Formação

História da Comunidade Shalom

A pedagogia de Deus para a realização da Sua obra em nossas vidas manifestou-se principalmente através da evangelização. O desejo de levarmos a outros jovens a vida de Jesus e a experiência do Espírito era algo maior do que nós mesmos.

comshalom

1982, 9 de Julho. Rua Cel. Jucá, 356, 20h. A casa está cheia. Há gente na calçada e na rua. Muitos são jovens. O som de músicas alegres de louvor toma conta do ambiente. Para surpresa nossa há até um canal de televisão fazendo reportagem. Faz-se silêncio e todos recebem, atentos, a benção solene de D. Aloísio Lorscheider, Cardeal Arcebispo de Fortaleza. Com a sua benção e palavras de repetido encorajamento à Evangelização dos jovens, é inaugurado o Centro Católico de Evangelização Shalom.

Os jovens se entrelaçam no meio da casa. Não se esperava tanta gente. Não há mesas e cadeiras para todos. Com alegria, alguns jovens vestidos de garçom servem às mesas, um tanto desajeitados, pois jamais fizeram isto antes. Outros, aproximam-se das rodas de jovens e, de uma maneira descontraída, falam de Jesus e do que Ele fez em suas vidas.

Na cozinha, muitos trabalham exaustivamente, rezando para a comida ser multiplicada, como quando Jesus com a multidão no deserto. Em todos, um só ideal: Evangelizar os jovens de uma maneira nova, diferente. Evangelizar aquele que não vai à missa, grupo de oração, ou retiro, mas com certeza aceitam um convite para lanchar um sanduíche e um refrigerante.

A inauguração da primeira lanchonete foi um fato marcante. Nossa história, porém, não começa aí. Começa antes, bem antes, no Coração de Deus, que tem os Seus projetos insondáveis e os confia a pessoas mais comuns e incapacitadas. Sim! Os objetivos magníficos do Senhor, como em um divino quebra-cabeça, vão-se montando e, muitas vezes sem o nosso conhecimento, se manifestando como um plano maravilhoso do Pai.

As Primeiras Pedras do Quebra-cabeça    

Em 1972, D. José Delgado era Arcebispo da Arquidiocese de Fortaleza. Seu bispo auxiliar era D. Miguel Câmara, que, muito preocupado com a situação da juventude na Arquidiocese, resolve iniciar um trabalho de Evangelização mais eficaz no meio dos jovens, através de encontros e grupos de jovens. Para coordenar este trabalho, foi convocado Irmão Maurício Labonté, irmão missionário canadense da Congregação do Sagrado Coração, que deu início ao Movimento de Encontro de Jovens da Arquidiocese de Fortaleza.

Os encontros visavam despertar a fé nos jovens, com palestras sobre os valores do Evangelho. Apresentavam-nos Jesus Cristo como um amigo muito próximo da Juventude. Jovens dos colégios católicos e das paróquias da cidade participavam destes encontros de final de semana, onde eram jogadas sementes no coração de muitos. Neste tempo surgiram os grupos de jovens nas mesmas paróquias e colégios. Foi neste ambiente que tive a minha primeira experiência forte com Deus.

Abril de 1976. Participo do meu primeiro encontro de jovens e tenho meu encontro pessoal com Jesus. Minha vida muda radicalmente e assumo um forte compromisso com a Igreja, engajado na evangelização dos jovens através do Movimento de Encontros da Arquidiocese e do Grupo de Jovens do Colégio Cearense, pertencente aos Irmãos Maristas.

No período que se seguiu, a sede de muitos do grupo era tanta, que não encontrávamos na estrutura dos tradicionais grupos de jovens, a espiritualidade necessária para vivermos o Evangelho com mais profundidade. Por graça de Deus, tivemos, nesta época, a experiência do Batismo no Espírito Santo na Renovação Carismática Católica.

O Batismo no Espírito realizou em nós e no nosso grupo a reviravolta necessária para o projeto de Deus poder acontecer. A partir dele começamos uma caminhada de vida de oração e atividade apostólica cada vez mais intensa. Descobrimos que contávamos com o poder de Deus e assim a obra de evangelização não precisava mais ficar limitada à boa vontade e técnicas humanas, mas seria revestida do poder do Espírito que se manifesta através de Seus frutos e carismas.

Animados pelo Espírito, fomos crescendo em uma saudável criatividade para anunciar o Evangelho, Por esse tempo, começavam a florescer os Seminários de Vida no Espírito Santo para jovens e, em comunhão com Emmir Nogueira, que conhecemos dentro da RCC, todo um trabalho de Renovação Carismática especificamente voltado para os jovens, começou a se desenvolver.

Muitos grupos de jovens existentes na época foram paulatinamente se transformando em Grupos de Oração e a RCC em Fortaleza, para glória de Deus, tomou novo impulso.

1980, 09 de Julho. O Papa João Paulo II visita o Brasil e inaugura em Fortaleza o X Congresso Eucarístico Nacional. Na Celebração Eucarística dois jovens são escolhidos para apresentar um presente ao Papa em nome de todos os jovens da cidade. Pela misericórdia de Deus, eu era um destes jovens. Discernimos que devíamos apresentar ao Papa um presente em nome de todos os jovens da Arquidiocese. O presente escolhido era cuidar da evangelização dos jovens abandonados. Foi um momento inesquecível, o Papa nos olhava com muito amor e carinho, enquanto pronunciávamos o nosso compromisso, Ele nos abençoou e nos abraçou.

Percebemos hoje como este acontecimento foi parte do desígnio de Deus. Durante dois anos dediquei-me com alguns do nosso grupo de oração, a evangelizar os menores da FEBEMCE. Deus porém, pensava em algo bem maior!

O Ardente Desejo de Evangelizar

Nosso grupo de oração era marcado por dois fortes desejos: o de evangelizar e o de nos comprometermos mais e mais com Deus, uns com os outros e com o Seu Reino. Hoje reconhecemos aí a semente do plano de Deus. Na época, vivíamos estes desejos por pura inspiração, sem consciência do que Deus viria a fazer em nós.

O desejo de nos comprometermos foi crescendo e, pouco a pouco, fomos sendo conduzidos por Deus para uma vivência de serviço e fraternidade que fazia de nós mais que membros de um grupo de oração. O sonho de uma vida comunitária nos alentava, mais víamos como algo longínquo: “quem sabe, depois de nos casarmos ou definirmos nossas vidas e profissões…” O projeto de Deus era muito mais audacioso e naquele tempo era imperceptível para nós, apesar de algumas tentativas humanas de querermos construir nossos próprios caminhos.

A pedagogia de Deus para a realização da Sua obra em nossas vidas manifestou-se principalmente através da evangelização. O desejo de levarmos a outros jovens a vida de Jesus e a experiência do Espírito era algo maior do que nós mesmos. O mais que realizávamos nos parecia pouco diante dos muitos que necessitavam, principalmente aqueles que estavam mais afastados. Foi ao refletirmos em oração sobre esta situação que pouco a pouco a vontade de Deus foi se manifestando.

A Inspiração da Lanchonete

No segredo do coração, o Senhor começou a relembrar algo que Ele há muito colocara: ainda no encontro de jovens, Ir. Maurício nos havia contado que sua Congregação tinha no Canadá um Café Cristão”. Eram casas em beira de estrada que acolhiam jovens drogados e os alimentavam, procurando uma oportunidade de anunciar-lhes o Evangelho.

Cada vez que Ir. Maurício nos falava deste café, meu coração inflamava-se interiormente e inspirava-me realizar algo parecido em favor dos jovens.

Embora deseja-se a criação de algo como o “Café” do Canadá, sentia que não era bem aquilo. O sentimento de que Deus queria algo nesta linha permanecia. Era a sua mão trabalhando e inspirando.

Pouco a pouco a ideia foi tomando corpo: um lugar atraente, sanduíches, refrigerantes, sucos, sorvetes, jovens atendendo e evangelizando. Estava formado o quadro: enfim uma lanchonete! Deus queria uma lanchonete para evangelizar!

A ideia me soava absurda. Não tinha coragem de partilhá-la com ninguém, pois parecia loucura. Guardava segredo e procurava abandoná-la. Com o tempo, porém, a inspiração tornava-se mais insistente. Confesso que “perdia tempo” imaginando como seria a lanchonete, sem ainda comentar com ninguém. Foi quando se deu o dia decisivo.

Era sábado à noite. Estava em casa me aprontando para ir ao aniversário de uns dos irmãos do grupo, quando a inspiração veio mais clara e mais forte ainda: AS COISAS DO MUNDO FUNCIONAM! POR QUE NÃO AS DE DEUS? SE ISSO VEM DE DEUS, POR QUE NÃO DARIA CERTO?

Com estes sentimentos cheguei à festa, sem intenção nem coragem para partilhar nada com ninguém. Depois de muita insistência de um irmão que me via pensativo, iniciei timidamente a partilha. Aos poucos os outros foram se aproximando e no fina do aniversário o assunto não era outro.

Todos falávamos animadamente na lanchonete para evangelizar. Em um dado momento, alguém perguntou: “Como será o nome?” Pego de surpresa, respondi, sem pensar: SHALOM! Naquele momento eu não tinha a menor consciência de que o Senhor falava por minha boca e inspirava, com a palavra “Shalom” toda a nosso vocação.

A partir daquela noite, muitos ficaram empolgados com a ideia da lanchonete para evangelização, mas era necessário confirmá-la ainda mais em oração. Combinamos que passaríamos a semana orando e no sábado seguinte, depois da oração do grupo, partilharíamos o que Deus nos havia dito.

O Discernimento da Vontade de Deus

Uma semana depois estávamos todos lá, nós e muitos outros que aderiram a ideia. As confirmações eram muitas, em palavras, profecias e visualizações. Os frutos em nossos corações eram claros, reconhecíamos ser a Vontade de Deus.

O discernimento pessoal e comunitário era claro. Entretanto, como realizar este desejo de Deus?

A montagem de uma lanchonete requer um bom capital inicial, nós éramos todos estudantes universitários ou colegiais e nossos pais não eram bem o que se pode chamar de entusiastas da ideia. Como tudo iria se concretizar? Em oração o Senhor confirmava: se era da Sua vontade, Ele mesmo iria providenciar! Embasados nesta certeza, colocamos mãos à obra. Ainda hoje, é esta certeza que fundamenta todos os passos que damos na Obra.

No dia seguinte, estávamos, cinco de nós, à procura de uma boa casa para alugar, sem nenhum dinheiro no bolso, mas com uma pequena semente de fé no coração. Procuramos várias casas durante a semana, e permanecíamos em oração. A procura era cansativa sem muito sucesso, pois ou a casa não nos agradava ou o proprietário, quando tomava conhecimento de que éramos jovens sem nenhuma renda e apoiados somente na fé, desistia.

Enquanto procurávamos a cada conversávamos sobre a futura lanchonete. Entre outras coisas, eu sempre repetia que era fundamental que na nossa casa tivéssemos logo na entrada um grande retrato do Santo Padre, para manifestar claramente a nossa identidade católica. Com o passar dos dias e os constantes insucessos em busca da casa, começamos a nos perguntar se, afinal, tudo não seria apenas uma loucura.

Desanimados, mas certos de que o Senhor acabaria por manifestar a Sua vontade, fosse qual fosse, resolvemos visitar uma última casa. Não tínhamos muita esperança. Ao encontrarmos na casa, ela estava completamente vazia, sem nenhum móvel ou objeto. Possuía apenas, na sala de entrada, um grande quadro do Papa! Para nós foi sinal de ânimo. Não importava se era ou não, aquela casa, o que importava era que o retrato do Papa era sinal da aprovação de Deus. Através dele, víamos Deus e a Igreja dizendo: “Vão em frente! Coragem!”.

