Ó Jesus, humilhado até o aniquilamento, tornai-me participante de vossos sentimentos (Fl 2, 5-7).
“Tramemos contra o justo, porque ele nos incomoda, é contrário às nossas ações… Tratemo-lo com ultrajes e torturas, a fim de conhecer sua doçura e estarmos cientes de sua paciência. Condenemo-lo à morte infame” (Sb 2,12.19-20).
O justo humilhado e perseguido pelos ímpios é Cristo. Em sua vida e especialmente em sua paixão verificam-se de modo impressionante, as particularidades descritas no livro da Sabedoria. Sobre ele, inocentíssimo, se lança a raiva dos que se sentem ofendidos pela santidade de sua conduta e de sua doutrina. “O mundo me odeia… dirá um dia – porque eu dou testemunho contra ele de que as suas obras são más” (Jo 7,7).
O Filho de Deus que se humilhou voluntariamente até fazer-se homem, até fazer-se “pecado” para substituir-se aos homens pecadores, assim também voluntariamente aceita ser humilhado pelos mesmos a quem veio salvar. Procurado pelos judeus que o querem matar, Jesus foge várias vezes de suas mãos “porque não era ainda chegada sua hora” (ibidem, 30), mas não foge das contradições e humilhações. Verdade eterna, aceita ele ser tratado como mentiroso; bondade infinita, como malfeitor; sabedoria incriada, como louco; mansidão sem limites, como subversivo; Filho de Deus, como endemoninhado. As humilhações de Cristo resgatam o homem do orgulho e, ao mesmo tempo, lhe dão força para segui-lo no caminho da humildade. “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29).
A humildade autêntica parte do coração, da convicção íntima e profunda da própria insignificância diante de Deus. Enquanto se humilhou Jesus, esquecendo sua dignidade de Filho de Deus, o homem, para ser humilde, deve recordar o que é: criatura subsistente não por virtude própria, mas só pelos dons recebidos de Deus, e criatura que, tendo pecado, caiu em estado de miséria moral. A consciência de tudo isto deveria tornar o homem profundamente humilde e, todavia, o orgulho está nele tão vivo, que lhe é sempre dificílimo humilhar-se e, ainda mais, aceitar ser humilhado. Só a graça proveniente das humilhações de Cristo pode ajudá-lo a firmar-se na sincera humildade de coração.
“Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus: ele, de condição divina…aniquilou-se a si mesmo” (Fl 2, 5-7). Estas palavras do Apóstolo jamais serão bastante meditadas. São todos os cristãos chamados a seguir Jesus no caminho da humildade e para tanto é necessário “aniquilar-se a si mesmo”, ou seja, livrar-se do orgulho, aceitando o que o destrói: as humilhações. Antes de tudo, a humilhação de verificar as próprias deficiências, faltas, infidelidades e, depois, as humilhações externas, decorrentes de serem os próprios limites, defeitos e erros notados pelos outros. Querem muitos ser humildes, mas poucos aceitam ser humilhados! Pedem muitos a humildade mas depois, na prática, fogem das humilhações!
Assim como o estudo é imprescindível para adquirir ciência, assim é a humilhação o meio de adquirir humildade. Aliás, ao homem pecador, compete, por justiça, a humilhação. Tão convictos disto estavam os Santos que nunca consideravam demasiadas as humilhações recebidas. Escrevia Sta. Teresa: “Jamais ouvi falar mal de mim, que não achasse muito pouco. Mesmo quando as acusações não eram exatas, lembrava-me de quantas outras ofensas tinha feito a Deus, e parecia-me que tinham usado comigo de bastante benignidade, deixando de mas lançar em rosto” (Cm 15,2).
Exorta o Concílio de modo particular os religiosos a praticarem a virtude da humildade “com que participamos do aniquilamento de Cristo”(PC 5). Quem quiser associar-se intimamente ao mistério de Cristo – como exige a vocação de consagrados – deve entrar pelo caminho de seu aniquilamento. Disto é o homem incapaz por si mesmo: é Cristo quem há de introduzi-lo, compartilhando com ele suas humilhações. As injúrias, as acusações, as ofensas, as incompreensões, os insucessos da vida são os meios; aceitando-os por amor de Cristo, abre-se o homem ao dom de sua humildade divina, entra no mistério de seu aniquilamento pela glória do Pai e a salvação da humanidade. Seguindo Cristo humilhado até à morte de cruz, tornam-se os homens glorificadores de Deus e salvadores dos irmãos. A humildade vence e conquista até os mais rebeldes.
Formação 2004
Mas isso não nos dá o direito de humilhar as pessoas mais humildes que nós. É deprimente a pessoa debochar de uma oração que a outra faz.