São tempos simultaneamente obscuros e luminosos, os que vivemos. Isso se dá seja na vida humana, seja na econômica ou na espiritual. Estes são tempos de busca de novos caminhos que nos levem a uma nova vida.
O que mais tenho ouvido falar neste período do coronavírus são profecias que se mostram ao mesmo tempo verdadeiras e mentirosas. Dizem que a vida não será mais a mesma, que tudo será diferente. Quanto à primeira assertiva é fácil prevê-lo, uma vez que, se queremos viver, necessitamos ter mais juízo, a fim de obedecer à ciência médica, que nos diz que devemos permanecer, ainda não se sabe por quanto tempo, “um carnaval mascarado obrigatório”, para evitar a contaminação pela COVID-19.
Neste momento, todos são profetas e dão conselhos, todos são estrelas. É preciso saber, no entanto, que nem todas as estrelas nos levam a Belém, onde podemos contemplar Jesus, nosso Salvador.
Quem quer buscar a Deus, deve fazê-lo com a humildade dos reis magos, que estudam os sinais dos tempos e se colocam a caminho, e que, sem medo dos perigos que podem encontrar, ao ver desaparecer a estrela, não desanimam, mas buscam informações para chegar aonde o Espírito os quer levar.
A verdadeira manifestação
A Epifania é, pois, momento para renovar a nossa fé e não guardá-la só para nós, mas, sim, colocá-la a serviço dos outros, comunicá-la com entusiasmo a todos. Nela, inicia-se a nova missionariedade, que fecha o Antigo Testamento e abre novos caminhos. Não há mais uma missionariedade de observância das leis, mas a missionariedade integral da pessoa, pois o Cristo veio para nos salvar e nos dar uma vida feita carne.
Deus desce a nós e se esconde na pobreza, na humildade, para assim falar ao nosso coração. Esta solenidade só é, então, compreendida com o coração, por ser uma festa de amor, de simplicidade e de encanto, na qual todo o nosso ser se comove ao contemplar um recém-nascido que esconde em si verdadeiras divindade e humanidade.
É na Epifania que aprendemos que a divindade se faz carne e vem nos visitar. Este mistério, revestido de humanidade e pobreza, não pode ser compreendido pelos poderosos, orgulhosos e prepotentes.
Sempre na vida encontramos a nossa “estrela” que nos indica o caminho a seguir, as estradas que devemos abandonar e os caminhos que devem ser retomados, se queremos chegar à nossa meta. O Papa Francisco muitas vezes recorda a si mesmo e à Igreja de Cristo que, nesse caminho, não podemos ser pessimistas, e que toda a nossa vida deve ser animada pela esperança de encontrar a Deus.
A Epifania é a festa da esperança que abre novos caminhos, e nós somos os semeadores da esperança. Devemos, dessa forma, com os reis magos, olhar para o céu, em busca da estrela que nos guia, e olhar para a terra, para nos colocar a caminho e não parar até chegarmos aonde está Jesus, para poder, então, adorá-Lo, oferecer-Lhe os dons preciosos da fé, da esperança e do amor. Assim, poderemos, em seguida, retomar um caminho diferente, para continuar a anunciar a todos que, depois da vinda de Cristo, não há lugar para o pessimismo e para o desânimo.
O rosto de Deus no irmão
“(…) é bom recordar frequentemente que existe uma hierarquia das virtudes, que nos convida a buscar o essencial. A primazia pertence às virtudes teologais, que têm Deus como objeto e motivo. E, no centro, está a caridade. São Paulo diz que o que conta verdadeiramente é ‘a fé que atua pelo amor’ (Gl 5,6). Somos chamados a cuidar solicitamente da caridade: ‘quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. (…) Assim, é no amor que está o pleno cumprimento da lei’ (Rm 13,8.10). ‘É que toda a Lei se resume neste único preceito: ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’’ (Gl 5,14).” (Gaudete et Exsultate, 60)
Este número da exortação apostólica do Papa Francisco parece escrito para compreender o mistério da Epifania, no qual contemplamos o rosto do Pai refletido no seu Filho único, Jesus. Contemplamos o rosto de Jesus refletido também no rosto de cada criatura humana. Não há mais dois caminhos, mas um único. Não há mais dois rostos, mas um único rosto, o qual é feito de feições humanas que, por sua vez, escondem as feições do rosto de Deus, que se revela na humanidade.
