Formação

Frei Patrício Sciadini: Nós somos os novos reis magos

“Eis o segredo da santidade: fazer em tudo a vontade de Deus e reconhecer em tudo, mesmo nas coisas mais difíceis, a mão do Senhor que nos conduz”, ressalta.

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Chegamos à grande festa da Epifania. Contemplamos os reis magos que, depois de uma longa viagem, desgastada pelo encontro e engano por parte do rei Herodes, chegam à casa onde está Jesus, oferecendo-Lhe três dons: ouro, incenso e mirra. O Evangelho não nos diz os nomes dos três personagens do Oriente, mas a fantasia do povo os chama de Baltasar, Gaspar e Melchior.

Tudo isto nos evoca a nossa missão de buscar Jesus até encontrá-Lo, e, uma vez que O encontremos, devemos adorá-Lo e oferecer-Lhe o dom da fé, do amor e da esperança. Devemos, em seguida, retomar o nosso caminho para a outra estrada e, durante o seu percurso, anunciar a todos a nossa descoberta.

Na Epifania, a Igreja quer contemplar a manifestação de Jesus, que é reconhecido como Filho de Deus, como Rei, como Aquele que recebeu do Pai a missão de salvar a humanidade.

Uma comunicação fruto de um encontro

Hoje em dia, vivemos situações em que devemos lutar para poder encontrar Jesus. Há por aí muitos Herodes que fingem ser amigos de Deus, mas que, na verdade, querem eliminá-Lo da história. A presença de Jesus mexe não só com os que creem Nele, mas também com os que não acreditam em Deus. A Sua presença sempre nos coloca em crise e nos chama a pensar nos valores fundamentais da vida, da dignidade, do respeito aos outros.

Neste dia, celebramos também a jornada da infância missionária. É, pois, festa das crianças. São elas o dom maior que Deus pode dar a uma família, a uma nação, à Igreja. As crianças ao redor do presépio ficam encantadas não só com a poesia, mas com a realidade de contemplar o menino Jesus, modelo para toda criança e modelo para todo ser humano.

Queremos viver este dia tomando uma decisão: sermos santos, buscar a Deus e, uma vez O encontrando, comunicá-Lo a todos. É triste ver como o consumismo está preocupado em comercializar o Natal, querendo substituir o Menino Jesus pelo Papai Noel, com tantas outras coisas que têm sabor de paganismo e que minam os valores interiores.

Como nos diz o sucessor de Pedro, Papa Francisco: “o Senhor escolheu cada um de nós ‘para ser santo e irrepreensível na sua presença, no amor’ (cf. Ef 1,4).” (Gaudet et Exsultate, 2)

A maturidade espiritual

Teresa do Menino Jesus amava muito o Natal. Ela se converteu em uma noite de Natal. Leiamos o que ela mesmo disse a respeito da sua experiência com Deus:

“Em 25 de dezembro de 1886, recebi a graça de sair da infância. Numa palavra, a graça de minha conversão completa. Voltávamos da Missa de meia-noite, na qual tive a ventura de receber o Deus forte e poderoso. Chegando aos Buissonnets [sua residência], senti a alegria de ir pegar meus sapatos na lareira. Tanta alegria nos proporcionara na infância o antigo costume, que Celina queria continuar a ter-me como caçula por ser o bebê da família.

Papai gostava de ver minha satisfação e de ouvir meus gritos de alegria quando eu retirava cada surpresa de dentro dos sapatos encantados. E o contentamento de meu querido rei [seu pai] aumentava minha felicidade. Jesus, porém, querendo mostrar-me que devia livrar-me dos defeitos da infância, subtraiu-me também as inocentes alegrias dessa idade. Permitiu que papai, extenuado com a Missa da meia-noite, proferisse estas palavras que me atravessaram o coração: ‘Ah! Afinal, que sorte ser este o último ano’.

Então eu subi a escada para tirar o chapéu. Conhecendo minha sensibilidade e vendo lágrimas brilhar em meus olhos, Celina também estava a ponto de chorar, pois me queria muito bem e compreendia minha mágoa.

– Ah, Teresa – disse-me ela –, não desças, ser-te-ia por demais custoso ir neste momento ver o que há em teus sapatos. Teresa, porém, já não era a mesma. Jesus transformara-lhe o coração. Depois de sufocar minhas lágrimas, desci rapidamente a escadaria.

A comprimir as batidas do coração, peguei meus sapatos, coloquei-o diante de papai e fui tirando alegre todos os objetos, com o ar feliz de uma rainha. Papai ria-se, tinha também recuperado a alegria e Celina estava sob a impressão de um sonho. Felizmente era uma doce realidade. Teresinha reencontrara a força de ânimo que perdera aos quatro anos e meio e conservá-la-ia para sempre. Aos catorze anos eu entendia já o segredo da perfeição.”[1]

Revestir-se da luz

O profeta Isaías, com sua palavra de esperança, nos convida a não deixar o desânimo entrar no nosso coração. Ele é profeta da esperança, que nunca se deixa abater pelas dificuldades, e com sua palavra anima sempre o povo a olhar longe e ver que o Senhor, mesmo que pareça tardar, virá para salvar o povo.

