
Em primeiro lugar, é importante compreendermos que o domingo cristão, o dia do Senhor, não nasce do sábado hebraico, embora este último traga em si uma prefiguração do primeiro. Contudo, é necessário conhecer o significado teológico do sábado para mergulharmos na profundidade do domingo.
Segundo a tradição hebraica, o sábado orienta todo o criado à comunhão com o seu Criador: a criação é para o homem e o homem é para a comunhão com Deus através do santo repouso. Este dia não era sinônimo de tempo vazio, mas de cuidado e gratidão.
O sábado tem um duplo valor teológico: é memorial da criação (Ex 20,11) e da páscoa libertadora (Dt 5,15); e é sobre esse valor teológico que se funda a sua exigência ética: “O agir de Deus é o modelo do agir humano. Se Deus “retomou o fôlego” no sétimo dia (Ex 31,17), também o homem deve “folgar” e deixar que os outros, sobretudo os pobres, “retomem fôlego” (Ex 23,12). O sábado faz cessar os trabalhos cotidianos e garante uma pausa. É um dia de protesto contra as escravidões do trabalho e o culto do dinheiro”(Cat.2172). A exigência ética do sábado hebraico, portanto, está fundamentada no seu conteúdo teológico: Israel é convidado a fazer memória da magnífica obra do Criador e a repousar Nele. “O repouso assume, assim, um típico valor sagrado: o fiel é convidado a repousar não só como Deus repousou, mas a repousar no Senhor, devolvendo-lhe toda a criação, no louvor, na ação de graças, na intimidade filial e na amizade esponsal” (DD 16).
Jesus reconhece a santidade do sábado e lhe confere a sua autêntica interpretação quando afirma que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado (cf. Mc 2,27).
O dia do Senhor
A identidade cristã do domingo fundamenta-se na Ressurreição de Cristo. O domingo é a Páscoa semanal dos cristãos: é memorial da morte e gloriosa ressurreição do Senhor. Por isso a primeira e fundamental exigência moral do domingo é a participar da celebração eucarística (cf. Cat. 2177-2179); é o “primeiro dia da semana” (Mc 16,2), dia da nova criação: “Era, de fato, natural para a reflexão cristã relacionar a ressurreição, acontecida “no primeiro dia da semana”, com o primeiro dia daquela semana cósmica (cf. Gn1,1-2,4) em que o livro do Gênesis divide o evento da criação: o dia da criação da luz (cf. 1,3-5). O relacionamento feito convidava a ver a ressurreição como o início de uma nova criação, da qual Cristo glorioso constitui as primícias, sendo Ele “o Primogênito de toda a criação” (Col 1,15), e também “o Primogênito dos que ressuscitam dos mortos” (Col 1,18)” (DD 24).
O dia do Senhor é também, o oitavo dia: esta era uma imagem cara aos Padres da Igreja, que viam no domingo o dia único, dia sem ocaso, que nos introduz na eternidade de Deus.
A santificação do domingo
No ano 304, o imperador Diocleciano proibiu aos cristãos, sob pena de morte, de possuir as Escrituras, de se reunirem aos domingos para celebrar a Eucaristia e de construir lugares para as suas assembleias; neste período, alguns cristãos de Abitinia, atual Tunísia, foram, surpreendidos na celebração eucarística dominical, que estava proibida, e foram conduzidos perante o juiz, que lhes perguntou por que, no domingo, haviam celebrado a função religiosa cristã, sabendo que isso implicava castigo de morte, ao que responderam: “Sine dominico non possumus”, ou seja, “sem o domingo não podemos viver”.
Partindo deste testemunho, podemos compreender o que afirma o Catecismo: “A Eucaristia do domingo fundamenta e sanciona toda a prática cristã. Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebês) ou se forem dispensados pelo próprio pastor” (2181). O tema do preceito dominical não deve ser interpretado sob uma ótica meramente legalista ou moralista, porque ele está sob a lógica profunda da graça e se expressa na dimensão do dom, da liberdade e gratuidade. Cristo prometeu estar conosco até o fim do mundo (cf. Mt 28,20), e a Igreja continua a ouvir e a acolher esta promessa, mas “para que esta presença seja anunciada e vivida adequadamente, não é suficiente que os discípulos de Cristo rezem individualmente e recordem interiormente, no segredo do coração, a morte e a ressurreição de Cristo. Com efeito, todos os que receberam a graça do batismo, não foram salvos somente a título individual, mas enquanto membros do Corpo místico, que entraram a fazer parte do Povo de Deus” (DD 31).
A Eucaristia dominical é, portanto, o ponto central que dá sentido a toda prática cristã, é o alimento que nos sustenta no caminho que percorreremos durante toda a semana; é o nosso testemunho de pertença a Cristo e à sua Igreja. Nos locais onde, por falta de ministro sagrado ou por outra causa grave, tal participação seja impossível, a Igreja recomenda vivamente que os fiéis participem da liturgia da Palavra, ou então se dediquem à oração durante um tempo conveniente, em família ou em grupo de famílias, de acordo com a realidade (cf. Cat. 2183).
Santificar os domingos e festas de preceito significa abster-se de atividades que impeçam o culto devido a Deus e a alegria própria do dia do Senhor. É muito importante o testemunho cristão da alegria própria desse dia, pois trata-se do dia da Ressurreição de Jesus Cristo, o Senhor, dia da nossa libertação.
A santificação do domingo também refere-se ao repouso do trabalho, onde permitiremos que seja o Senhor a ordenar a nossa vida e não o ativismo que muitas vezes nos rouba dele, da família, dos amigos e de nós mesmos. O descanso nos dará condições para reconhecer que tudo o que temos é obra do Senhor. Mesmo nos países onde a lei civil não reconhece o ritmo semanal, fazendo do domingo um dia de pausa do trabalho, os cristãos são chamados a santificar o dia do Senhor, por meio da oração, da caridade, do serviço ao próximo, da dedicação à família e aos mais necessitados. Tudo isso será um meio para favorecer o encontro e a intimidade com o Senhor, que é o fundamento, o centro e o sentido último dessa grande festa que é o domingo cristão.
Josefa Alves
Missionária da Comunidade Católica Shalom