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Fundamentando a Lectio Divina

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palavra de Deus
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Este é, certamente, um dos métodos mais falados atualmente. A primeira coisa que nos poderá interpelar é a expressão latina Lectio Divina, que vem desde os Padres da Igreja e que significa “leitura divina” ou seja, Leitura da Sagrada Escritura. Devemos ao concílio Vaticano II a oficialização desta antiqüíssima maneira de ler a Bíblia, que estava adormecida na Igreja depois das controvérsias da Reforma. Trata-se, fundamentalmente, duma leitura crente e orante da Bíblia que encontra as suas raízes no Novo Testamento. Lucas apresenta-nos Jesus a convidar os discípulos de Emaús a reler o Antigo Testamento a partir do acontecimento da Páscoa (Lc 24,13-35). E podemos dizer que os Evangelhos seguem, em grande parte, esta dinâmica. A Lectio Divina (LD) pode assumir diferentes formulações e práticas. Vamos aqui apresentar o que este método de leitura bíblica tem de essencial.

Origem e história: Podemos dizer que a Lectio Divina é tão antiga como a Igreja, porque consiste, essencialmente, em rezar a Palavra, da qual ela depende como a água da fonte (DV 7.10.21). É, portanto, a leitura crente e orante da Bíblia, baseada na Palavra de Jesus e no Seu Espírito: Tenho-vos dito isto, estando convosco, mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, Esse ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito (Jo 14,25-26; ver 16,12).

Foi Orígenes (séc.III) quem batizou a Lectio Divina com este belo nome. Generalizou-se no séc. IV e V, como maneira predominante de ler a Bíblia, e, a partir desta leitura, veio a leitura do Ofício Divino.

Como método de leitura, encontra-se dentro da própria Bíblia (releitura do Antigo pelo Novo Testamento) e foi o método de interpretação bíblica que prevaleceu no tempo de S. Bento. A regra deste santo Patriarca repousa sobre este método de oração e interpretação da Bíblia. Mas foi já na baixa Idade Média que a Lectio Divina foi estruturada, sobretudo com as ordens mendicantes.

Guigo II, abade da Grande Cartucha, deixou-nos, por volta de 1150, uma apresentação orgânica da Lectio Divina, com o longo título: “Escada de Jacob – Tratado sobre o modo de orar, escada dos monges e escada do Paraíso”.[1]

S. Francisco de Assis é certamente devedor da LD e esta foi talvez um dos fatores que contribuiu para que ele fosse um apaixonado pela Palavra de Deus. Para ele, ler a Palavra era também rezar a Palavra. As Ordens religiosas, que surgiram no séc. XIII, utilizaram todas o método da Lectio Divina, levando ao povo este método orante da Bíblia.[2]

Esta oração está, pois, ligada à teologia monástica que, ao contrário da escolástica, é mais vital, mais ligada ao coração e ao ambiente popular. Poderíamos chamá-la, por isso, uma “leitura saborosa (ou sapiencial) da Bíblia”.

A partir da Idade Média, deixou de ser aconselhada, porque entrou na Igreja o receio de ler a Bíblia; posteriormente, o medo das heresias e do protestantismo fez o resto. Os católicos perderam, assim, em grande parte, o contacto com a fonte da sua fé. Santa Teresa de Ávila não tinha licença para ler o Antigo Testamento… Sem a Palavra de Deus, as ordens religiosas, e outras associações, passaram a insistir na “leitura espiritual”, isto é, a trocaram a Palavra de Deus por palavras humanas piedosas.

O Concílio Vaticano II, ao insistir na Palavra de Deus, como base de toda a espiritualidade cristã, insistiu também na Lectio Divina como método de oração: Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada liturgia, rica em palavras divinas, quer pela leitura espiritual (piam lectionem…”) (nº 25).