Existem muitos falsos profetas que parecem se divertir ao desanimar o povo, falando sempre de desgraças e de fim do mundo. As falsas notícias, hoje em dia, são criadas em laboratório, mas as verdadeiras notícias são criadas no coração dos que creem e têm fé.

Quem ama a Deus não pode jamais pensar que a morte é mais forte do que a vida, que as pessoas más são mais fortes e que vencerão. A teoria do mal seria a derrota de Deus e isto nunca poderá acontecer. O profeta Isaías, então, anima a todos a caminhar na luz. Esta luz não é a luz artificial das vitrines, dos supermercados, das árvores de Natal, mas é a luz de Deus: “àquele que acolhe esta luz que é Cristo, será dada sempre a coroa da vitória.” Nos momentos mais difíceis, como na vinda dos reis magos, quando a estrela desparece, ela volta a aparecer, guiando-os para onde se encontra Jesus.

O Salmo 72 nos convida a ir com coragem e fé adorar o Senhor. Toda adoração não é feita de palavra, mas de silêncio e de amor. Fiquemos ainda um pouco diante do presépio para adorar Jesus, nosso Redentor e Salvador.

Um mistério confiado aos simples

Paulo apóstolo é apaixonado por Jesus, ama o seu ministério de pregador da Palavra de Deus e quer revelar a todos que Cristo veio para o meio de nós, passou pelo mistério da morte, ressuscitou e está vivo. Este mistério não nos é revelado através das ciências humanas, mas através da fé.

Não podemos pensar que estudando muito ou tendo muitos diplomas, mesmo em teologia, em espiritualidade ou na Bíblia, isso vai aumentar automaticamente a nossa fé. A fé será sempre um dom de Deus que nos é dado na medida da nossa abertura à luz do Espírito Santo.

Podemos ter um montão de diplomas e não ter fé. E podemos ser analfabetos e ter uma fé capaz de mover as montanhas. Paulo insiste que todos os povos são chamados a participar do dom da fé, e que Jesus veio para todos, então toda a humanidade está a caminho para adorar o Senhor Jesus, presente na história. A Epifania, a manifestação do Senhor, não é só um dia, mas todos os dias.

Os novos dons que Jesus quer

Nós somos os novos reis magos. Caminhamos pelas estradas do mundo na busca de Jesus. Devemos seguir a estrela que aparece diante de nós e que tem como tarefa nos guiar até Cristo. O caminho é longo. A estrela é a Palavra de Deus, a Igreja, as pessoas boas que encontramos. Mas, às vezes, por muitos motivos, deixamos de seguir estas estrelas e sozinhos, quem sabe amargurados, porque a estrela desapareceu, vamos nos perguntando onde está Jesus.

Com isso, podemos encontrar vários Herodes, que tentam nos enganar. Encontramos, então, lobos vestidos de cordeiros. No entanto, sempre reaparece a estrela, até que chegamos onde está Jesus.

Quais são os dons que Jesus deseja de nós?  O ouro da fé, o incenso da adoração e a mirra, que é a participação do sofrimento de Cristo e da humanidade. Vivamos oferecendo estes três dons a Deus e seremos feliz.

Tu és batizado? Pois deves ser santo!       

É belo poder contemplar o Batismo de Jesus. Ele, sem pecado, nos mostra que temos necessidade de sermos mergulhados no mistério infinito do amor de Deus, para passar a nossa vida fazendo o bem a todos. Somos chamados a ser santos.

Este ano queremos fazer um caminho diferente das nossas meditações dos domingos. Iremos, sim, contemplar e meditar a Palavra de Deus que a Igreja nos oferece, mas todas as vezes comentaremos um número da exortação apostólica do Papa Francisco Gaudete et Exsultate, que trata do chamado à santidade e à vida de oração. Será um caminho maravilhoso, no qual sentiremos a alegria de descobrir, guiados pelo Papa, o mistério da oração, da vida concreta, da santidade, como ele diz, da “porta do lado”.

Por muito tempo, fomos acostumados a ver a santidade como algo distante da nossa vida cotidiana e na verdade não pode ser assim. Ser santo, no sentido bíblico, não diz respeito à canonização que a Igreja reserva a um número restrito de cristãos que viveram em uma forma heroica ou por meio do martírio ou da vida concreta uma intimidade com Deus extraordinária, ser santo é buscar ao Senhor com toda intensidade.

