamos. Jesus coloca um basta à Antiga Aliança e abre e consagra a Nova Aliança com o sangue de Cristo.

Seguimos com dor, tristeza, mas não com desespero, a dura Paixão de Jesus, o profeta que querem silenciar, o amigo do povo que querem eliminar, o Salvador e libertador enviado por Deus que os homens fechados em si mesmos querem matar para que a Sua voz e vida não perturbe a consciência de quem joga na noite do mal.

No Brasil, a Semana Santa é muito sentida especialmente no Nordeste por tantas celebrações teatrais, que têm como finalidade realizar uma evangelização ao vivo, mas que infelizmente corre o perigo de se tornar pura coreografia artística.

A Semana Santa é também motivo de encontro de tantas pessoas que viajam para passar a Páscoa com os amigos e familiares. Tudo é santo depende da maneira como se vive e como realizamos a nossa conversão.

Vivemos quarenta dias de preparação com o tema da campanha da fraternidade: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”. É muito importante não parar sobre “o mundanismo” que pode penetrar no nosso coração – férias, comida, presentes, – e concentrarmos a nossa atenção aos acontecimentos da memória salvífica de Jesus para nós.

Ressuscitar com Cristo

A melhor maneira para preparar a Ressurreição de Jesus, a Páscoa, é ressuscitar, nós mesmos, do túmulo do nosso pecado, da nossa indiferença e fazer florescer uma vida nova. O grito de aleluia que rompe a noite de Páscoa deve ressoar dentro de nós e chamar a viver melhor todos os que estão ao nosso lado. Somos evangelizadores não só da alegria, pois somos também chamados a carregar a cruz, os sofrimentos dos outros, como bons Cireneus.

A Semana Santa é uma porta que se abre diante de nós para uma boa confissão, para realizar boas obras, especialmente reconciliarmo-nos com Deus e com os outros.

Caminhemos pelo caminho da Semana Santa acompanhando Jesus no Seu caminho de cruz, de sofrimento, mas de profundo amor por toda a humanidade. Jesus não morreu só para um “grupinho” de escolhidos, mas para todos. Ninguém pode ser excluído da Salvação.

Retiro de Semana Santa da Comunidade Shalom será virtual

É uma tradição o Retiro de Semana Santa da Comunidade Católica Shalom intercalado com os atos litúrgicos da Catedral Metropolitana de cada Igreja Local. Neste ano, dada às medidas para contenção da pandemia do novo coronavírus, o retiro será realizado de modo online, transmitido pelo canal oficial da Comunidade no Youtube (youtube.com/user/comshalom).


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