Ligar a fé e a vida: Um dos grandes problemas do cristianismo de hoje é o hiato entre fé e vida, que encontra na frase “sou católico não praticante” uma espécie de anti-programa. Segundo o card. de Milão, Carlo Maria Martini, um dos grandes impulsionadores deste método de leitura da Bíblia, a Lectio Divina pretende despertar para o sentido do mistério escondido nas páginas da Bíblia, a abertura ao infinito e a tensão para Deus. Por isso, “Sacra página”, “páginas santas”, “páginas do Livro de Deus” e outras expressões semelhantes eram nomes que os Padres da Igreja, davam às Escrituras. Porque elas encerram um mistério que nenhum homem poderá desvendar completamente [3].

A ligação da fé com a vida repousa no dinamismo interno de toda a palavra, que, para além duma simples dimensão fática, tem a dimensão poética (de poieo=fazer, agir). Toda a palavra tem em si um dinamismo do concreto e da acção. Na Bíblia, esta dimensão é tal que palavra e objecto, significante e significado se confundem e dizem do mesmo modo (dabar). A Lectio Divina abrange, como método de leitura bíblica, as duas dimensões essenciais da Palavra e da vida.

O Método: A leitura espiritual da Bíblia necessita dum método, para ser criativa, segura e profunda. Nada de importante na vida, muito menos quando se trata da oração, pode ser fruto do acaso, apenas da boa vontade ou da emoção. É neste sentido que uma leitura popular da Bíblia pode ser tão profunda como uma leitura mais sistemática. A Lectio Divina repousa, tradicionalmente, depois do já referido Guigo II, sobre quatro etapas ou degraus, que pretendem elevar o leitor-orante da terra ao Paraíso.

Uma observação prévia, antes de entrar no método propriamente dito: não existe uma clara distinção ou fronteira entre as diferentes etapas ou momentos do método, porque cada etapa segue, com toda a naturalidade, a anterior.

I. LECTIO (leitura)

apropriar, situar, respeitar o texto.

Trata-se duma “leitura” em sentido etimológico, isto é, duma “recolha” (de lego), muito mais rica do que um simples “ler”. Porque se trata-se dum “ler” com a finalidade de “recolher”, não tanto conhecimentos de tipo intelectual quanto o sentido profundo da Palavra: mensagem, sugestões, inspirações.

Trata-se da primeira etapa do processo da apropriação da Palavra pelo leitor que, por isso, privilegia o ler, o re-ler, a análise dos verbos, as personagens, os sentimentos, os ambientes…. É por isso que esta “lectio” se qualifica de divina. Poderia dizer-se, talvez, ainda melhor “sagrada”. Mas o mais importante é a lectio. Leitura e re-leitura, em ordem a uma apropriação profunda da Palavra.

Esta primeira etapa não é fácil, como poderia parecer à primeira vista. Trata-se duma espécie de visita que fazemos a um amigo: há gestos, amizade, respeito, silêncios, atenção a um determinado cerimonial. Como se trata dum amigo, a leitura é desinteressada, perseverante, quotidiana.

A lectio é ainda o ponto de partida e não o ponto de chegada. Por isso, exige que ponhamos o pé em terreno firme: porque só sobre o terreno firme duma Lectio bem feita poderá o crente-leitor entrar na etapa seguinte, no diálogo da Meditatio. A exegese, como método científico de leitura bíblica, coloca-se ao serviço da “lectio”, para que esta seja mais eficaz, e o texto lido seja respeitado na sua autonomia. Este modo de proceder levará o leitor a recolher o melhor do texto escrito na Bíblia. Deste modo, a lectio tem três diferentes níveis:

* Nível literário: fixar o texto e responder a questões muito simples, como estas: Quem? Onde? Como? Porquê? Que ligação entre texto e contexto?

* Nível histórico: Procurar o contexto histórico em que o texto foi escrito e analisá-lo sob quatro aspectos: económico, social, político, ideológico. Descobrir os problemas aos quais o texto pretende dar resposta e que, de algum modo, aparecem no fundo ou à superfície do texto.

* Nível teológico: descobrir a mensagem para o homem, nesta situação histórica concreta: como é que o texto a manifesta, modo como as pessoas desse tempo representavam a Deus, como é que Ele Se lhes revelava, como é que o povo vivia esta mensagem.