Vivemos em um mundo feito de contrastes, de tentações de todo tipo. O cristão não pode fugir do mundo, mas sempre se recordar das palavras de Jesus: “vós estais no mundo, mas não sois do mundo” (Jo 15,19). Esse é um chamado de Jesus a não nos deixarmos corromper por causa do fermento velho da falsidade, da vida de aparente bondade, mas na realidade longe de Deus.

O Batismo de Jesus recorda o nosso Batismo porque, no dia em que fomos batizados, também o Pai se inclinou sobre nós e nos foi dado o Espírito Santo, além de terem sido pronunciadas as palavras: “este é meu filho bem amado em quem coloquei toda minha complacência” (Mt 3,17). Se não somos santos, não o devemos ao fato de que Deus não nos ama e nem nos dá todas as graças e meios necessários para sermos, porque Ele nos ama e nos dá o que é preciso.

Alegria em meio à tribulação

“‘ALEGRAI-VOS E EXULTAI” (Mt 5,12), diz Jesus a quantos são perseguidos ou humilhados por causa Dele. O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: ‘anda na minha presença e sê perfeito’ (Gn 17,1).” (Gaudete et Exsultate, 1)

O Senhor não nos pede aquilo que não podemos fazer, porque Ele mesmo nos dá força para isso. Não temamos, porque Deus é nosso Pai e defensor. Nascemos para a santidade, porque nascemos para Deus.

Deus nos quer santos e não quer que a nossa vida seja medíocre, superficial, indecisa. Estas três palavras devem nos obrigar a descer no mais profundo do nosso coração, a fazer um sério exame de consciência para verificar o nosso comportamento, se é conforme ou não à Palavra de Deus, aos nossos compromissos batismais, e à nossa missão que devemos viver como a nossa vocação particular.

Deus repete a cada um de nós as mesmas palavras que diz no início do caminho de Abrão, nosso pai na fé: “anda na minha presença e sê perfeito” (Gn 17,1). Façamos um pouco de silêncio e meditemos estas palavras.

A missão do servo do Senhor é a esperança

Nunca me canso de meditar os cânticos do servo sofredor de Javé, especialmente este texto de Isaías 42, em que encontramos a missão de quem ama de verdade o próximo. Quem ama não pode desejar o mal, sabe que a sua missão é animar os desanimados, encorajar os que debaixo da cruz não encontram força para continuar o caminho.

Qual é a nossa missão diante das dificuldades da Igreja, da família, do mundo, da vida pessoal? É por acaso chorar e cruzar os braços? Nada disso! É arregaçar as mangas e fazer de tudo para reverter as situações que parecem sem repostas. Deus não pode abandonar os que O amam e os que confiam Nele. Nos momentos de dificuldades e nas noites, é bom voltar a ler este cântico para reencontrar a força da alegria e da esperança.

O Espírito Santo nos consagra

O Salmo 29 convida todo o universo a cantar a força de Deus que se revela não somente na natureza e nos animais, mas especialmente no ser humano, que é chamado a louvar e bendizer.

Não é possível se fechar no pessimismo dos nossos pecados e do mal que vemos. Os nossos olhos sempre enxergam a luz que rompe as trevas, que é a luz de Jesus. Deus, nos recorda o autor dos Atos dos Apóstolos, não faz distinção de pessoas, mas ama a todos, e para todos foi enviado Jesus, a fim de que todos sejam salvos no Seu nome.

Muitas vezes, vemos renascer, dentro de nós e ao nosso redor, a erva daninha do racismo e da discriminação, achando que somos os melhores. Quem ama não julga os outros como sendo piores que si mesmo. No Batismo, todos somos consagrados pela força do Espírito Santo. Sabemos, em um certo sentido, que todos os que buscam a verdade são mergulhados no mistério do amor infinito de Deus, que quer todos salvos.

Este é o meu Filho amado!

Com extrema sobriedade de palavras, o evangelista Mateus narra o Batismo de Jesus. O pequeno diálogo entre João Batista e Jesus nos faz compreender a humildade dos dois; de João, que não quer batizar Jesus, porque reconhece Nele o enviado de Deus, o Messias, o esperado e o Salvador; a humildade de Jesus, que quer dar para todos o exemplo de ser lavado, mesmo não tendo necessidade, por não ter pecados, mas, que, diante do povo, quer assumir com este gesto a Sua missão pública de enviado do Pai.

Será a mesma voz do Pai que se faz ouvir que consagra Jesus como filho amado, filho em que Deus encontra a Sua alegria. Mas por que Deus encontra a alegria em Jesus? Porque Cristo realiza sempre e em tudo a vontade do Pai.

Eis o segredo da santidade: fazer em tudo a vontade de Deus e reconhecer em tudo, mesmo nas coisas mais difíceis, a mão do Senhor que nos conduz.

[1] SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. História de uma alma. São Paulo: Paulus.


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