Formação

Frei Patrício: Olhar para o céu e ser fiel na Terra

Olhemos para o céu e depois escutemos a voz dos anjos e retomemos o caminho. Com amor, atendamos os que estão fora da porta da Igreja, nos esperando no trabalho, e jamais fechemos os ouvidos e o coração a quem nos pede ajuda.

Foto: Unsplash

Jesus, depois da Ressurreição, quis ficar conosco quarenta dias, não de braços cruzados, mas sim dando especialmente para os Apóstolos e os discípulos uma “formação permanente”, um curso intensivo, “para que depois da sua partida definitiva tivessem a capacidade de levar para frente o projeto da evangelização, para sempre, até a sua nova volta, no fim do mundo.

Reuniu todos no monte, fez uma última saudação e se foi. E todos ficaram com os olhos voltados para o céu, para tentar vê-Lo de novo. Foi necessário enviar anjos para acordá-los do êxtase e dizer-lhes: “para que estais olhando para o céu?” Quem olha sempre para a terra perde o gosto do céu, do paraíso, sente-se sufocado pelas coisas materiais; e quem fica olhando só para o céu, corre o risco de se alienar dos problemas, das tarefas que a ele são confiadas. O olhar do cristão é para o Alto e também para todos os lados.

Medo do céu?

Sempre, na Igreja, tivemos pessoas com medo do céu, preocupando-se apenas em acumular bens e mais bens, deixando, depois da morte, tudo por aqui mesmo, não levando nada. Sempre tivemos também pessoas que olharam para o céu, de forma a esquecer a própria missão, vivendo às custas dos outros. Nenhum dos dois caminhos é certo. Os verdadeiros apóstolos sabem deixar as tarefas e mergulhar no divino, e os verdadeiros contemplativos sabem deixar de olhar para o céu e correr no meio do povo para anunciar o Evangelho e dar uma colaboração maior nas tarefas de construção de um mundo marcado pela justiça e pela paz.

O Papa Francisco não se cansa de nos advertir sobre a nossa missão no mundo de hoje que é de ter sempre uma atenção ao interior e também uma atenção ao que está acontecendo ao nosso redor, tendo um carinho especial pelos que vivem na pobreza, na fome e na marginalização, ou são fruto de uma cultura do descartável “usados e depois jogado fora, porque não servem mais “velhos, pobres, enfermos, deficientes”. A lista se faz longa. 

Com a subida ao céu, abre-se o tempo da espera do Espírito Santo, o tempo de um trabalho de constante conversão. Pensar que é suficiente receber só uma vez o Espírito Santo e tudo está feito é um grande erro. Pensar que para irmos ao paraíso é suficiente rezar o Pai-nosso e Ave-Marias e fazer novena também é erro de conhecimento da vida de Jesus.   

Jesus trabalhou com Suas mãos para ajudar os demais, e nos convida a fazer o mesmo. A Virgem Maria, nas bodas de Caná da Galileia, não se sentiu estranha ao sofrimento dos recém-casados, mas percebeu que faltava vinho e foi pedir ajuda a Quem podia vir em socorro aos que estavam em apuros.

Olhemos para o céu e depois escutemos a voz dos anjos e retomemos o caminho. Com amor, atendamos os que estão fora da porta da Igreja, nos esperando no trabalho, e jamais fechemos os ouvidos e o coração a quem nos pede ajuda.

O que Jesus espera de ti?

“Isto é um vigoroso apelo para todos nós. Também tu precisas de conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje.” (Gaudete et Exsultate, 23)

Subir em um pedestal e começar a criticar o que os outros fazem é fácil. Pegar um microfone e começar a colocar em evidência os erros dos outros também é fácil demais. Pegar às vezes uma caneta e enumerar todas as coisas que não vão bem não é difícil. Difícil é fazer e saber qual é nosso lugar na Igreja, na família, na sociedade, na comunidade, saber qual é a nossa missão.

Devemos colocar-nos em oração e em uma total abertura à luz do Espírito Santo, para compreender o que Deus quer de nós, perguntar no silêncio da oração: “Senhor, o que quer que eu faça?” E Deus, sem dúvida, nos fará compreender a nossa missão e o melhor lugar e maneira para que sejamos reflexos de Jesus. Dessa maneira, os outros, vendo as nossas obras que glorificam o Pai que está no céu, O glorificarão também.

Muitos cristãos creem que seriam bons cristãos se tivessem nascido antes da vinda de Jesus ou nos primeiros séculos da Igreja. Outros pensam que seriam bons cristãos se tivessem nascido daqui a mil anos. Mas devemos refletir o rosto de Jesus aqui e agora, no mundo de hoje, que nos é dado para viver.

Sereis testemunhas até os confins da Terra

Não se vive o Evangelho para si mesmo, e nem se vai ao paraíso sozinho, mas junto dos outros. O maior desejo que um cristão deve ter é que Deus seja conhecido por todos sem que se faça distinção de pessoas e lugares.  

Se Jesus tivesse vindo no meio de nós para salvar apenas um “grupinho” de privilegiados, seria uma vinda não completa. Mas a Salvação depende do anúncio do Evangelho e da resposta que cada pessoa deve dar.

Celebrar a ascensão ao céu de Jesus é celebrar não uma partida definitiva, mas sim um querer permanecer conosco de uma forma diferente, dando a cada um de nós a responsabilidade “visível e física” de anunciar o Reino de Deus, não pela nossa força, mas pela força do Espírito Santo.

O relato de Lucas é simples, mas cheio de importância para a Igreja nascente e para todos nós hoje e sempre. Jesus quis fazer as coisas “em grande estilo”. Ele convocou a todos e se despediu de forma solene, e os anjos, sempre mensageiros do bem, convidaram todos não a ficar aí, mas a voltar para o Cenáculo e começar a nova missão. Convidaram a ser testemunha da Ressurreição de Jesus em Jerusalém e até os confins da terra. Ainda há povos, lugares e pessoas que esperam o anúncio do Reino de Deus. O Salmo 47, com o seu refrão, nos recorda o mistério da Ascensão. Ele subiu ao céu entre cantos de festas, entre os aleluias de alegria e de saudade.

Com os olhos do coração, podemos compreender Cristo

Meditando este pequeno texto da Carta de Paulo aos Efésios, podemos compreender melhor o desígnio de Deus sobre nós a partir da Jesus, nosso Senhor, que sobe ao Céu. Três coisas me chamam a atenção:

  1. Jesus é o Senhor de todo o universo. Onde resplandece a glória do Pai e do Espírito Santo, podemos compreender a nossa vocação, a qual fomos chamados e a esperança que habita em nossos corações.
  2. Jesus é a Cabeça da Igreja. Seu corpo não pode só compreender uma Igreja “dividida, desunida” na busca de si mesma e de seus interesses que não sejam os de Cristo Jesus, a Salvação universal.
  3. A Igreja nos dá a garantia da nossa fidelidade a Cristo. Uma Igreja peregrina a caminho que não muda os valores, mas se adapta às necessidades do povo sempre em busca de uma fidelidade criativa a serviço de Deus e do povo.

Eu estarei com vocês para sempre

Não quero comentar o Evangelho, me falta a coragem de acrescentar algo a mais do testamento de Jesus antes de subir ao céu. Testamento não se muda nem se altera, mas se coloca em prática.

“Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Amém.


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