A finalidade da Lectio não é o estudo científico do texto, mas este é um meio para perceber o texto a haver uma boa leitura. Deste modo, a Lectio prepara o leitor / ouvinte da Palavra para uma melhor “auditio” da mesma. Este estudo depende das capacidades e exigências do leitor e dos instrumentos de trabalho que ele é capaz de utilizar. O que mais interessa é, de facto, conseguir vencer a distância entre o hoje do leitor e o ontem, por vezes muito remoto, do texto e das suas circunstâncias. Na Idade Média, Guigo II já era exigente, quando dizia: “estudo assíduo, com espírito atento”; e Paulo VI, dizia a este propósito, que se deve adquirir uma certa conaturalidade entre as preocupações actuais e o objecto do texto (do passado), para se poder escutá-lo. Por outras palavras, temos que cavar, ao mesmo tempo, no texto e na nossa experiência vital de hoje. O texto pode não nos falar, pode esconder-nos o seu sentido profundo, não por falta de estudo, mas por falta de aprofundamento da nossa própria vida.

É a ligação entre estes dois factores fundamentais da lectio, ou melhor, as duas leituras, que podem evitar o fundamentalismo. Este depende duma deficiente leitura dos textos, nas duas vertentes enunciadas: por um lado, separa o texto da vida e da história do povo, fazendo dele um absoluto, o único lugar da manifestação da vontade de Deus. O resto da vida e da história do Povo nada mais diriam sobre a vontade de Deus. Por outro lado, o fundamentalismo anula a acção da Palavra de Deus na vida e na história concreta das pessoas, rouba-lhes a consciência crítica, leva-as a um moralismo sem ligação com a Palavra, a um individualismo requintado e a um espiritualismo vazio de conteúdos libertadores da pessoa e da comunidade. Este é a leitura de que mais gostam, por motivos óbvios, os ditadores de todas as cores e épocas. Porque esta perspectiva lhes permite manipular a Bíblia à sua vontade. Esta leitura alienante da Bíblia só pode ser corrigida, situando o texto no seu contexto histórico passado, vendo aí, ao mesmo tempo, um reflexo da situação actual, com as suas luzes e sombras. Por isso, a lectio nunca se poderá desligar da vida, porque é, simultaneamente, leitura da Bíblia e leitura da vida. Ou melhor, uma maneira de ler que dá sentido à vida.

Como estamos a ver, a lectio cria uma certa osmose entre leitor e autor, história do passado e história do presente do leitor. A este propósito, dizia o monge Cassiano que o leitor fica de tal modo penetrado dos mesmos sentimentos com os quais o texto foi escrito, que se torna, de algum modo, seu autor[4]. Damo-nos, então, conta de que Deus nos quer falar. Entramos, então, no silêncio. Estamos preparados para a escuta da Palavra de Deus, para a etapa seguinte, a Meditatio.

Este estudo do texto inclui também a “auditio”: esta poderá inclusive ser física, preparando a uma certa memorização “semita” da Palavra (haggadah) e à meditatio. A “lectio” inclui, portanto, os olhos, a mente e o ouvido, mas unicamente como canais de passagem da Palavra para o mais recôndito do homem: o coração, como o Senhor diz a Ezequiel: Filho do homem, todas as palavras que Eu te disser, guarda-as no teu coração, escuta-as com atênção” (3,10). É no coração que se encontra a sala onde o Senhor é acolhido[5].

II. Meditatio (meditação)

ruminar, dialogar, actualizar

Se a Lectio respondia à pergunta: “Que diz o texto?”, a Meditatio pretende responder à pergunta: “Que diz o texto, para mim?”. A Lectio pretendia descobrir as correspondências entre o texto e os seus diferentes contextos, a mensagem que o texto dava aos fiéis do seu tempo. Desde então para cá, os contextos são completamente diferentes, os conflitos e problemas são outros. Mas, como Palavra de Deus que é, a Bíblia foi escrita também para o Povo de Deus de hoje; o texto é portador de valores que não caducam na História nem envelhecem com o tempo. Por isso, a Meditatio é, antes de mais, uma actualização do texto, para mim, um quedar-se nos valores permanentes do texto. Ainda segundo Guigo II, ” a meditação é uma acção da mente que procura com ardor, sob a guia da razão, o conhecimento da verdade escondida” [6].

Como se faz, concretamente, a Meditatio? Guigo II dizia que é necessário utilizar a razão e o sentido comum para encontrar a verdade escondida no texto. Para isso, é necessário dialogar com o texto, colocando-lhe certas questões, que o levam a entrar no nível da nossa vida:

-Que semelhanças e diferenças existem entre as circunstâncias do texto e as de hoje?

-Conflitos de ontem e de hoje? Que diz o texto à situação de hoje?

-Que mudança de comportamento me inspira no aqui e agora da minha vida pessoal e social?…

Um outro modo de actuar o método poderá ser o de ruminar, mastigar o texto, como fez Maria para os acontecimentos que ocorriam à sua volta, até encontrar o que ele me quer dizer (ver Lc 2,19.51; Sl 1,2; Is 26,8). Podemos tentar resumir o texto numa só frase do mesmo, que sirva para repetir, guardar para todo o dia, de modo a servir não só de lema, mas que chegue a fazer parte da vida desse dia.

Este ruminar a Palavra faz que ela se torne a “espada” que julga e corta (Heb 4,12-13). A Meditatio faz que a Palavra deite abaixo máscaras, preconceitos, alienações nas quais nos encontramos muitas vezes. Cassiano dizia, a este propósito: “Instruídos pelo que nós próprios sentimos, já não vemos o texto apenas como uma coisa que escutámos, mas como algo que experimentamos e tocamos com as nossas
próprias mãos; não como uma história estranha e desconhecida, mas como algo que fazemos brotar do mais profundo de nós próprios, à imagem dos sentimentos que fazem parte do nosso próprio ser. Insistimos: não é a leitura que nos permite penetrar no sentido das palavras, mas a nossa experiência, adquirida antes, na vida de todos os dias” (Consollationes X,11)[7].

Desaparece, assim, em parte, a diferença entre Bíblia e vida, entre a Palavra de Deus e a nossa palavra. É nesta quase identificação que se encontra o significado profundo que a Bíblia tem para nós. O mesmo Cassiano diz, inclusive, que esta percepção profunda da Palavra não advém do estudo mas da experiência quotidiana. Alguém explicou, assim, a relação entre as várias partes: a leitura faz o fio eléctrico; a experiência cria a energia, a meditação liga o botão e faz que a energia corra, iluminando o texto. Portanto, a linha e a energia são necessárias para que haja luz. A vida ilumina o texto, o texto ilumina a vida.

A Meditatio aprofunda a dimensão pessoal da Palavra; esta tem valor em si mesma, mas o seu maior valor é relacional, isto é, torna-se um veículo de amor entre Deus e o homem[8]. Uma palavra de amor deixa sair energia, recria as pessoas. Pela Palavra, a pessoa eleva-se até à Pessoa. É aqui que a Lectio Divina atinge a dimensão mística. Por outras palavras, a Lectio rompe a casca, a Meditatio faz provar os frutos do Espírito: “A letra mata; o Espírito é que dá vida” (2Cor 3,6; ver 2Tim 3,16).

Pela Meditatio, o Espírito comunica-se a nós, inspira-nos, dá-nos os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (Fil 2,5), leva-nos à Verdade total (Jo 16,13), deixa-nos compreender que, sem Ele, nada podemos fazer (Jo 15,5). O Espírito que enche toda a terra enche também o nosso coração (Sab 1,7). É Ele o mesmo Espírito que falava aos profetas e que fará de nós os profetas de hoje, pela Sua Palavra. Mas a Meditatio, para além de ser uma actividade individual, é também comunitária. O sentido mais profundo e total da Palavra vem da experiência comunitária e da oração em grupo. Daí a necessidade de levar a Lectio divina também aos grupos e às familias.

