Já repararam que, atualmente, tudo gira em torno dos comparativos e superlativos? Olhem em volta: todas as pessoas e coisas são elencadas de modo a formarem um ranking. Em tudo há o ranço da competição, todos e tudo procuram ser os maiores e os melhores de sua categoria. Quem são as mulheres mais bonitas? E as mais sensuais? Qual o melhor filme da temporada? Quem é o mais rico? E o mais poderoso? E por aí vai. Há, ainda, o famoso livro dos recordes, que registra os fatos e as pessoas mais excêntricas do mundo, premiadas pelo exagero. Pessoas e mais pessoas cometem as maiores bizarrices com o intuito único de figurar na suas páginas. Estar no topo e deter o título de melhor e maior na sua categoria parece ser o vício principal das pessoas hoje em dia. Em todas as idades e em todos os segmentos sociais é perceptível o desejo desenfreado de se sobressair de alguma maneira, o que serve para inflar o ego e incentivar a vaidade.
Os jovens se matam nos bancos colegiais não para serem bons profissionais, mas para mostrarem para os outros o tamanho dos seus QI’s e o nível de excelência que atingiram. Os melhores e os maiores alunos exibem seus rostos felizes nos outdoors dos grandes colégios, os quais disputam a tapa as vagas das principais faculdades e os títulos de nível educacional. No mercado de trabalho, homens e mulheres acirram a disputa pelos melhores salários e empregos, inchando os currículos de graduações e títulos e ascendendo ferozmente na concorrência entre as empresas. Garotas testam os limites de seus corpos em inúmeras dietas para chegarem ao ideal do corpo perfeito: magro, sarado e, no mais das vezes, nada saudável. Os homens, na mesma medida, se entopem de anabolizantes e passam horas na academia para atingir a beleza de um bíceps bem torneado e abdômen estilo “tanquinho”.
Uma vida recheada de grandes êxitos e realizações, na qual as pessoas mais bem-sucedidas vendem a ideia de que não existe vida longe da perfeição e da glória, é a mentira mais convincente que o mundo moderno já produziu. E a mais cruel. Em busca desse ideal, as pessoas vivem sonâmbulas para os valores pelos quais vale realmente lutar. Os jovens, principalmente, vivem a ilusão de um futuro grandioso baseado mais nas aparências e na vai-dade do que na integridade e na caridade. Por esta razão, vivem sua juventude e colher a superficialidade na suas relações afetivas e sociais, na vida profissional, na família e na religião.
A mania de grandeza parece ser um dos motivos que afastam os jovens de uma vivência espiritual autêntica. Realmente, entre os anseios da juventude atual, a realidade religiosa está quase sempre em último lugar. No entanto, não é difícil perceber que o fator cristão afeta de uma maneira mais abrangente a vida dos jovens a ponto de fazê-los rejeitar a busca por Deus em detrimento de outras aspirações. E a razão disso é que os ensinamentos de Cristo são o completo oposto daquilo que é pregado para o comportamento da juventude. Busca-se crescer, ascender socialmente, através do sonho de ser o melhor e o maior; ao contrário, Cristo prega o ser pequeno, o ser miserável, como sendo a fonte da verdadeira felicidade em Deus. São realidades distintas e diametralmente contrárias.
A sociedade ensina que para ser grande é necessário galgar degraus cada vez mais altos e ousados, ainda que a meio do caminho os sentimentos morais se percam. A vitória é algo a que nunca se chega, pois sempre há passos que levam aos salários mais altos, às casas mais luxuosas e às categorias sócio-econômicas superiores. O céu, literalmente, não é o limite. De modo oposto, Jesus ensina que a verdadeira grandeza se esconde na pequenez, no fazer-se criança indefesa no colo do Pai. Quanto mais pequeno e necessitado sou, mais atraio as bênçãos de Deus a mim. A razão de fundo para esta realidade de fé é que a glória de Deus é a que deve prevalecer, não a minha. Em outras palavras, a minha glória é a glória de Deus que se manifesta na minha pequenez e no meu nada. Quando quero ser tudo, supervalorizo o nada que sou; quando deixo o meu nada abrigar o tudo de Deus, faço-me tudo com Ele.
Para o jovem acostumado a alçar vôos cada vez mais altos para alcançar a tão sonhada realização pessoal e profissional sob a orientação do mundo de hoje, perceber estas verdades cristãs é algo profundamente desafiador. E, ao mesmo tempo, extremamente fascinante. Enxergarmos-nos na nossa pequenez é perceber quem realmente realiza tudo em nós. A nossa miséria é o trampolim que nos joga diretamente na nossa verdade interior, nos faz tomar posse de nós mesmos e nos abrigarmos em Deus, o Tudo para nós. São João da Cruz já nos dizia: “Para chegares a ser tudo, não queiras ser coisa alguma”. Da mesma forma, Santa Teresinha do Menino Jesus: “O elevador que me conduzirá até o Céu são vossos braços, ó Jesus! Por isso, não preciso ficar grande. Devo, pelo contrário, conservar-me pequenina, ficar cada vez mais diminuta”. Os evangelhos estão permeados de ensinamentos que ilustram o valor da pequenez como forma de se alcançar o Reino de Deus. No Evangelho de São Mateus, Jesus nos dá o exemplo das crianças para que as imitemos na busca pelo Seu Reino: “Se não mu-dardes e não vos tornardes como as crianças, não entrareis no Reino dos Céus (Mt 18,3-4).
Aquele, pois, que se fizer pequeno como esta criança, eis o maior no Reino dos céus”. O mesmo Evangelho nos conta a passagem do jovem rico, a qual nos mostra que a retidão de caráter e o cumprimento fiel das obrigações religiosas não são suficientes para que alcancemos o Céu: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis, dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus” (Mt 19, 21). A riqueza daquele jovem era indicativa da sua soberba, do seu apego à grandeza. O convite que Jesus lhe faz é a renúncia a tudo isso e a busca do essencial: a sua adesão ao chamado à Santidade. Para que o Pai esteja em nós, é necessário sermos pobres e humildes de coração. No Evangelho de Lucas, Jesus é incisivo: “Aquele que é o menor entre vós, este é que é o maior” (Lc 9, 48). Não há porque indagar qual de nós é o maior, se é sendo pequeno que a nossa grandeza se manifesta e se torna sinal de vida e virtude para a humanidade. Temos, ainda, o pedido dos apóstolos João e Tiago de alcançarem a glória sentando-se ao lado de Jesus no Céu. Ao ver que este pedido causara a reclamação dos outros apóstolos, Jesus responde: “Entre vós, porém, não será assim: todo o que quiser tornar-se grande entre vós, seja o vosso servo; e todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Mc 10, 43-44).
Viver a pequenez é uma condição essencial para sermos autênticos cristãos. Não há felicidade em Deus se não reconhecermos que Ele é quem realiza tudo na nossa vida. Para sermos jovens cristãos, é realmente imprescindível que renunciemos a toda forma de grandeza e auto-promoção para que nos fixemos na lição de humildade de Jesus. Precisamos assumir o chamado de Cristo e o nosso nada para que Ele possa manifestar a Sua glória através de nós, de nosso comprometimento e total adesão. São paradoxos que nos trazem a vida eterna: perder para ganhar, renunciar para acolher, apequenar-se para crescer. Como crianças que, no colo de Deus, são plenamente saciadas de amor e paz.
Breno Alves