Como é belo poder, com a delicadeza e a ternura do nosso coração, contemplar os rostos humanos marcados tanto pelo sofrimento, pela doença como também pelo sorriso de alegrias humanas que nascem do amor, vendo em tudo isto o rosto de Deus. Nunca um gesto de amor feito pela fé será somente um gesto humanitário, pois sempre será também um gesto divinizado. Tudo é divino e grande quando feito por amor.
Levanta-te e acende a luz
Isaías é o profeta enviado por Deus para o meio do povo de Israel, a fim de reanimar, encorajar e levar a todos a esperança de que o Senhor é um pastor que nunca abandona o Seu rebanho, aconteça o que acontecer. A sua palavra é doce, forte, corajosa e, ao mesmo tempo, é capaz de corrigir os erros de um povo acomodado.
Neste texto da liturgia, na solenidade da Epifania, o profeta usa várias vezes uma palavra: “Levanta”, que se dirige à cidade de Jerusalém, envolvida nas trevas da descrença, da falta de amor. Esta palavra convida o povo a “acender a luz”, porque o novo dia está nascendo e a noite termina. O profeta também convida a levantar os olhos para o céu, a fim de que contemplem as estrelas que anunciam nova vida e nova terra. Ao fazerem o que ele diz, seus olhos veem as caravanas do povo que volta para a terra prometida: a escravidão do Egito, a escravidão do pecado e da idolatria acabou!
O Salmo 71(72) anuncia que o Messias julgará com justiça e retidão. Ele anunciará aos pobres a Salvação e a liberdade. A Epifania é liberdade, é vida e é dom de Deus. Não é um presente que se compra em supermercados ou em lojas, mas dons que nos são dados gratuitamente por Deus, que os compartilha entre nós.
Deus revela o mistério a todos
Quantas vezes no perguntamos qual é a vontade de Deus? E quantas vezes quebramos a cabeça para encontrar uma resposta que nos tranquilize? O apóstolo Paulo nos revela o mistério da vontade de Deus em Jesus de Nazaré. Na Epifania, ela assume o seu caráter universal.
Deus quer que todos se salvem. Por isso, cada um de nós é responsável pelo anúncio do Evangelho a todas as criaturas. Logo, a Epifania é a festa da Igreja missionária, que deve anunciar a todos – sem excluir ninguém – que somos como uma unidade, um único corpo de Cristo Jesus e somos, dessa forma, chamados a participar da mesma promessa anunciada pelo Evangelho. Eis a nossa vocação!
Os reis magos são os missionários
Li, com gosto, o relato dos reis magos, o qual encontramos somente no Evangelho de Mateus, e senti nascer no meu coração uma grande alegria. Surgiu também uma pergunta: “Quem são os ‘reis magos’ de hoje?” A resposta que vem é a de que são os missionários que perscrutam continuamente os sinais dos tempos, da Igreja, da humanidade. Sempre a caminho, eles buscam a estrela da paz e da alegria, que surge no céu da nossa vida.
Não podemos jamais permitir que o pessimismo e o desânimo integrem o nosso coração. É tempo de colocar-se em novos caminhos, na busca de seres humanos perdidos que nunca escutaram falar de Jesus.
Não é necessário, para ser missionário entusiasmado por Jesus, pensar em outros planetas habitados. Se porventura houver vida em outros planetas deste vasto universo, que seja muito bem-vinda, porque todos estão salvos por Cristo Jesus, no entanto não devemos fantasiar. Precisamos construir o Reino de Deus aqui e agora.
Os reis magos, após encontrarem-se com Jesus, voltaram ao próprio país por outro caminho. Também nós precisamos buscar novos caminhos para evangelizar o maior número de pessoas possível.