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Frei Patrício: se viver é uma arte, morrer também o é

Todos os anos, a Igreja nos convida a fazer memória dos que já partiram e que estão no Reino de Deus, é um dia em que falamos da vida que foi e da vida que é. A nossa espera é um dia mesclado de tristeza e de saudade.

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No tempo em que Teresa do Menino Jesus estava na enfermaria do Carmelo e seu estado de saúde não dava nenhum sinal de melhora, mas só piorava todos os dias, as irmãs iam e vinham para visitá-la. Elas passavam alguns instantes com ela e falavam-lhe coisas boas e ruins. Certa vez, uma monja, que não tinha qualquer prudência e atenção, mas dizia o que lhe vinha à cabeça, perguntou à Teresa: “Teresa, você sabe morrer?” Uma pergunta como esta nos deixa, no mínimo, sem saber o que responder, mas ela, com um sorriso nos lábios, disse: “não sei por que nunca morri”.

Nunca saberemos viver plenamente, mas todos os dias aprendemos a viver com mais empenho e alegria à medida que damos um sentido à nossa vida; e todos os dias aprendemos a morrer, à medida que nos libertamos do apego às coisas e às pessoas.

Se viver é uma arte, também o é o morrer. É necessário saber olhar a limitação da vida não como um castigo, mas como um caminho normal do nosso ser criaturas que vivem os valiosos momentos como um dom de Deus. Cada idade tem a sua beleza e as suas dificuldades mais ou menos conscientes.

Mas o que é a morte? Podemos compreendê-la sob diferentes óticas e cada aspecto nos dirá algo, mas não a sua totalidade. Nós temos experiência com a morte, por exemplo, quando contemplamos o diminuir do vigor da juventude, pela dificuldade na visão, nos órgãos do corpo. Temos experiência com a morte sempre que participamos de um velório, em que vemos a imobilidade daquele que poucas horas antes estava vivo, falava, estava conosco…

Para quem não tem fé a morte é o fim de tudo

É salutar para a alma e para o corpo neste Dia de Finados visitar os cemitérios, não como turistas, mas como peregrinos da vida em caminho para a morte. Esta é terrível para todos, mas, para os que não têm fé, é o fim de tudo e, então, se pode compreender as pessoas que defendem a eutanásia, o suicídio assistido, a hibernação e tantas outras camuflagens da morte. Ela deve ser olhada nos olhos, sabendo que, com a fé a e certeza da ressurreição, quem é derrotada não é a vida, mas a morte, que não tem a última palavra.

Todos os anos, a Igreja nos convida a fazer memória dos que já partiram e que estão no Reino de Deus, é um dia em que falamos da vida que foi e da vida que é. A nossa espera é um dia mesclado de tristeza e de saudade.

O problema não é a morte, mas a vida que somos chamados a viver. Vida sem egoísmo e sem luta com os outros, mas sim de mãos dadas, partilhando o que temos e somos. Ninguém passa na vida inutilmente e sem deixar rastro do que é do bem e do mal.

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morto viverá para sempre.” (Jo 11,25) Eis a nossa certeza e fé.

Jó deseja a morte, mas não quer morrer

Deixemos que os biblistas nos digam quem foi e o que fez Jó, modelo na tradição bíblica do homem de paciência, de fé, que luta contra todos os que procuram fazer-lhe perder a confiança em Deus. Os falsos amigos que o visitam na sua dor tentam convencê-lo de que o seu sofrimento, que todas as desgraças humanas que lhe passam são frutos dos seus pecados escondidos.

Jó é um homem decidido, que não pode crer que Deus castiga e pune os que procuram a verdade e o amor. Eu diria, com um paradoxo, que Jó é aquele que sofre tanto que invoca a morte, mas que, na verdade, não quer morrer. Como cada um de nós, quando se sente sob o peso de sofrimentos muito grandes, diz “seria melhor a morte”, mas não deseja de fato morrer.

Eu não consigo compreender os que defendem a morte como fim da dor e do sofrimento, porque a vida, por mais que seja dura e difícil, é sempre e muito melhor que a morte. A Igreja, fiel ao Evangelho, não pode aceitar a morte como uma “vassoura” para limpar o mundo de doentes, inábeis, velhos…

Contemplemos Jó e meditemos o versículo 27: “Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outros”.

O amor é mais forte que a morte

O Salmo 27 nos infunde esperança, coragem, e nos convida a não ter medo de nada nem de ninguém, porque Deus é nossa luz, nosso refúgio na vida e na morte. Mesmo que a realidade da vida nem sempre nos dê coragem para viver com otimismo, quem tem fé nunca pode desanimar, porque a sua fé não está nas coisas, mas no mesmo Deus, que é amor infinito. E o amor, quando é autêntico e verdadeiro, nunca decepciona.

Os nossos olhos devem sempre estar fixos em Jesus que, sendo justo, morreu por nós, injustos e pecadores, não forçadamente, mas por amor. O amor de Deus  nunca perde a esperança na nossa conversão. Como um pai que ama os filhos, espera sempre que os filhos voltem, mesmo quando saem de casa. 

Em Lucas 15, há uma palavra-chave para a nossa fé.

Cristo morreu por nós

Aqui está toda a nossa esperança: Deus não nos abandona nos nossos pecados. A morte é o momento em que o Senhor nos faz e refaz a proposta de Salvação. A nós cabe dar-Lhe a resposta.

Deus não quer que ninguém se perca

Quem ama a Jesus vive para sempre, porque Ele é vida, amor, paz e ressurreição. Nesta vida, nos alimentamos não somente da Palavra de Deus, mas do corpo e sangue de Jesus. É por isso que vivemos sempre em comunhão plena com Ele, que nos faz uma grande revelação, da qual não podemos nos esquecer: “Deus Pai não quer que ninguém se perca, mas que todos sejam salvos”. Este desejo de Deus não é uma promessa vã e inútil, mas é fidelidade. A nós, porém, cabe a responsabilidade de não dormir sobre o travesseiro dos nossos pecados e do nosso comodismo, mas levantarmo-nos com amor, para viver a vida plena que o Senhor nos oferece.

Se vamos com confiança a Jesus, Salvador e Redentor, Ele nunca nos fechará a porta, pois, como Bom Pastor, nos espera para nos admitir na felicidade eterna.

Rezemos pelos mortos, para que Deus os acolha no seu Reino, e rezemos pelos vivos, para que possamos juntos construir o Reino de Deus aqui na Terra e um dia irmos ao Reino que Jesus nos preparou.

“Praza Sua Majestade conceder-nos o Seu amor antes de nos tirar a vida, porque será de grande importância na hora da morte sabermos que seremos julgados por Aquele a quem amamos acima de todas coisas.” (Santa Teresa de Jesus, C 40,8)


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