Hoje o Evangelho de João (Jo 13, 1-15) traz a cena em que Jesus lava os pés dos discípulos na última ceia antes de Sua Paixão. Vendo a surpresa e pergunta de Pedro diante do ato de Jesus, poderíamos encontrar em nós, as razões para esse questionamento do discípulo, que acaba por se tornar o nosso.
Hoje eu faço essa pergunta a Jesus, inconformada com o Seu serviço humilde.
Para mim o mundo é diferente daquilo que Jesus desenha. Eu aprendi que todos têm seu lugar, a sociedade é organizada assim, existe uma hierarquia de importância e valor que também chega a classificar as pessoas. Eu ainda acho que quem é mais bonito, mais educado, mais culto, que tem maior poder aquisitivo guarda uma superioridade em relação àqueles que não têm essas características.
Por isso eu me inquieto quando Jesus se abaixa para lavar os meus pés. Segundo o meu critério, Ele tem um lugar de destaque na hierarquia de pessoas, e vai contra esses meus valores, vê-Lo abaixado, me servindo. Eu não quero ver Jesus nessa posição, me incomoda! No entanto, Ele a assume, talvez, exatamente por isso.
Como desconstruir um valor e mostrar um novo caminho de uma maneira mais eloquente do que assumindo em Sua carne essa nova realidade?
Na verdade, Jesus me mostrou e continua me mostrando, o quanto eu não compreendo e rejeito o que é “serviço”. Eu luto na minha vida para conquistar alguma posição e respeito. Eu não luto para me abaixar e ficar aos pés dos outros, aliás, eu sempre me pergunto: “Quem é esse outro para que eu fique aos seus pés? Quem é? Porque eu sou importante, e como alguém importante como eu, se abaixaria diante de qualquer um”?
E Jesus se abaixa para lavar os meus pés! E eu me pergunto, revoltada até: “Senhor, tu, lavar-me os pés”? E Ele paciente e humilde me ensina, me dá o exemplo e se dá inteiro para me mostrar que os meus valores não são os Dele, meus pensamentos não são os Dele. E mesmo assim, Ele insiste em mim.
Na verdade eu não quero que Jesus lave os meus pés, porque eu não quero ter que fazer isso pelos outros. Porém, Ele diz firmemente: “Se Eu não te lavar, não terás parte comigo”. E o conflito se estabelece por completo. Eu quero ter parte com Ele, mas não quero ter que me abaixar desse jeito. Penso, se Ele que é o Mestre tem que se humilhar assim, imagina o que eu terei que fazer.
Então colocando as minhas medidas, eu peço ainda “que me laves não somente os pés, mas lave tudo”. Eu vou precisar de uma graça completa para viver isso que contraria todos os valores estabelecidos em mim. Veja como eu sempre me guio pelo exagero exterior, sempre acho que preciso de mais, como meu querer não tem fim.
Mais uma vez Jesus me mostra o quanto minhas medidas refletem mesquinhez, julgamento, distinção de pessoas. Ele quer me ensinar a totalidade, o tudo, a oferta sem medidas. Ele quer me mostrar que o apelo exterior é pequeno diante da radicalidade interior.
Enfim, Ele lava meus pés, e me pede que eu siga Seu exemplo. Eu entendo aqui que esse lava- pés não é literal, não vou sair por aí com uma bacia e toalha nas mãos. Trata-se de seguir o exemplo na postura de serviço, que eu entendi, mas parece que não aderi totalmente.
E exatamente nesse momento, a água da bacia de Jesus escorre e se derrama sobre os meus pés, eu incomodada, Ele em amante serviço, eu consciente da minha inconstância na vontade de assumir essa postura, Ele consciente da minha fragilidade e derramando mais água para que o Seu serviço perfeito cubra a imperfeição do meu.
E a pergunta “Senhor, tu, lavar-me os pés?” ecoa a cada dia que eu vejo o quanto Ele faz por mim, e estremeço, ao ver o tão pouco que estou disposta e, de fato, faço por Ele. Eu O questiono porque gostaria que a minha medida se aplicasse, seria mais confortável. Então Ele faria menos por mim, e minha consciência ficaria aliviada por fazer pouco por Ele.
No final das contas, eu caio em mim e meu interior grita “Bendito seja Deus”, que sabendo de tudo isso não me dá o que eu mereço, mas é profundamente generoso em me dar tudo que eu preciso, e muito mais! Ele dá tudo, faz tudo, num amor total, que quer me ensinar todos os dias que as minhas medidas não servem, são medíocres e que o que Ele quer para mim é o absoluto, total, livre amor que ama, e amando, se dá e se encontra.

A comunidade shalom tem alguma música que fala desse tema?