Após este sinal, procuramos o proprietário da casa, que, ao saber dos nossos propósitos, dobrou a proposta do aluguel. Entretanto, para quem não tinha nenhum dinheiro, tanto faz precisar de “x” como de “x ao quadrado”. Afinal, era mesmo o Senhor quem iria providenciar tudo.

A nossa preocupação não era termos ou não o dinheiro, mas se aquela era a cada da vontade de Deus. Pusemo-nos em oração, e , como nossa caminhada estava no início, também era um pouco iniciante o nosso discernimento. Como certa dose de ingenuidade mas com muita sede de sermos fiéis à vontade de Deus, decidimos colocar em um papel as opções e sorteá-las. A que saísse seria a vontade do Senhor para nós. Escrevemos em três pedaços de papel: 1) É esta casa; 2) É outra casa; 3) É tudo loucura.

Oramos intensamente, pedindo a Deus que não levasse em conta o nosso pouco entendimento da Sua Vontade, mas que se manifestasse a nós por aquele pobres canais que naquele momento colocávamos diante Dele. Sorteamos e o papel tirado foi o 2º, “outra casa”. Após o sorteio pedimos uma Palavra na Bíblia, como era costume de S. Francisco fazer, e a Palavra tirada foi Jo 21, “A Pesca Milagrosa”. Os discípulos haviam passado a noite inteira a pescar sem nenhum sucesso. Jesus apareceu e mandou-lhes jogar as redes à direita. Obedeceram e recolheram tantos peixes que suas redes se rompiam e necessitavam de ajuda para carregá-las de volta à terra.

Com a mesma simplicidade do primeiro discernimento, acatamos esta Palavra como a voz do Senhor. Éramos nós aqueles discípulos cansados que há muito tentavam pescar e que, a uma ordem do Senhor, lançavam novamente as suas redes no mar…só que à direita da barca. A partir do outro dia, começamos a procurar nossa casa, com renovado ânimo, do lado direito da cidade.

Alguns dias depois chegamos em uma casa que logo atraiu nossa atenção. Um pequeno santinho de Jesus e um lugar muito simpático nos deu logo ânimo de ali entrarmos em oração. Parecia ser aquela a casa. Ao voltarmos à varanda, notamos que a casa estava rodeada de restaurantes com título de frutos do mar. Não seria o sinal da pesca milagrosa?

Procuramos imediatamente os proprietários, que pertenciam a um movimento da Igreja e cujas filhas eram membros de grupo de oração. O casal aceitou alugar a casa com alegria. Confiantes na Divina Providência, assinamos o contrato. Um grupo de adultos amigos, generosamente se dispôs a assumir os primeiros aluguéis.

A providência de Deus

Começávamos uma nova etapa da caminhada e para isto precisávamos de muita oração e trabalho. A casa, já alugada, passou a ser ponto de encontro para longas vigílias em louvor e intercessão pela Obra de Deus que germinava.

Adubados pela oração, os primeiros milagres começaram a se manifestar. A mão de Deus providenciava todas as nossas necessidades. De todos os modos Ele manifestava Sua benção e aprovação. Pessoas nos procuravam com doações como: geladeiras, telefone, copos, pratos. Chegavam-nos muitas coisas, mas Deus desejava que outras nos viessem pela fé. Era parte do Seu plano nos ensinar acerca da Providência, pois as pequenas histórias que vivemos nesta época nos formaram e ensinaram-nos a administrar a Sua obra:

As Panelas 

A cada vigília e promoção que fazíamos, as doações iam chegando e pouco a pouco foi tomando forma a lanchonete do Senhor. Certo dia ao comentarmos as nossas necessidades, lembramos que necessitávamos de material de cozinha, tais como panelas e utensílios de alumínio. Fizemos uma comissão e no outro dia marchamos para o parque industrial da cidade. Ao chegarmos diante de uma indústria de utensílios de alumínio, paramos nosso carro e, antes de descermos fizemos uma oração, pedindo ao Senhor que o Seu anjo marchasse à nossa frente, abrindo as portas e nos possibilitando conversar com o proprietário para pedirmos o que necessitávamos.

Ao nos aproximarmos da portaria notamos o rígido esquema de segurança, mas o anjo do Senhor nos acompanhava. A placa da empresa trazia o nome do proprietário. Aproximamo-nos do guarda e pedimos para falar com o tal senhor, que nunca havíamos visto antes. Para a nossa surpresa, o guarda nos fez entrar prontamente.

Após passarmos por várias portarias, vimo-nos frente a frente com a secretária do proprietário. Pedimos para sermos atendidos e ela disse que isto seria impossível, uma vez que o patrão lhe tinha dito que estava muito ocupado e recomendado que “não falaria nem com sua mãe!” Apesar disso, insistimos e, como fomos contundentes ela resolveu nos anunciar.

Enquanto ela estava na sala do proprietário, notei uma placa que ficava na sala e que dizia “NÃO FAZEMOS QUALQUER TIPO DE DOAÇÕES. POR FAVOR NÃO INSISTA!” Diante do aviso procurei não alarmar aos outros e rezamos mais intensamente. Após alguns minutos a secretária voltou, surpresa, dizendo que nós seríamos atendidos. Nós sabíamos que o Senhor havia aberto aquela porta, mas ainda não sabíamos o que nos aguardava.

Fomos introduzidos em um grande e bonito escritório atapetado. Um senhor grisalho, atrás do birô, mantinha a cabeça baixa, assinando seus papéis, aparentemente indiferente à nossa presença. Depois da troca ansiosa de olhares para ver quem falaria, comecei timidamente a apresentar nossas necessidade diante do projeto de evangelização que trazíamos. Quando terminei, o senhor levantou a cabeça e exclamou:

– “Mas que cara de pau vocês têm!”