A passagem da Meditatio à Oratio, tal como acontecia na passagem da Lectio à Meditatio, faz-se progressivamente. Como acontece com a passagem duma estação à outra, de uma idade à outra. Os critérios podem ser os seguintes: A Meditatio actualiza o texto de modo a eu /nós percebermos o sentido do texto para nós, aqui e agora. Quando isso se tornou mais claro, faz-se, então, a passagem para a etapa seguinte, com uma questão, como esta. ” E agora que vou / vamos dizer a Deus? Esta questão depende, portanto, da certeza de que Deus me chama a colaborar com Ele. Mas esta colaboração com Deus na minha / nossa História põe a descoberto todos os meus medos e fraquezas, tal como aconteceu com os profetas da Bíblia, chamados a anunciar e a viver uma Palavra difícil (ver Is 6,1-13; Jer 1,4-19). Podemos dizer que a Meditação bem feita leva-nos insensivelmente à Oração, como a semente leva à planta.

III. Oratio (oração)

suplicar, louvar, orar

Na Lectio, a pergunta era: Que diz o texto?; na Meditatio, perguntávamos: Que me diz o texto? Agora, a pergunta fundamental é: Que me faz dizer o texto a Deus? Até agora, era o Senhor a falar connosco, a apresentar-nos a Sua proposta; agora, é o momento da nossa resposta à proposta de Deus. Esta é a característica fundamental da oração cristã. E esta minha resposta exprime-se em sentimentos de louvor, súplica, acção de graças, pedido de perdão…Guigo dizia: “A oração é o impulso fervente do coração a Deus, pedindo-lhe que Ele evite os males e nos conceda coisas boas”[9].

Devemos, no entanto, afirmar que este momento de Oração não impede que haja oração nas outras duas etapas anteriores. Porque, na Lectio Divina, as etapas não são estanques nem cronologicamente definidas. As quatro etapas são quatro atitudes que têm momentos típicos mas não únicos para se manifestar. No princípio da Leitura invoca-se o Espírito do Senhor da Palavra; a oração está presente desde o princípio e a Lectio, por exemplo, adquire maior claridade à medida que as etapas avançam. A Meditação está já cheia de oração. Mas este é o momento em que se manifesta mais profundamente a Oração.

A atitude fundamental da Oração deverá ser, mais uma vez, a de Maria: Faça-se em Mim segundo a Tua Palavra (Lc 1,38). Maria não diz uma palavra da Bíblia, mas uma palavra saída dum coração que, antes, meditou uma Palavra, que lhe purificou o olhar e o coração (Lc 2,19.51). Só um coração purificado pela Meditação da Palavra é capaz de a acolher e deixar incarnar – o que aconteceu n’Ela de maneira excelsa e total. Só os que a sentem encarnada na vida são capazes de a rezar, cantando, como fez Maria, no Magnificat (Lc 1,46-55).

Esta oração, essencialmente espontânea, pode assumir várias formas: louvor, petição, súplica de perdão… e deve reflectir sempre uma dimensão comunitária. Pode utilizar orações já feitas, sobretudo Salmos. Estes eram, na Idade Média, aprendidos de cor e alimentavam a oração pessoal do monge. Por este motivo, foram distribuídos ao longo das diferentes “horas” do dia. Os tempos são outros, mas o método pode ser hoje semelhante: guardar uma frase que alimente o coração e encha a memória, ao longo do dia.

Esta Palavra lida, meditada, rezada não é simples palavra para dizer; é uma palavra criadora. De algum modo, é sacramental: faz o que diz e diz o que faz. Ou seja, é um dabar (palavra), sempre eficaz. Toda a palavra rezada está chamada a entrar na vida concreta: A Palavra diz e faz; anuncia e arrasta; ensina e anima; ilumina e reconforta. É luz e força, é Palavra e Espírito. É mediante esta Palavra que a Lectio Divina tem as suas raízes na Bíblia e valoriza as duas vertentes do Dabar bíblico: a Lectio descobre a sua mensagem; a Meditatio, e sobretudo a Oratio, comunica a sua força e leva à “encarnação” na vida.

