Era um lugar qualquer, bairro simples, pessoas humildes de baixa renda. Pobres. O aluguel barato. Mercadinho próximo. Um local bem localizado, mas parecia abandonado, sem nenhum atrativo ou benefício para os moradores. Muito menos recomendado para passeios. Em decadência diria.
Certo dia, resolvem fazer umas benfeitorias na pracinha. Novos bancos e jardinagem. Nos derredores, iluminação e segurança pública. Novas linhas de ônibus, ciclovias, enfim, um verdadeiro projeto de revitalização urbana no dito lugar. Bares, hotéis e imobiliárias cresceram os olhos…. Estava tudo melhorando pensavam os moradores. Iludidos! Era o fenômeno da gentrificação.
O valor do aluguel disparou, as compras no mercadinho ficaram cada vez mais caras e a conta de luz dobrou. O custo de vida subiu tanto que não cabia mais no orçamento dos atuais moradores. E o mais punk de tudo é perceber que, enquanto o antigo morador procura um novo bairro, mais compatível, pessoas de maior poder aquisitivo estão indo morar no seu lugar. Aqueles pobres foram forçados a migrarem para outro lugar depois que o bairro foi gentrificado. Que absurdo!
Essa realidade onde cada vez mais a sociedade empurra os mais pobres para as periferias e, deixa o espaço mais “digno” aos mais abastados, é também um reflexo desse mesmo processo de gentrificação em nossos corações. Também nós, somos capazes de excluir de nossas vidas os que não nos agradam e incomodam, os humildes e doentes. Seletivos, empurramos e descartamos os pobres de nossas terras interiores para as periferias existenciais. O que torna o processo ainda mais sério: além da gentrificação social e urbana, a espiritual.
Em nosso auxílio, diante das limitações humanas e realidades cruéis que compromete a dignidade dos mais necessitados, Papa Francisco institui o dia Mundial dos Pobres. “A mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo”, encerrando o ano litúrgico na Igreja Católica, ressaltando a sua identificação com os “mais pequenos e os pobres”.
Diante deste cenário, junto aos desempregados, os sem-abrigo e refugiados, idosos e crianças exploradas e tantos outros, urge uma “cultura de misericórdia”, partir ao encontro das periferias mais negligenciadas e esquecidas, porém com compromisso, que combata a indiferença e a desconfiança entre seres humanos.
“Não amemos com palavras, mas com obras”.