Neste momento, confesso, foi como se eu tivesse recebido uma paulada. Os outros, oravam em silêncio. Uma menina retrucou, sem pensar:

– “Para Jesus nós temos a cara que for necessária!”

Com esta “deixa”, começamos a anunciar Jesus. O senhor pareceu interessar-se, mandou-nos sentar e serviu-nos um cafezinho. Depois de alguns instantes, levantou-se, abriu uma porta que dava para a indústria e disse-nos:

– “Apanhem o que quiserem”.

Não hesitamos em cumprir esta ordem! Terminamos aquela tarde felizes por experimentarmos o poder de Deus e a certeza que a Sua mão nos confirmava.

O Filtro

Estávamos prestes a inaugurar a lanchonete quando um de nós lembrou que na cozinha ainda faltava um filtro e que não tínhamos como comprá-lo. Em momentos como estes, vinham à nossa mente as palavras de Davi em I Sam 17,37: “O Senhor que me salvou das garras do leão e do urso, salvar-me-á também das mãos deste filisteu!” Era exatamente esta a nossa situação:

Aquele que nos havia dado casa, cadeiras, mesas e tudo o mais não nos daria todas as coisas que necessitássemos para a Sua obra? Claro que sim, pedíamos ao Senhor e esperávamos sua resposta, sem esquecermos a nossa parte. Naquela mesma tarde, uma irmã nossa foi à missa na capela de Sta. Filomena. Na hora dos avisos finais, pediu licença ao sacerdote e pediu orações pela lanchonete do Senhor. Ao terminar o aviso, alguém no meio do povo levantou o braço e disse:

– “Eu sou proprietário de uma loja que vende filtros e gostaria de doar um para vocês!”

Quando soubemos do que acontecera, não podíamos conter nossa alegria e louvor diante de um Deus tão fiel para aqueles que o invocam. Bendizíamos o Seu Nome também por vermos como é compensador servir na Sua obra, uma vez que é Ele mesmo quem vai à nossa frente. Nosso Deus nos formava na Sua Divina Providência e nos ensinava a não colocarmos nossa confiança “nos carros nem nos cavalos”, mas no “Senhor dos Exércitos”.

Esta pedagogia de Deus deixou marcas indeléveis em nós. Aprendemos desde cedo a depender dEle e não das forças humanas para permanecermos na Sua bênção e animar as gerações que estão por vir.

A Máquina de Calcular

Em meio às doações que nos chegavam, encontramos uma velha máquina de calcular, à manivela, que serviria muito bem para o caixa da lanchonete. Nesta época, a casa ainda ficava só a noite, pois não tínhamos condições de contratar um vigia. Certa manhã, recebi o telefonema do vigia do prédio vizinho, comunicando que a nossa casa havia sido arrombada.

A decepção inicial foi profunda. Porque Deus havia permitido aquilo depois de tanto esforço? Liguei para uma das nossas, Celeste, que a princípio pensava tratar-se de uma brincadeira. Fomos juntos até à casa, sem saber o que encontaríamos. No caminho, quando orávamos, Deus nos lembrou a vida de Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do Senhor!” Esta passagem foi nossa jaculatória até chegarmos à casa.

Ao chegarmos, o portão estava arrombado, mas estranhamente tudo estava no seu lugar: cadeiras, birôs, telefone e outros objetos de valor. Tudo, exceto a máquina de calcular. Ficamos profundamente aliviados e gratos pela proteção de Deus, mas, no fundo, nos perguntávamos: “se Ele protegeu todo o resto, porque não a máquina de calcular? Estava em curso um plano de educação de Deus.

Passados alguns dias, estávamos fazendo uma grande faxina na casa, e sentimos sede. Como o bar da frente estava fechado, saímos em busca de outro. Todos os bares mais próximos também estavam fechados. A alguma distância, encontramos um aberto. Tomamos lá os nossos refrigerantes. n hora de pagar a grande surpresa: A MÁQUINA DE CALCULAR! Lá estava ela sobre o balcão. Era a nossa, sem dúvida, com a velha manivela e tudo o mais. O espanto era geral. O que fazer? Reclamar? Chamar a Polícia? Exigir a devolução? Preferimos acabar a faxina e no dia seguinte nos reuniríamos para decidir.

Ao encontrarmo-nos, soubemos que alguns dos nossos pais haviam sabido do roubo e estavam prontos para dar parte na polícia. Oramos sobre esto e Deus nos relembrava a Sua Palavra: “Àquele que te tomar a veste dá também a túnica”; “Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem”.

Naquela ocasião, deveríamos fazer não o que fosse mais justo, mas o que nos ordenava o Senhor. Sentimos a reprovação por parte daqueles que nos ajudavam, assim como o risco de perdermos seu apoio, mas preferimos ficar com o Senhor. Três dias depois, recebemos uma doação de três máquinas de calcular digitais de última geração. Deus desejara provar a nossa fidelidade e nos recompensava afirmando a Sua aprovação. Aprendemos que ao Senhor agrada a obediência e que este era o caminho por onde Ele nos orientava andar. Bendito seja o Seu Nome!

As nossas cadeias

Continuamos a orar e trabalhar na construção da obra de Deus e nos empenhamos ao máximo para sua inauguração ocorrer o mais cedo possível. Começamos a perceber alguns obstáculos como cansaço, dificuldades na oração, desânimo e- o sinal mais contundente – o aluguel do primeiro mês estava para vencer e não tínhamos a quantidade necessária. O que estava acontecendo de errado? Deus não falha. O erro estava em nós e fazia-se necessário descobrir qual era.

Pusemo-nos em oração, pedimos perdão pelos nossos pecados e orientação na Palavra do Senhor. O Senhor nos falou através do profeta Jeremias, onde a Palavra dizia que precisávamos nos despojar dos ferros que prendiam nossos pescoços e braços. Vimos que o Senhor nos pedia despojamento. Naquela mesma hora, retiramos tudo que possuíamos de valor, como cordões de ouro, pulseiras, brincos, relógios e ofertamos ao Senhor.

No dia seguinte, tentamos empenhar estes objetos para cobrir o aluguel da casa, mas a firma estava fechada. Enquanto discerníamos o que fazer, recebemos em nossa casa uma doação que cobria o aluguel e ainda sobrava para outras necessidades.

As portas da Providência Divina se reabriram e o Senhor nos ensinava que uma obra de Deus só pode ser construída se houver despojamento de mentalidade, de bens, da nossa própria vida. Foi mais um ensinamento do Senhor que guardamos com direcionamento para a condução da Obra e para a vocação.

A obra de Deus seguia seu curso. A casa se estruturava e a cada dia mais se parecia com uma lanchonete.

Marcamos na fé, a data de inauguração para o dia 09 de julho de 1982. Somente dez anos depois viríamos perceber que esta data marcava o segundo aniversário da passagem do Santo Padre por Fortaleza, no exato dia em que orara sobre nós. Naquela semana começamos a trabalhar como nunca. Todos estavam muito empenhados. Doze de nós estávamos mais à frente da lanchonete: Ricardo Sá, Paccelli, Renato, Osiel, Alberto, Mirna, Luíza, Germana, Paizinha, Solange, Celeste e eu. Muitos outros nos ajudavam.

No afã que precedeu a inauguração, percebi que havíamos cometido um grande erro: ainda não tínhamos pedido a benção oficial do nosso Pastor D. Aloísio. Decidimos que não daríamos mais um passo sem ela, mesmo tendo já marcado a data da inauguração.

Ligamos imediatamente para a residência do Cardeal e sua secretária informou que ele estava pregando um retiro na Serra do Estevão para os padres da Diocese de Quixadá. Não exitamos. Tomamos um carro e partimos para Quixadá, distante 160 Km de Fortaleza. Após duas horas de viagem, chegamos à casa de retiros. Temíamos importunar um retiro de padres. O que fazer? Como chegar a D. Aloísio?

A providência de Deus não se fez esperar. Encontramos no corredor Pe. José Yalea, nosso amigo e protetor. Falamo-lhe do motivo pela qual estávamos ali, e ele nos levou imediatamente a D. Aloísio, pois estava na hora do intervalo. Fomos muito bem acolhidos pelo Cardeal. A conversa girou primeiramente sobre o trabalho de evangelização dos jovens em Fortaleza. Aproveitei a oportunidade para lembrar-lhe o quanto era do seu interesse que houvesse uma casa para acolher jovens e evangelizá-los em Fortaleza, e adiantei-me pedindo sua permissão para abrirmos uma casa assim. D. Aloísio imediatamente disse que era muito do seu gosto, mas que as condições financeiras da Arquidiocese o impediam, naquele momento, de nos ajudar neste sentido. Respondi-lhe que não estava pedindo a ajuda financeira da Arquidiocese, mas a sua benção, pois a casa estava montada e com data marcada para inaugurar, dependendo somente da sua aprovação e benção. Surpreso e demonstrando alegria, D. Aloísio disse que não teríamos só sua benção mas também a sua presença, nos incentivando muito a realizar este trabalho.

Tínhamos recebido uma grande graça. A viagem de volta foi feita em meio a alegria e louvor. Tínhamos recebido a benção da Igreja de Cristo e do nosso Pastor. A partir daquela data sempre buscamos sua orientação e discernimento para qualquer realização mais ousada de nossa parte.

Foram estas as maravilhas que os nossos olhos viram e nossas mãos apalparam, para a maior glória de Deus, nos tempos que antecedem a fundação da lanchonete do Senhor. O que aprendemos neste tempo é fundamento para a Obra que a misericórdia de Deus decidiu construir entre nós, ignorando amorosamente a nossa fraqueza e incapacidade de levá-la a cabo. Bendito seja o Senhor que tudo faz conforme Lhe convém!

Comunidade: Primeiros passos

Na caminhada para o Senhor, havia dentro do meu coração um grande e forte apelo para viver o Evangelho de uma maneira integral, plena, com toda a sua radicalidade. Quanto mais eu me aproximava de Deus pela oração e a vida no Espírito Santo, mais este desejo se manifestava em meu interior. Procurava aproveitar as coisas espirituais que me eram oferecidas, da melhor forma possível: palestras, aprofundamentos, livros, grandes encontros, pessoas espirituais. A missa diária e a confissão freqüente foram grandes instrumentos de solidificação da minha fé. Todas estas eram oportunidades de matar minha sede, mas quanto mais bebia, mais sede tinha.

Nesta época, comecei a observar na Tradição da Igreja a vida comunitária. Alguns livros narravam como, em várias partes do mundo, pessoas haviam se reunido em comunidades para viver mais perfeitamente o Evangelho. A Providência Divina nos fez conhecer escritos de Catherine Doherty, “a Baronesa”, e a história de sua comunidade Madonna House. Esta experiência de vida comunitária nos falava muito ao coração e fomos enriquecidos pela sua espiritualidade e pela experiência de alguns irmãos que visitaram esta comunidade no Canadá. Junto com a Emmir, procuramos aprofundar e vivenciar esta graça.

O Senhor, que se utiliza de todas as oportunidades para construir a Sua obra, nos levou a assistir, nesta época, a um filme sobre a vida de S. Francisco de Assis. A história do jovem Francisco, que abandonou tudo para viver a radicalidade do Evangelho me impressionou de tal forma que assisti ao mesmo filme várias vezes na mesma semana. Cada vez que assistia, sentia Deus falar ao meu coração. O desejo era grande, mas minha fraqueza era enorme.

