Formação

Guardar os domingos e festas de guarda

comshalom

missa no ressuscitouPara fazermos uma leitura teológica e cristológica do Terceiro Mandamento e mergulharmos no seu significado profundo e original, seguiremos o Catecismo da Igreja Católica 2168-2195 e a Carta Apostólica de João Paulo II sobre a Santificação do Domingo (Dies Domini).

Em primeiro lugar, é importante compreendermos que o domingo cristão, o dia do Senhor, não nasce do sábado hebraico, embora este último traga em si uma prefiguração do primeiro. Contudo, é necessário conhecer o significado teológico do sábado para mergulharmos na profundidade do domingo.

Segundo a tradição hebraica, o sábado orienta todo o criado à comunhão com o seu Criador: a criação é para o homem e o homem é para a comunhão com Deus através do santo repouso. Este dia não era sinônimo de tempo vazio, mas de cuidado e gratidão.

O sábado tem um duplo valor teológico: é memorial da criação (Ex 20,11) e da páscoa libertadora (Dt 5,15); e é sobre esse valor teológico que se funda a sua exigência ética: “O agir de Deus é o modelo do agir humano. Se Deus “retomou o fôlego” no sétimo dia (Ex 31,17), também o homem deve “folgar” e deixar que os outros, sobretudo os pobres, “retomem fôlego” (Ex 23,12). O sábado faz cessar os trabalhos cotidianos e garante uma pausa. É um dia de protesto contra as escravidões do trabalho e o culto do dinheiro”(Cat.2172). A exigência ética do sábado hebraico, portanto, está fundamentada no seu conteúdo teológico: Israel é convidado a fazer memória da magnífica obra do Criador e a repousar Nele. “O repouso assume, assim, um típico valor sagrado: o fiel é convidado a repousar não só como Deus repousou, mas a repousar no Senhor, devolvendo-lhe toda a criação, no louvor, na ação de graças, na intimidade filial e na amizade esponsal” (DD 16).

Jesus reconhece a santidade do sábado e lhe confere a sua autêntica interpretação quando afirma que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado (cf. Mc 2,27).

O dia do Senhor

A identidade cristã do domingo fundamenta-se na Ressurreição de Cristo. O domingo é a Páscoa semanal dos cristãos: é memorial da morte e gloriosa ressurreição do Senhor. Por isso a primeira e fundamental exigência moral do domingo é a participar da celebração eucarística (cf. Cat. 2177-2179); é o “primeiro dia da semana” (Mc 16,2), dia da nova criação: “Era, de fato, natural para a reflexão cristã relacionar a ressurreição, acontecida “no primeiro dia da semana”, com o primeiro dia daquela semana cósmica (cf. Gn1,1-2,4) em que o livro do Gênesis divide o evento da criação: o dia da criação da luz (cf. 1,3-5). O relacionamento feito convidava a ver a ressurreição como o início de uma nova criação, da qual Cristo glorioso constitui as primícias, sendo Ele “o Primogênito de toda a criação” (Col 1,15), e também “o Primogênito dos que ressuscitam dos mortos” (Col 1,18)” (DD 24).

O dia do Senhor é também, o oitavo dia: esta era uma imagem cara aos Padres da Igreja, que viam no domingo o dia único, dia sem ocaso, que nos introduz na eternidade de Deus.

A santificação do domingo

No ano 304, o imperador Diocleciano proibiu aos cristãos, sob pena de morte, de possuir as Escrituras, de se reunirem aos domingos para celebrar a Eucaristia e de construir lugares para as suas assembleias; neste período, alguns cristãos de Abitinia, atual Tunísia, foram, surpreendidos na celebração eucarística dominical, que estava proibida, e foram conduzidos perante o juiz, que lhes perguntou por que, no domingo, haviam celebrado a função religiosa cristã, sabendo que isso implicava castigo de morte, ao que responderam: “Sine dominico non possumus”, ou seja, “sem o domingo não podemos viver”.

Partindo deste testemunho, podemos compreender o que afirma o Catecismo: “A Eucaristia do domingo fundamenta e sanciona toda a prática cristã. Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebês) ou se forem dispensados pelo próprio pastor” (2181). O tema do preceito dominical não deve ser interpretado sob uma ótica meramente legalista ou moralista, porque ele está sob a lógica profunda da graça e se expressa na dimensão do dom, da liberdade e gratuidade. Cristo prometeu estar conosco até o fim do mundo (cf. Mt 28,20), e a Igreja continua a ouvir e a acolher esta promessa, mas “para que esta presença seja anunciada e vivida adequadamente, não é suficiente que os discípulos de Cristo rezem individualmente e recordem interiormente, no segredo do coração, a morte e a ressurreição de Cristo. Com efeito, todos os que receberam a graça do batismo, não foram salvos somente a título individual, mas enquanto membros do Corpo místico, que entraram a fazer parte do Povo de Deus” (DD 31).

A Eucaristia dominical é, portanto, o ponto central que dá sentido a toda prática cristã, é o alimento que nos sustenta no caminho que percorreremos durante toda a semana; é o nosso testemunho de pertença a Cristo e à sua Igreja. Nos locais onde, por falta de ministro sagrado ou por outra causa grave, tal participação seja impossível, a Igreja recomenda vivamente que os fiéis participem da liturgia da Palavra, ou então se dediquem à oração durante um tempo conveniente, em família ou em grupo de famílias, de acordo com a realidade (cf. Cat. 2183).

Santificar os domingos e festas de preceito significa abster-se de atividades que impeçam o culto devido a Deus e a alegria própria do dia do Senhor. É muito importante o testemunho cristão da alegria própria desse dia, pois trata-se do dia da Ressurreição de Jesus Cristo, o Senhor, dia da nossa libertação.

A santificação do domingo também refere-se ao repouso do trabalho, onde permitiremos que seja o Senhor a ordenar a nossa vida e não o ativismo que muitas vezes nos rouba dele, da família, dos amigos e de nós mesmos. O descanso nos dará condições para reconhecer que tudo o que temos é obra do Senhor. Mesmo nos países onde a lei civil não reconhece o ritmo semanal, fazendo do domingo um dia de pausa do trabalho, os cristãos são chamados a santificar o dia do Senhor, por meio da oração, da caridade, do serviço ao próximo, da dedicação à família e aos mais necessitados. Tudo isso será um meio para favorecer o encontro e a intimidade com o Senhor, que é o fundamento, o centro e o sentido último dessa grande festa que é o domingo cristão.

Josefa Alves

Missionária da Comunidade Católica Shalom


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *