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Gravidez interrompida: Nunca imaginei que passaria por isso

“A vida é curta e cheia de dores. Vamos ver nossos filhos que enterramos, novamente no Céu. Acima de tudo, foi na morte do meu primeiro filho que senti mais profundamente a felicidade de ter um filho no Céu, pois Deus me mostrou de forma notável que Ele aceita meu sacrifício. Por intercessão de meu pequeno anjo, recebi uma graça muito extraordinária” (Carta 72 – Santa Zélia Guérin).

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Foi essa frase de Santa Zélia e a experiência que tive lendo os poemas e as cartas de Santa Teresinha em seus últimos dias de vida que me impulsionaram a dar esse testemunho.

Ano passado, em setembro, eu e meu marido fomos para Roma com toda a minha família (irmãos, mãe, avô), para participar da Convenção dos 35 anos da Comunidade Católica Shalom. E depois, aproveitamos para fazer um tour por algumas cidades de Portugal, França e Holanda. Deus já tinha me dito que através dessa viagem (que, na verdade, foi uma peregrinação) eu iria alcançar muitas graças e favores Seus. Pois bem, a primeira bênção foi que concebemos um filho naqueles dias.

Quando descobri que estava grávida, no início de outubro, eu estava com 5 semanas de gravidez mas não cheguei a escutar o coração do bebê na primeira ultrassom. Decidi então esperar para o ultrassom seguinte que seria 4 semanas depois, quando eu estaria com 9 semanas de gestação.

Nessas 4 semanas, eu amei meu filho, fiz surpresa para contar a boa notícia para o meu marido, contei para os irmãozinhos que a família aumentaria, fizemos festa, fizemos planos, louvei a Deus a cada momento. Acolhi aquela vidinha na minha vida, contei para os meus amigos mais próximos, depois não me aguentei e contei logo para todo mundo, cheguei até a escolher os padrinhos…

Chegado o dia da ultrassom

Chegado o dia da ultrassom das 9 semanas, fui sozinha porque meu esposo tinha uma reunião importante e eu não quis atrapalhá-lo. Deitei na maca para fazer o exame e logo percebi que tinha algo de errado quando o médico falou que eu estava com um descolamento de placenta considerável. Depois ele falou que o coração do meu bebezinho tinha parado de bater naturalmente, mais ou menos com 8 semanas de gestação.

Quero até fazer uma pausa aqui nesse relato pra agradecer ao Dr. Luciano Pinheiro Filho por ter tido tanta empatia, tanta sensibilidade e por ter sido instrumento de Deus para mim naquele momento de profunda dor. Prosseguindo, liguei para o Diego aos prantos e disse que tínhamos perdido nosso bebezinho. De lá, o único lugar que eu queria ir era para o santíssimo. Então, fui dirigindo para o Shalom da Paz onde tem adoração perpétua e lá chorei bastante. Fui acalentada por Maria.

Aí, eu, que me achava firme e forte nos meus sentimentos, virei um rio de lágrimas, tudo me fazia chorar, eu sentia um vazio imenso dentro de mim, dentro do meu útero, me senti seca, oca, ficava pensando em mil coisas que eu podia ter evitado para que não tivesse perdido meu bebê. Eu achava que a culpa era minha, ficava pensando: “Será que, se eu não tivesse colocado meus filhos mais velhos no colo, meu bebê ainda estaria aqui?”; “Será que fiz algum esforço que causou o aborto…”. Mil e um questionamentos vinham na minha cabeça. Eu queria entender o porquê, queria uma explicação.

Dar sentido ao meu sofrimento

Mas Deus só me falava que eu precisava dar sentido ao meu sofrimento. Foi aí que resolvi silenciar e viver aquela dor ofertando para que outras grávidas não perdessem seus bebês, para que minhas amigas, cunhadas e futuramente minha irmã não passassem por isso, pelas mulheres que sofrem atormentadas com a ideia de abortar seus filhos, pelas mulheres que sofrem por não conseguirem gerar uma vida, pelas crianças vítimas de aborto criminoso…