Tempos depois, chegou-me às mãos o livro “Irmão de Assis”, de autoria do Frei Inácio Larrañaga. Foi o golpe decisivo. Ruminei cada palavra e partilhava o que Deus me dizia através dele com outros irmãos que nutriam o mesmo desejo de se entregar assim ao Senhor, apesar de não saber como. O filme e o livro me deixaram preciosos ensinamentos sobre como viver a pobreza e a fraternidade por amor a Deus.

Decidi-me a fazer um Retiro de Opção Vocacional. Porém, lá não encontrei respostas, pois não me identificava com nenhuma das opções clássicas apresentadas. Queríamos algo novo. Uma experiência diferente. Procuramos, assim, com ansiedade, o nosso Pastor D. Aloísio e falamos do que se passava em nossos corações. Com a sabedoria que lhe é própria, incentivou nosso desejo e animou-nos a irmos adiante, orientando-nos a ler a obra de S. Teresa de Jesus, de Ávila.

Depois de algum tempo, o grupo que partilhava comigo o desejo de vida comunitária se desfez, mas o desejo de viver integralmente para Jesus permanecia firme no meu coração. Ganhei de presente as Obras Completas de Santa Teresa, e nelas encontrei o caminho que necessitava para enriquecer a experiência carismática que já tinha. O caminho era a oração. Quanto à comunidade, no tempo certo, Deus se encarregaria de gerar, caso fosse essa a Sua vontade…

Foi neste período que o Senhor começou a gerar a ideia da lanchonete para evangelização. Na época, eu jamais poderia fazer ligação entre as duas coisas. No coração de Deus, porém, uma história era o prefácio da outra.

Quando ainda estávamos nos preparando para a inauguração da casa, houve um retiro do Pe. Jonas Abib em Baturité, onde foi dada uma palestra cujo título era: “Deus quer Comunidade”. Pe. Jonas nos apresentava os tempos atuais e a Obra do Espírito no mundo gerando novas comunidades na Igreja e como Deus trabalhava para fazer nascer estas comunidades. Na medida que a palestra era dada, todos nós nos estupefávamos, pois íamos percebendo que Deus estava fazendo algo parecido conosco. Na partilha sobre a palestra não ousamos comentar nossos sentimentos com clareza, mas tudo aquilo ficou bem gravado no nosso coração.

Após a inauguração do Shalom, o trabalho era intenso. Todos os dias, a casa ficava tomada por jovens e adultos, especialmente nos finais de semana, pois tínhamos a Santa Missa e algumas atividades artísticas. Surgiam os primeiros grupos de oração que necessitavam do nosso pastoreio. Além disso, havia a evangelização de mesa em mesa, que quase sempre desembocavam em aconselhamento e oração pelos necessitados. A obra crescia e o nosso compromisso com Deus e uns com os outros se fortificava. Era este compromisso forte que nos permitia levar adiante o que o Senhor havia iniciado.

Por essa época, resolvemos aceitar o convite do Pe. Jonas de conhecer a Comunidade Canção Nova, no interior de S. Paulo. Fomos três: Celeste, Ricardo e eu. No caminho nos pusemos em oração e pedimos uma Palavra a Deus sobre aquela viagem. A resposta foi surpreendente: Jos 18, 3-4 e 8, onde o Senhor censurava a nossa lentidão em tomarmos posse da terra e que nos enviaria em grupos de três para fazermos o devido reconhecimento. Ao voltarmos Ele decidiria a nossa sorte. Canção Nova foi de grande valia para nós, do acolhimento dos irmãos ao testemunho de que é possível viver uma vida consagrada a Deus, na simplicidade e no serviço. Era o impulso que necessitávamos. Através da visita, Deus nos falava e indicava o novo caminho que Ele queria para nós. Vivemos e observamos tudo, com o intuito de sermos enriquecidos naquilo que Deus falava, pois, por mais que esta experiência nos ajudasse muito, sabíamos que, o que Deus queria fazer em nossas vidas era algo parecido, mas ao mesmo tempo muito diferente. Era algo indefinido, mas novo, original. Voltamos exultantes, sentindo que Deus nos havia dado a direção.

Quanto ao tempo, caberia a Ele definir

A obra crescia impressionantemente. No início eram os jovens, mas começaram a aparecer também seus pais, adultos, crianças, enfim, todos os tipos de pessoas. Víamos que isso não era fruto somente do nosso trabalho, mas de uma intensa ação da Graça, que se manifestava na vida dos muitos que se aproximavam. Nós mesmos ficávamos admirados com o que Deus fazia diante dos nossos olhos. Sem dúvida, apesar de todos os nossos pecados e fraquezas, Deus estava realizando algo especial e éramos os maiores beneficiados com tudo aquilo.

Foi em um dos retiros da coordenação da Obra que Deus interveio decisivamente. Neste retiro, pela primeira vez, Deus nos falou que gerava em nossos corações um amor esponsal a Seu Filho Jesus e que a partir desta graça, pedia de nós uma adesão mais profunda a Ele e sua obra. Compreendemos com clareza, através das orações e partilhas, que Ele estava nos conduzindo para uma vida comunitária e que este chamado era extremamente urgente. O Senhor nos deixava livres para dizermos sim ou não, mas o chamado havia sido feito e todos nós saímos dali muito conscientes disso.

A partir daquele encontro começamos a entrar em um caminho de discernimento sobre a nossa adesão àquele chamado de Deus. Nenhuma decisão comunitária foi tomada. Dedicávamo-nos intensamente à obra que muito exigia de nós e procurávamos cada um corresponder a Deus da melhor foram possível.

