Formação

Frei Patrício: Ser missionário é ser você mesmo onde você se encontra

Somos batizados, então, somos missionários enviados por Jesus a comunicar a todos a esperança, a vida e a alegria.

Este é o mês missionário. Nele, cada um de nós, entrando no seu próprio coração, vê que não pode guardar o dom da fé, do amor e da esperança apenas para si mesmo, mas sente o desejo de correr pelas estradas do mundo para anunciar a todos a bondade de Deus.

Jesus, o missionário do Pai, não veio para nos comunicar o pecado que está em nós, mas, sim, a misericórdia que o Pai quer derramar nos nossos corações, dando-nos a Salvação  plena e, com ela, o perdão.

Os missionários não são pessoas santas que anunciam que todos são pecadores, mas são aqueles que, sabendo que são pecadores e tendo feito a experiência com amor de Deus, com o perdão, vão anunciando a todos este amor infinito. Muitas vezes, os outros se fecham ao perdão, porque nós cristãos assumimos atitudes de juízes, condenamos as pessoas sem  oferecer a porta aberta da esperança. Neste mês missionário, somos chamados a assumir a nossa missão de semeadores de esperança, de alegria e de vida. 

A minha ideia de missionário e de missionariedade mudou muitíssimo de quando era menino – quando sonhava ser missionário para ir anunciar o Evangelho nos países africanos ou no Japão, mas nunca tinha pensado em ir ao Brasil – para hoje. Deus dispõe diversamente e distribui os nossos desejos como Ele quer. Com a minha idade de 75 anos, não sei se fui bom missionário ou não.

Você também é missionário!

Certamente, o ser missionário é ser você onde você se encontra, é viver a Palavra de Deus com amor, seja onde for, na Itália, no Egito ou no Brasil. Somos batizados, então, somos missionários enviados por Jesus a comunicar a todos a esperança, a vida e a alegria.

A conversão é algo que acontece quando você é capaz de transmitir aos outros a  presença viva de Deus amor. Para sermos missionários, não é necessário fugir de onde nascemos nem sair de nossa casa, mas precisa-se ter um coração cheio de amor, partindo, assim, para a missão de anunciar Jesus.

A missionariedade da ação, da palavra, da oração, andam sempre juntas, mas todas elas precisam do fermento do amor, porque sem este fermento tudo morre. Ser missionário   não é um trabalho para fazer grandes coisas, mas é ter aquele amor que age dentro de você e  que o impulsiona a ser sorriso, palavra delicada, amor, que vai difundindo em todos uma razão de viver.

É importante ter no coração o despojamento de toda pretensão e orgulho de achar que nós somos os melhores. É melhor quem vive melhor e que ama mais. O Papa Francisco nos envia a ser missionários por “atração”, isto é, a nossa maneira de viver deve atrair os outros a crerem em Jesus. Os santos foram grandes missionários com a vida, mais que falando de Deus, vivendo com Deus e vivendo em Deus.

São Francisco nos avisa

“São Francisco de Assis, ao ver que alguns dos seus discípulos ensinavam a doutrina, quis evitar a tentação do gnosticismo. Então escreveu assim a Santo Antônio de Lisboa: ‘Apraz-me que interpreteis aos demais frades a sagrada teologia, contanto que este estudo não apague neles o espírito da santa oração e devoção’. Reconhecia a tentação de transformar a experiência cristã num conjunto de especulações mentais, que acabam por nos afastar do frescor do Evangelho. São Boaventura, por sua vez, advertia que a verdadeira sabedoria cristã não se deve desligar da misericórdia para com o próximo: ‘A maior sabedoria que pode existir consiste em dispensar frutuosamente o que se possui e que lhe foi dado precisamente para o distribuir (…). Por isso, como a misericórdia é amiga da sabedoria, assim a avareza é sua inimiga’. ‘Há atividades, como as obras de misericórdia e de piedade, que, unindo-se à contemplação, não a impedem, antes favorecem-na’.” (Gaudete et Exsultate, 46)

A cultura teológica, a busca da oração para encontrar a Deus, é sempre muito perigosa na vida de quem não conhece a humildade. São Francisco de Assis já no seu tempo alertava os seus frades a não buscar o estudo pelo estudo, mas sim a caminhar pelos caminhos da  humildade e da oração. A mesma coisa dizia Santo Antônio de Pádua, que é considerado o doutor evangélico, pela sua capacidade de transmitir a Palavra de Deus e pela sua missionariedade. Ele não buscava uma pregação que fosse uma manifestação do estudo, mas que a Palavra com sua força própria tocasse os corações de quem escutava.

Hoje em dia, vivemos na busca de um pedestal para sermos considerados mestres, doutores em tudo, desejando também ser mestres de oração de espiritualidade, e por aí vai. Queria só dizer que nem Santa Teresa disse que ela era mestra de oração, nem São João da Cruz se considerou um grande místico, nem São Francisco de Assis pensava ser alguém. Os santos não vivem preocupados com os títulos, mas, com simplicidade, rezam, buscam a Deus e O comunicam, e isto basta. Os gnósticos se consideram eles mesmos iluminados e não  aceitam que vivem nas trevas.

Convidados ao Banquete

Esta leitura do profeta Isaías é muito importante, porque convida todos a subir o monte do Senhor, onde Ele mesmo vai nos preparar um grande banquete, no qual não falta nada, porque o Senhor é o pastor que nos guia. Devemos aceitar tudo isto. 

A nossa miséria humana e espiritual é quando nós não nos deixamos amar e buscamos nós mesmos solucionar sozinhos os nossos problemas. Por isto que o profeta termina o seu convite com palavras consoladoras: “o Senhor eliminará as lágrimas e a dor, porque Ele é amor e bondade infinita.” As lágrimas que choramos pelos nossos pecados fecundam a nossa alma e fazem nascer uma vida nova.

No Salmo 23, escutamos como o Senhor, Bom Pastor, nos guia às nascentes tranquilas, às pastagens verdejantes e, mesmo que atravessemos noites escuras, não devemos ter medo, porque nunca estamos sozinhos.

O que realmente é essencial 

O apóstolo Paulo tinha confiança no Senhor, e ao longo da sua vida nunca lhe tinha faltado nada, nem comida, nem vestimentas, nem amigos, porque Deus era com ele. Ele não tinha conta em banco, não tinha provisões, não acumulava nada, era nômade e viajava colocando tudo em um saco – não tinha uma mala de grife. Hoje, nos preocupamos exageradamente com tudo, sem necessidade. Eu posso dar o meu testemunho: nunca me faltou nada, a única coisa que acumulei um pouco foram os livros, mas vai chegar ao ponto em que também os livros serão inúteis, porque o único livro será o crucifixo, pois Jesus é o nosso livro. Paulo é nisto o nosso mestre, escutemos o seu convite.

No banquete, não podem faltar convidados 

O que fazer com a comida preparada para o banquete se os convidados não comparecem? Joga-se tudo fora? Deixa-se estragar? Seria um pecado imperdoável. Diante   da recusa para participar do banquete dos que foram convidados, o dono da festa convida outras pessoas: os pobres, os que estão à margem. Esta é uma imagem de alegria para alguns, mas, para outros, é uma imagem de condenação. É triste ver que os primeiros convidados se recusam a participar porque assumiram outros compromissos sem sentido, meramente materiais.

A Igreja  não pode fechar as portas, o banquete não pode ser estragado e jogado fora. Abrir as portas  e convidar a todos é importante, mas para participar é necessário ter a veste nupcial. O que é ter a veste nupcial? É pedir perdão dos nossos pecados e aceitar Jesus como nosso Salvador.


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