Ter o colo da minha mãe nesse momento de dor foi imprescindível para eu entender o que Deus queria de mim. Diante da nossa dor, fizemos um momento forte de oração eu, meu esposo e minha mãe. Deus nos deu a passagem Jeremias 31 que diz: “[…] e a sua alma será como um jardim regado, e nunca mais andarão tristes. Então, a virgem se alegrará na dança, como também os jovens e os velhos juntamente; e tornarei o seu pranto em alegria, e os consolarei, e lhes darei alegria em lugar de tristeza”. Diz ainda: “Contenha o seu choro e as suas lágrimas, pois o seu sofrimento será recompensado”. “Eles voltarão da terra do inimigo. Por isso há esperança para o seu futuro”, declara o Senhor. “Seus filhos voltarão para a sua pátria”. 

Quando eu digo que Deus é Pai, é porque Ele cuida e consola! Aquela palavra foi meu consolo e é até hoje quando penso no meu bebezinho no Céu. Contemplar Maria aos pés da cruz diante do Seu Menino Morto também me ajudou a acolher os mistérios da vontade de Deus. Aprendi com minhas duas mães (a do Céu e a da terra) a dar sentido ao sofrimento e foi o que, pela graça de Deus, eu fiz.

Continuando minha história

Fiquei ainda 18 dias com corpo morto do meu bebê dentro do meu útero, pois estávamos aguardando ver se meu corpo expelia naturalmente o embrião para que não precisasse fazer a curetagem e nesses dias eu tive a graça de batizar meu filho pelas mãos de Dom Aldo Pagotto e dei a ele o nome de Jeremias conforme a palavra que Deus tinha me dado (e porque, no meu coração, eu sentia que seria outro menino).

No dia da curetagem, minha médica maravilhosa, Dra. Karla Pinheiro, teve todo a diligência de pedir pra retirarem o bercinho do quarto que eu iria ficar para não gerar um sentimento pior do que já estava. Ela foi muito cuidadosa e zelosa comigo em todo o processo. Dei entrada no hospital para a realização do procedimento e tudo que vivi física e emocionalmente, cada cólica que senti, ofertei de todo coração a Deus! Durante a curetagem fiquei sedada dormindo e o procedimento foi rápido e sem dor nenhuma. Quando tudo terminou fiquei algumas horas no quarto do hospital e logo depois tive alta.

Nenhum bebê nos meus braços

Foi muito estranho sair da maternidade de mãos vazias, sem nenhum bebê nos meus braços… Não era o normal, não era o natural uma grávida entrar na maternidade e voltar para casa sozinha. Esse foi um momento de muita dor para mim, mas eu só conseguia pensar na promessa de Deus e que Ele é só amor… A perda desse bebê fazia parte do Seu plano de amor para mim. Diante daquela dor eu acolhia a Sua vontade. Eu chorava e louvava. Cantava toda hora o trecho daquela música do Martin Valverde “Graças Pai pelos pequenos e belos detalhes, por cada coisa que me dás, por cada coisa que me negas…”

Durante um tempo foi difícil para mim falar sobre essa perda. Eu chorava cada vez que meu filho mais velho falava inocentemente: “Mas, mamãe, porque meu irmãozinho foi para o céu? Eu queria que ele viesse pra minha casa jogar futebol comigo”; ou quando o mais novo que não entendia muita coisa simplesmente beijava minha barriga. Mas viver isso com eles também foi importante para mim. Não sou do tipo de mãe que esconde as dores dos filhos. Eles viam que eu estava sofrendo e rezavam por mim, mandavam cartinhas (que na verdade eram rabiscos) e Deus agia todo tempo. 

Filho de Deus, Menino Meu

Pouquíssimo tempo depois que fiz minha curetagem, fui convidada pra fazer um personagem no espetáculo Filho de Deus, Menino Meu, organizado pela Comunidade Shalom. E, vejam como Deus capricha, o personagem que eu ia fazer era Raquel, que chora a morte de seus filhos. Raquel representa a profecia das mães que perderam filhos no holocausto realizado por Herodes que mandara matar todos os meninos abaixo de dois anos com o objetivo de matar o Menino Jesus. 