Passaram-se seis meses. Todos nós sentimos a urgente necessidade de fazer um novo retiro, pois em recente visita do Pe. Jonas a Fortaleza, através de uma palavra profética, Deus mais uma vez confirmava Seu chamado para nossa caminhada. Marcamos o novo retiro. Não podíamos imaginar que nele Deus ia começar a rasgar o véu de maneira tão decidida. Não planejamos nada para o retiro. Nem palestras, nem pautas, apenas íamos rezar, ouvir a Deus. E Deus falou!

As orações eram manifestações poderosas de Deus. Sentíamos fortemente a unção. E foi naquele retiro que o senhor nos deu a profecia fundamental. Ela era além das palavras, foi muito impressionante o efeito que produziu em nós. Depois dela, nós jamais seríamos os mesmos, e o nosso entendimento se abriria. Entre outras coisas, Deus nos falou que havia nos escolhido, e que em nós e através de nós iria realizar uma Obra. Ela seria magnífica aos olhos de todos os homens, não pelo nosso mérito, mas pela Sua graça.

Ele iria construir um “monumento para Sua glória” e iria plantá-lo em um alto monte, para que todos que o contemplassem pudessem perceber a Sua glória e glorificassem Seu santo nome. Também nos constituiria luz para as nações; Ele queria brilhar através de nós para que Sua luz iluminasse muitos povos. Após esta profecia percebemos interiormente, por pura graça a urgência do chamado e que ele pedia de nós uma resposta de vida.

Fizemos um discernimento pessoal e comunitário diante daqueles que estavam dispostos a se comprometerem mais seriamente com o Senhor e com Seu projeto. Começamos então a tomar decisões que comprometiam as nossas vidas. Após muita oração e discernimento, decidimos consagrar todas as nossas tardes e noites ao Senhor. Pela manhã, estudávamos ou trabalhávamos em atividades pessoais; pela tarde, nos dedicávamos à oração comunitária, pessoal, estudo bíblico e missa; à tardinha e noite, cuidávamos da casa, com trabalhos internos (faxinas, arrumação, compras, contabilidade, cozinha, livraria…) e trabalhos externos (grupos de oração, evangelização, atendimento, etc.).

Neste momento, nos aproximamos mais da Emmir, que até aquele instante nos acompanhava à distância, mas que agora nos acompanhava lado a lado, ajudando nos nossos discernimentos e nas decisões. Além da oração, vivíamos realmente a fraternidade. Convivíamos de maneira intensa, e em todas as ocasiões procurávamos partilhar conjuntamente. Almoçávamos alguns dias da semana juntos e tínhamos sempre lazeres comunitários. O nosso contorno começava a se definir. Alguns dos que começaram conosco já não estavam entre nós e novos foram agregados. Nesta época, os irmãos pediram que eu escrevesse alguma coisa sobre o que sentia da parte de Deus para nós. Com a constante insistência e por perceber que esta era a vontade de Deus, fiz um primeiro escrito que passou a denominar-se o “Espírito da Obra”. Nele estava contido o que Deus tinha feito em nossas vidas e o que acreditávamos ser, de uma maneira geral, a vontade de Deus para nós: a união da vida contemplativa com a ativa, a vivência radical do Evangelho e o viver da e na Vinha do Senhor. Todos éramos unânimes nestes pontos e percebíamos com clareza a vontade do Senhor.

A Obra cresceu e, necessitados de uma casa que a comportasse melhor, nos mudamos, em 1983, para a rua Maria Tomásia, 72. Nas férias de julho, nós, os rapazes, éramos 3: Pacelli, Ricardo e eu. Decidimos passá-las juntos na Casa, instalados nas dependências que outrora serviram aos empregados. Dispúnhamos de uma pequena sala, com área de serviço e uma pia; um pequeno banheiro e um quarto. Levamos três malas e três redes e começamos nossa experiência. Foram dias maravilhosos. Cozinhávamos, lavávamos, orávamos e servíamos no Apostolado da casa. Sairmos de nossas casas para estas férias foi algo difícil, pois nossos pais temiam que não mais voltássemos. Mas em nosso coração não existia nenhuma intenção neste sentido, queríamos apenas fazer uma experiência.

Foi um mês de muitas descobertas. Desde as graças aos desafios de morarmos juntos e nos amarmos. O saldo foi esplêndido, mas as férias já estavam para terminar e devíamos voltar para casa. Neste período, orávamos comunitariamente todas as tardes, às 14h. Na sexta-feira anterior ao domingo em que voltaríamos para casa, antes de iniciarmos a oração, recebemos a visita do Hugo Eduardo, irmão que me levou para a RCC e que agora acompanhava nossa caminhada de longe, pois estava estudando em S. Luís do Maranhão. Desconhecendo o que se passava, Hugo pediu para orar conosco.

A oração transcorreu como sempre e na hora da escuta, o Senhor falou por meio dele, dizendo: “Fiquem onde os coloquei”. Estava para nós claro que era da vontade de Deus que permanecêssemos morando ali. Mas como colocarmos para nossos pais? Não podíamos faltar com a palavra dada. Resolvemos dormir no domingo na casa dos nossos pais, e na segunda, conversaríamos com eles, pedindo sua bênção para a decisão que estávamos por tomar. Para a glória de Deus, não foi fácil partirmos, pelos laços de amor que tínhamos. Porém o amor d’Aquele que nos chamava era maior. Com a bênção dos nossos pais e até sua ajuda, na mesma semana fizemos nossa mudança.

Os rapazes passaram a ter uma vida em comum, e as moças permaneceram na casa dos seus pais, orando e trabalhando conosco todos os dias. Nesta época, começamos a trabalhar com algumas pessoas vindas dos grupos de oração que pastoreávamos. Eram líderes que precisavam ser formados e pastoreados mais de perto. Foi assim que surgiu o primeiro grupo de engajados, semente da primeira Comunidade de Aliança.

A obra continuava seu curso e começamos a organizar os grupos de crescimento, os ministérios e a coordenação pastoral.