A prática pastoral tem separado muitas vezes estes dois aspectos. Certos movimentos espiritualistas empenham-se na oração mas não fazem o mesmo na vida, na atitude crítica e na intervenção social. Isto acontece por uma deficiente leitura do texto bíblico: este é desligado do seu contexto, o que leva a um moralismo sem bases, a um certo fundamentalismo e individualismo alienantes. Por isso, a sua meditação e oração não estão fundamentadas nem no texto bíblico nem na realidade
da vida de hoje. No extremo oposto, encontram-se certos movimentos de libertação, que se alimentam do Evangelho. Fazem uma boa Leitura, mas falta-lhes a fé perante muitos problemas da realidade humana. Acham que o tempo da Oração é tempo perdido e o importante é a intervenção directa e imediata na sociedade.

A Lectio Divina bem praticada corrige um outro extremismo. A Oração tem sempre duas vertentes, ou melhor duas direcções: a vertical e a horizontal. É libertadora do orante – em direcção a Deus; e é libertadora dos irmãos – em direcção aos oprimidos de hoje.

IV. Contemplatio (contemplação)

discernir, agir, saborear

Quando se passa de Oratio à Contemplatio? Alguem disse que a Contemplatio é o que fica nos olhos e no coração, quando acabou a Oratio. É como o fruto da árvore. A Contemplatio é, fundamentalmente, a concentração da minha atenção, não em sentimentos ou em orações, mas na Pessoa de Jesus e na Sua relação com o nosso mundo. Esta, sendo o ponto de chegada de todas as etapas da LD, exige um novo começo de todo o processo, isto é, torna-se o ponto de partida para nova Lectio, Meditatio, Oratio. O processo recomeça, sem nunca acabar. Porque há sempre lugar para uma leitura, meditação e oração mais profundas. É aqui que se situa a Contemplatio: um saborear, degustar, um novo modo de ver a vida e o mundo, que são vistos a partir de cima, a partir dos critérios de Deus. Este novo olhar de Deus no orante é a Contemplatio.

É olhar, saborear e agir novos. S. Agostinho diz-nos que, pela leitura da Palavra, Deus faz-nos contemplar e ver o mundo de modo diferente e leva-nos a transformá-lo, para que ele se torne, de novo, uma teofania. A Contemplação leva o orante a olhar mais para o mundo, de modo a poder encontrar nele toda a profundidade dos acontecimentos e a presença escondida de Deus.

Como estamos a ver, esta Contemplação é totalmente diferente da daquele que se retira do mundo, da política, dos sindicatos, dos problemas do bairro e da empresa, para “poder contemplar a Deus”. A verdadeira contemplação, para além do escutar, vai até ao fazer (Mt 7,24-28). Para os fundamentalistas, a Palavra de Deus encontra-se unicamente na Bíblia. O mundo, a vida e a história estão cheios de espíritos diabólicos. A LD abre-nos os olhos, dá-nos uma lente telescópica, para ver mais longe e mais profundamente.

A este respeito, dizia Guigo que a contemplação é “A escada dos monges que penetra as nuvens e procura os segredos do céu”, isto é, antecipa o futuro, dá-nos a visão das coisas a partir de Deus. E acrescenta, a título de resumo das diferentes etapas: ” A Leitura procura a doçura bem-aventurada; a Meditação encontra-a; a Oração pede-a e a Contemplação saboreia-a. A Leitura conduz o alimento à boca; a
Meditação mastiga-o e digere-o; a Oração verifica o seu gosto e a Contemplação é a doçura que dá a alegria. A Leitura toca a casca, a Meditação penetra no interior, a Oração formula o desejo e a Contemplação atinge o gosto e a doçura; a Contemplação é uma elevação do espírito acima de mim próprio; suspensa em Deus, ela saboreia as alegrias da doçura eterna”.

