Cada dia que passa, sinto que amo mais a Palavra de Deus, que temos condensada e escrita no precioso livro da Bíblia. Os primeiros cristãos guardavam o livro sagrado dentro do sacrário junto com o Pão Eucarístico e com as coisas sagradas que serviam para as celebrações dos divinos mistérios. E ainda hoje é bonito quando vemos nas grandes procissões entrar a Bíblia sagrada, como presença viva do Senhor no meio do povo.
Todas as vezes que vejo a Bíblia, recordo os padres beijando o rosto de Deus. Na Igreja, se tem mantido este costume santo: depois da leitura do Evangelho, o sacerdote beija o livro santo, e o leva ao presidente da liturgia para que o beije também. Não é um gesto supersticioso e nem supérfluo, mas sim um sinal visível de amor pela Palavra de Deus contida na Bíblia, que é a sua casa.
Contudo, lentamente vamos descobrindo que há uma Bíblia ainda mais preciosa, que é a vida de cada um de nós. Somos a Palavra visível de Deus, feita carne, e devemos ser legíveis para todos os que nos encontram. A Palavra-livro os analfabetos não podem ler. A Palavra-vida todos sabem não só ler, mas interpretar e dizer se somos ou não cristãos. A Palavra de Deus, neste 15° domingo do Tempo Comum do ano C, nos coloca diante de uma possibilidade única de descobrir como devemos vivê-la, uma vez que não está longe de nós, mas perto, aliás, dentro de nós.
Sem dúvida, a ciência bíblica tem feito grandes progressos e vai fazendo sempre mais através dos biblistas que passam a vida inteira debruçados sobre os textos sagrados, dando-lhes vida e procurando por nós, desconhecedores das línguas bíblicas, sentidos novos. Podemos, apesar de ser grandes estudiosos da Bíblia, não ter fé, manusear o dia todo a Palavra de Deus como um texto morto de palavras, e não sentir nos inflamarmos de amor por Deus e pelos irmãos.
Todas as palavras da Bíblia se encontram no dicionário, mas este não salva ninguém e não ajuda ninguém a ser melhor. Precisamos tirar as palavras do dicionário e revesti-las de vida, fazê-las falar, diria mais: fazê-las entoar o cântico de libertação. Precisamos ser poetas para enamorarmo-nos de Deus e de sua Palavra. Não é por acaso que todos os santos são poetas e artistas, que sabem ver na criação o rosto luminoso de Deus e a beleza de Sua presença.
É tempo de entrar no santuário de nós mesmos e espelhar-nos em Deus para verificarmos se somos ou não uma palavra vivente do Senhor, e se os outros, nos escutando e vendo, sentem em si o desejo de ser e viver o Seu amor e o amor ao próximo.
Hoje, cada um de nós pode ser em sua casa uma dúzia de Bíblias em várias línguas, tamanhos e artisticamente bem enfeitadas com antigas miniaturas, mas isto é decoração se a Palavra não sai do livro e não se faz carne em nós.
Deus fala para ser compreendido
Deus nunca abandona o Seu povo, mas sempre fala através dos profetas, para que possa ter o caminho seguro nas suas dificuldades e lutas diárias. O povo vive circundado por outros povos que adoram os deuses. Não é difícil, desse modo, se deixar contaminar pela idolatria, e nem ir correr atrás de deuses que prometem felicidade imediata, fazendo um bezerro de ouro, prostrando-se diante dele como se fosse o Deus vivo e verdadeiro.
Deus tem ciúme do Seu povo como a pupila dos Seus olhos, e, por isso, cuida dele com imenso amor. O discurso de Moisés não deixa dúvida: Deus invisível se faz visível com sua Palavra, que é caminho seguro e que leva à verdadeira felicidade e à terra prometida. Os mandamentos não são pesados para quem ama a Deus, a Palavra não está longe, mas perto como lâmpada, como força no caminho. Quer ser feliz? Não se deixe contaminar pelas idolatrias e viva a Palavra do Senhor. Hoje mais do que nunca precisamos voltar à Palavra de Deus e vivê-la com amor. Estamos rodeados por muitos ídolos que prometem mares e montes, deixando depois o coração vazio e amargurado.
Jesus, Palavra definitiva de Deus
João da Cruz diz, com palavras fortes, que não devemos tentar a Deus pedindo visões nem milagres, porque tudo o que Ele tinha a nos dizer o tem dito em Jesus, seu Filho amado, bastando escutá-Lo e viver o que Ele nos pede através do Evangelho. Já que “Ele existe antes de todas as coisas e todas têm nele a sua consistência. Ele é a Cabeça do corpo, isto é, da Igreja.”
Hoje, embora sejamos avançados na ciência, somos ainda muito primitivos na fé e vamos ansiosamente em busca de sinais. Diz Jesus que não nos será dado nenhum sinal, porque somos uma geração perversa. Ele, Jesus, é maior que todos os sinais, e tudo foi feito, criado Nele.
Cada dia que passa, amo mais a Jesus e Ele me basta. Não necessito mais de nada, a não ser do Seu amor e de Sua presença em minha vida. Viver por Jesus, de Jesus e com Jesus deve ser o ideal de cada um de nós.
Vai e faze o mesmo
A parábola do samaritano é genial, provocante. Não é preciso sequer comentá-la, porque é o próprio Jesus que a comenta no Seu estilo direto, já que não admite discussão e nem é possível retrucar e procurar desculpa para não colocá-la em prática.
Cada um de nós busca desculpas para não fazer o que deve fazer. Nós sabemos como devemos nos comportar com os que sofrem, que são doentes, sem casa, ou que vivem meio mortos à margem da estrada. No entanto, não queremos nos sujar as mãos, pois somos demasiado delicados; temos muitas coisas a fazer, e somos, às vezes, uma elite de cristãos que prefere pregar o Evangelho a limpar as feridas de um doente ou parar para conversar com alguém que pede uma palavra de consolo.
A parábola nos coloca com as costas na parede, nos provoca, pois exige a nossa resposta, e Jesus, com uma só palavra, nos despede para agir dizendo-nos: “ Vai e faz a mesma coisa”. Não há o que retrucar e discutir depois destas palavras de Jesus. Senhor, dai-me a coragem de me arrepender e não me desculpar inutilmente.
Escola de oração
O Senhor quer nosso coração por inteiro, decidido por Ele e pela Sua santa vontade. Não podemos amar a Deus e dividir nosso coração com ídolos vãos. Ele pede nosso comprometimento, nossa decisão. Pela oração e pela Palavra de Deus, Ele nos ensina a caminhar no Seu caminho, amar o próximo e, dessa maneira, buscar a santidade: “‘Alegrai-vos e exultai’ (Mt 5,12), diz Jesus a quantos são perseguidos ou humilhados por causa Dele.
O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: ‘anda na minha presença e sê perfeito’ (Gn 17,1).” (Gaudete et Exsultate, 1).
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