Se o Grão de Trigo não Morrer…

No ano de 1984, enfrentamos uma grande provação. Começou a surgir no meio de nós alguns que já não concordavam com o caminho que estávamos trilhando. Estes já não comungavam com a inspiração inicial do nosso modelo de vida. O escrito sobre o espírito da Obra se perdeu e alguns começaram a questionar tudo. Foi um tempo de grande desafio para todos nós, pois nos amávamos, mas estávamos em perigo de perder o plano de Deus.

Neste momento de crise, recebi um convite do Pe. Jonas para visitá-lo. Parti então para S. Paulo, e lá pude me dedicar à oração e escuta de Deus.

Durante estes dias, Pe. Jonas me incentivou a escrever tudo o que trazia no meu coração como vontade de Deus para nossas vidas.

Assim, depois de uma semana de oração e escuta, surgiram as primeiras regras da comunidade. Depois de lê-las para o Pe. Jonas e alguns irmãos nossos que lá estavam, recebi o discernimento de que deveria voltar e apresentar aos outros tudo o que, com clareza, se manifestava como vontade de Deus para nós. Aqueles que sentissem o mesmo apelo no coração se uniriam e caminharíamos juntos. Aqueles que não tivessem o mesmo espírito, poderiam continuar como irmãos colaboradores, aos quais muito amamos e que hoje atestamos, desempenharam papéis únicos na nossa história. Era tempo de tomarmos opções fundamentais, pelo bem do Reino de Deus e da vontade de Deus para nós.

Ao chegarmos, reunimos a comunidade existente e os engajados e apresentamos o discernimento. Após este fato, demos dois meses para os irmãos pensarem e rezarem sobre o assunto. Só então teríamos o discernimento final.

Foi um tempo decisivo e muito difícil para todos nós. Houve momentos em que pensei que todos iriam desistir e que eu ficaria só. Porém, no meio de tudo isto, sentia-me revestido de uma força e tranqüilidade que muito me animavam, como também de uma certeza absoluta de que esta obra era de Deus e que era Ele mesmo que cuidava dela. Papel decisivo teve, neste momento, nossa irmã Emmir, que embora a certa distância do centro da situação, tinha o coração nela e foi instrumento de ânimo para não cedermos no que sabíamos ser a Vontade de Deus.

A Primeira Consagração 

Em janeiro de 1985, diante do altar do Senhor e na presença do Pe. José Yalea, fizemos os nossos votos como os cinco primeiros membros consagrados da Comunidade de Vida Shalom: Madalena, Jacqueline, Luíza, Timbó e eu. Era como se tivéssemos passado uma grande noite escura e o amanhecer despontava muito bonito. Este ano foi de promessas. Na pequena comunidade unida em torno do Senhor e da vocação que Ele nos dava, era Ele próprio que ia nos formando. Foi um tempo de grandes graças. Depois de fazermos nossas opções fundamentais por Jesus e deixarmos tudo por amor a Ele, parecia que o canal da graça havia se desobstruído. Foi uma ano de muita formação para nós e vimos confirmar a obra que Deus estava fazendo em nossas vidas. Neste mesmo ano, pediu oficialmente entrada na Comunidade, nossa irmã Emmir, como fruto de um longo discernimento e uma forte intervenção de Deus em sua vida, mostrando-lhe este caminho como sua vocação.

Foi também neste tempo que em uma das orações comunitárias, o Senhor nos deu uma visualização de N. Senhora com as vestes da Rainha da Paz (que neste tempo desconhecíamos). Ela trazia em seu manto muitas casas, simbolizando cidades e ao mesmo tempo nos eram dadas Palavras proféticas, que o Senhor estava enviando a muitos para formar um grande exército. Os nossos muros iriam cair e nós seríamos enviados e nossas fronteiras seriam alargadas. Hoje, vemos cumprir parte destas promessas, mas naquele tempo, nós só vislumbrávamos e críamos, o que era um grande alento para nossa caminhada.

Neste período, o rosto da vocação foi se desenhando mais claramente. A provação anterior tinha dado grandes frutos. Em defesa do que Deus nos tinha dado, isto foi se clareando cada vez mais, assim fomos nos enraizando no Louvor, no Amor Esponsal, e na Vida Carismática. A espiritualidade Teresiana e Franciscana foram suportes para a nova espiritualidade que surgia. Íamos cada vez mais compreendendo o nosso chamado de sermos discípulos e ministros da Paz, do Shalom do Pai em um mundo marcado pelo pecado, mas tão sedento da graça de Deus. E esta graça, nós fomos chamados a anunciar: o Cristo morto e ressuscitado que visita os Seus discípulos e ministra sobre eles a Sua Paz. Assim o quadro ia sendo pintado e do tesouro da Igreja, coisas novas e velhas iam se combinando pelo Espírito e dando forma a uma nova espiritualidade, destinada a homens e mulheres que quisessem viver o Evangelho até suas últimas conseqüências, na pobreza, obediência e castidade.

1986. A Palavra se cumpria: entram novos irmãos na Comunidade e estes dão novo vigor a ela. Surge uma comunidade de Aliança junto à comunidade de Vida, consagrada a ser instrumento do Shalom do Pai no meio do mundo, dentro da missão própria que foi dada: a de transformarmos os meios seculares em instrumentos de evangelização e louvor, renovando, desta forma, o Apostolado da Igreja.

Contemplando a Grande Obra que Deus realizou no início de Nossa Comunidade, só nos resta agradecermos e louvarmos a Ele, reafirmando a nossa disposição e suplicando a Sua Graça para, a cada dia, sermos instrumentos fiéis da Sua Vontade, no Serviço da Igreja e de toda Humanidade.

Texto retirado dos Escritos da Comunidade Católica Shalom


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  1. Ual. Li este artigo numa revista da shalom em 1998. Vi uma pregação do Timbó na canção nova neste mesmo no encontro das comunidades. Alguém sabe se ele continua com a missão?