Durante o intervalo do dia do pobre, instituído pelo Papa Francisco e o dia de Cristo Rei, estava pensando antes de escrever este capítulo sobre qual o legado que queríamos que fosse deixado para as próximas gerações¹. Em tudo e para todos eles que seja uma lembrança de busca pela santidade mesmo nas imperfeições e limitações.
Foi daí que percebi que há mais de dois mil anos o nome e o legado de Pilatos são repetidos diariamente em todo o mundo cristão. Somos pelo menos 1,2 bilhões de católicos no mundo. O Senhor é crucificado na vida dos mais pobres e esquecidos.
Até no credo apostólico, tirando os nomes de Jesus e Maria, Pôncio Pilatos é o único nome próprio integrante em nossa profissão de fé. Nem São José, patrono da Igreja, teve tamanho destaque!
Entretanto qual o motivo da eternização de seu nome? Foram boas suas obras? Será que ele mesmo pensava que sua decisão teria tamanha repercussão ao longo dos séculos? Acreditamos que nem tinha a real noção do que estava fazendo, mas serve-nos de alerta sobre qual a nossa herança (legado) e a consequência de nossas ações ou omissões.
Se olharmos a pergunta de Pilatos ela é dirigida aos judeus daquela época, mas é atualizada a nós cristãos hoje. Onde está o testemunho dos cristãos na sociedade atual? Que influência na elaboração de leis está tendo os políticos e lideranças católicas? Onde está a mobilização social?
Pilatos era indiferente a Jesus. Ele já tinha seus inúmeros deuses. O mercado e o dinheiro também são indiferentes ao Senhor. E da mesma forma essa pergunta é feita a nós: hei de crucificar o vosso rei? Papa Francisco já alertava sobre a globalização da indiferença em nosso tempo².
Nesta mesma mensagem por conta da quaresma de 2015, o santo padre recomenda três formas de combate a indiferença aos mais necessitados: A oração de muitos (comunitária) que é apresentada de forma imperativa ressaltando que não devemos subestimar a sua força. O ato concreto, não amando apenas com palavras e a conversão que se dá por meio desse ato.
O simples fato de sair de si traz algo de libertador. É uma oportunidade de enxergar que o outro é causa de santificação que o suor derramado no serviço faz com que a graça tenha uma repercussão em nossa vida maior que possamos imaginar. Não é o simples fato de esquecer o nosso problema, mas perceber que mesmo nas nossas limitações existe riqueza das potencialidades e possibilidades que fomos dispostos pela graça de Deus.
O cristão não pode comportar-se como os nove leprosos que quando doentes bradavam ao Senhor, mas depois de curados esqueceram-se de retornar e agradecer a Jesus assim o fato de nos encontrarmos com boa saúde ou situação financeira confortável não nos dá o direito de esquecermo-nos dos outros, principalmente dos que mais precisam.
O melhor exemplo a ser seguido é do próprio Deus, mesmo sem precisar, criou-nos e serve-nos ao ponto de enviar o seu filho Jesus para redimir os nossos pecados. Para que sejamos misericordiosos como o Pai, é fundamental a atuação da Igreja/comunidade, pois ela é a mão que deixa a porta entre o céu e a terra aberta e dispensadora das graças da comunhão fraterna e sacramental que nos fazem corpo em que o Cristo, seu filho, é a cabeça.
¹Sobre esse assunto, recomendo o livro CORTELLA, Mario Sérgio. Qual é a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petrópolis: Vozes, 2008.
²Mensagem da Quaresma de 2015.