Raquel chorando seus filhos em Ramá é um lugar de indecifrável dor e de incomparável amor. Foi em Ramá que Ana chorou a Deus por um filho e recebeu como resposta Samuel e depois dele mais cinco crianças. Enfim… Muita oração, muito sentido, muito entendimento e muita cura através deste personagem para mim no tempo em que eu estava vivendo.

Contra o aborto

Eu já era militante contra o aborto antes de viver tudo isso, hoje sou cem vezes mais! Deus sabe que quero chegar no Céu e conhecer tanto os santos inocentes, que foram assassinados no lugar do Menino Jesus, quanto os bebês vítimas do desamor de suas mães e cruelmente impedidos de viver através do ato criminoso e desumano que é o aborto. Vivi na minha carne que vida é vida independente do quanto durar. Em pouquíssimo tempo comigo, meu menininho foi amado por mim, pelos irmãos, pelo papai, pelos avós e por toda a família e amigos.

Esse bebezinho me ensinou que nem tudo o que é breve é menos belo ou menos intenso. Me mostrou que nem tudo na vida é explicável, existem os mistérios de Deus e há tanta beleza neles… Nunca imaginei que passaria por isso. Não superei fácil. Nunca o esquecerei. Escutei alguém falar que cada gestação é única e tem seu significado. A do Jeremias foi pra mim uma escola de amor durante as 8 semanas que duraram, porém apenas em 5 eu sabia que ele estava ali.

Hoje compreendo

Enfim… Faço esse relato depois de tanto tempo porque a obra de Deus na minha vida é assim mesmo. Ele fala e eu demoro a entender ou a responder, mas Ele tem paciência comigo e permite que eu dê um passinho de cada vez. Hoje compreendo algo que meu tio me falou quando perdi meu bebê e relutei em aceitar e abraçar. Ele disse: “Minha filha, Deus quer que povoemos a terra, mas também quer que povoemos o céu”. Como Santa Zelia posso testemunhar que hoje sinto profundamente a “felicidade de ter um filho no Céu” e espero ansiosa o dia de encontrar com meu caçulinha na eternidade e fazer com ele o que faço todos os dias com seus irmãos: beijar, abraçar, arrochar e dizer que amo!

Uma coisa eu quero dizer para vocês, mamães, que passaram pelo mesmo que eu: nunca duvidem que a vontade de Deus é o caminho de felicidade para vocês! Deus nos ama mais do que possamos imaginar e o que Ele mais deseja é a nossa felicidade!

Suzana Pinheiro, consagrada na Comunidade de Aliança Shalom


Comentários

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  1. Suzana, eu tenho uma filha, a Angelina de 2 anos e 10 meses. Esse ano iríamos aumentar a família, mas eu tive duas perdas gestacionais, uma foi um aborto espontâneo a outra foi uma gravidez ectópica e junto dela tive que retirar uma das trompas ( passei tipo por uma cesárea, porém sem meu filho menos bracos).
    Eu ainda sofro muito por essas perdas e estava hoje escrevendo para os meus bebês e buscando na internet o que a igreja falava sobre a perda gestacional. Se eu poderia considerar que tenho 2 anjos no céu. E me deparei com seu testemunho.
    Obrigada! Hoje eu tenho certeza que posso pedir a intercessão desses anjos e que minha dor terá um sentido sim.

  2. Olá! Estou emocionada com esse testemunho. Há três meses atrás descobri que estava grávida de 4 semanas. Minha história é bem parecida com a que foi relatada, pois contei para a família e amigos e vivia uma felicidade que era perceptível em meu rosto. Com 5 semanas tive um aborto espontâneo, foi um momento bem difícil, onde procurava me culpar do que aconteceu. Foram dias de muita tristeza. Há algumas semanas atrás durante o primeiro acompanhamento com os pastores do Plafam, eu e meu esposo recebemos a confirmação de que aquela pequena vida foi nosso primeiro filho e que hoje contempla a face de Deus no céu. Fiquei tão feliz ao saber que já tenho um filho, e, por escolha de Drus, ele já está aonde todos queremos chegar um dia. Hoje sei que meu tempo não é o tempo de Deus, e, me alegro ao saber que tenho um anjo no céu intercedendo pelos seus pais que permanecem na terra.