Segundo isto, a Contemplação relativiza o que é verdadeiramente relativo, quedando-se no que é Absoluto. E o contacto com o Absoluto torna-se a fonte da alegria e da esperança em todas as tribulações.

Deste modo, a Contemplação é o último degrau da subida à Sétima Morada, a uma torre muito alta: quanto mais se sobe, mais belo é o panorama.

Segundo o card. Martini, a LD produz a Discretio, isto é, a capacidade de seleccionar os valores que são conformes ao Evangelho e de rejeitar os que não o são. Produz ainda a Deliberatio, ou seja, a escolha comprometida dos valores do Evangelho. A Actio é o agir que se lhe segue.

Para terminar, poderíamos perguntar-nos: Será possível este método de leitura e de oração bíblicas na vida quotidiana? Comecemos por afirmar que o método pode assumir certas modalidades, segundo a cultura e a formação das pessoas ou se é praticado individualmente ou em grupo. Mas não pode esquecer as qualidades essenciais apontadas. Toca a cada um adoptá-lo às suas condições concretas.

Propostas simples de Lectio Divina

Na convicção de que a LD pode aplicar-se a todas as pessoas e a todas as circunstâncias, apresentamos aqui alguns modos simples de levar à prática a LD:

* Numa reunião de grupo qualquer, se pode fazer sempre um pouco de Lectio Divina:

– Proclamação da Palavra (breve);

– breve silêncio

– breve partilha sobre o que o Espírito comunicou a cada um no silêncio

– Oração comunitária, espontânea, como resposta àquela Palavra de Deus.

Este não será um “tempo perdido” num grupo de catequistas ou outro. Será o tempo mais útil, porque muito ajudará no desenvolvimento dos trabalhos.

* Criar nas paróquias um grupo ou grupos que possam preparar as leituras dominicais (leitores, acólitos, etc), seguindo este método simples. Os Grupos de Dinamização Bíblica fazem esta preparação durante um longo período de uma hora e meia a duas horas (ver 6.3).

* As famílias são convidadas, uma vez por semana, a ler um texto bíblico e a seguir o método simples acima referido. Isso muito contribuirá para a união mais íntima das nossas famílias de hoje[1]. A Oratio poderá ser um mistério do terço.

* Este mesmo método poderá seguir-se na preparação dos sacramentos (da reconciliação ou outro) ou mesmo no exame de consciência diário. Isso levar-nos-á a ver na Palavra de Deus a medida de confronto da nossa vida.

* Mas é, sem dúvida, na meditação diária que poderemos provar a verdade deste método de leitura bíblica. Um dia poderemos quedar-nos mais na Leitura, outro na Contemplação…

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[1]. Ver, a este propósito, C.M. Martini, Senhor, ensina-nos a rezar em família, Gráfica de Coimbra, 1986, 33 páginas.
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[1] Dizia: “A leitura leva à boca o alimento sólido, a meditação corta-o e mastiga-o, a oração saboreia-o, a contemplação é a própria doçura que alegra e recria”.

[2] “Assim como da pedra fria, talhada pelo martelo, saltam faíscas, da palavra divina, por inspiração do Espírito santo, brota fogo” (S. Gregório Magno).

[3]. Ver Masini, Mario, Iniziazione alla Lectio Divina, ed Messagero, Padova, 1988, p. 91.

[4]. Ver Bulletin Dei Verbum, Stuttgart, 1992, nº 22, p. 16.

[5]. Ver Iniziazione…p.92.

[6]. Ver Iniziazione… p. 92.

[7]. Ver Bulletin Dei Verbum, Stuttgart, 1992, nº 23, p. 5; nº 27 (1993), p.5-7.

[8]. A este propósito, veja-se Alves, H. A Bíblia, Palavra e testemunho de Deus em Jesus Cristo, in Documentos da Igreja sobre a Bíblia, p. 13-17.

[9]. Ver ibidem, p. 5.


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