Parresia

Instituto Parresia: Quem é o homem na antropologia católica?

Foto: Unsplash

O Instituto Parresia é organizado em três pilares: produção de conteúdo, capacitação de missionários católicos e ensino acadêmico. Em se tratando desse último, oferecemos programas acadêmicos em áreas de pertinência para o ensinamento cristão, como a Antropologia.

 

Uma pergunta de séculos

Pode ser que ao nos depararmos reflexivamente diante da realidade humana, muitas perguntas surjam, muitas lembranças venham à mente. Em cada época da história, a partir de Sócrates, esta pergunta – “quem é o homem?” – foi feita e alcançou vários resultados, por vezes opostos, por vezes complementares.

O século XX também não nos deixou indiferentes a tal pergunta, pois, de maneira particular, as guerras nos fizeram ver, ao mesmo tempo, as capacidades heróica e destrutiva do homem.

Essas contradições e duplicidades são tão perceptíveis que fizeram Blaise Pascal relatar a suposição, segundo a qual os contrastes são tão marcantes e profundos no homem que há quem afirme que nele haja duas almas (Cf. B. Pascal, I pensieri, Città Nuova, Roma 2003, p. 368).

Dentro da história filosófica esta questão foi pormenorizada, subdividindo-se sempre mais. Deste modo, eis que surgem mais perguntas: Qual é seu papel diante de Deus? E, qual seria o seu papel na sociedade?

 

Visões desumanas do homem

Em época moderna tais perguntas assumiram, sobretudo a partir de Lutero, conotações dramáticas, pois começou-se a questionar se o homem seria realmente livre e se em suas ações poderia haver algo de bom. Chegamos, então, a um pessimismo antropológico sem precedentes.

Calvino e Jansénio corroboram este pensamento, afirmando a natureza humana como essencialmente corrompida por causa do pecado original, o que o coloca em estado de “débito” em relação a Deus e sem possibilidades de mérito algum (Cf. J. Maritain, Humanisme integral, Fernand Aubier, Paris 1936, 24).

Poderíamos então nos perguntar: teria o pecado original atingido tão profundamente o homem ao ponto de eliminar a sua capacidade de livre arbítrio? Em outras palavras, teria o homem se tornado menos homem, visto que a liberdade é um elemento que lhe caracteriza em sua essência?

Em época moderna alguns pensadores colocaram o acento essencial do humano na razão (Descartes). Outros reconheceram que esta mesma razão não é capaz de intuir e explicar as motivações mais profundas que movem o homem, e, por isso, seria necessário buscar no coração – entendido como sede da integralidade do homem – as razões desconhecidas pela razão (Cf. Pascal, I pensieri, 61).

Por sua vez, Schopenhauer acreditou que o mais essencial no homem fosse a vontade. Vontade de viver, um impulso cego e vital, do qual todo o resto do homem não é que manifestação. Em época contemporânea chegamos a uma concepção cada vez mais naturalística (natureza corpórea) do homem, que, em certo ponto, se torna também materialista.

Nietzsche rompe com os valores morais que nos foram dados pelos nossos antepassados e chega a declarar a “morte de Deus”, na espera de que um “novo homem” (Übermensch) surja. Marx, por sua vez, declara que o homem real é aquele que tem e, de certo modo, satisfaz as suas necessidades econômicas (Cf. Vani Rovighi, Uomo e Natura, 16), enquanto Freud vê o homem como um ser em conflito, no qual o “Eu” é um infeliz submisso a três senhores: o Id, o superego e a realidade ou necessidade (Cf. Reale – Antiseri, Historia da Filosofia, VI, 272).

Isso faz com que Paul Ricœur afirme: “aquilo que Freud deseja é que o analisando, apropriando-se do sentido que lhe era estranho, alargue seu próprio campo de consciência, viva em melhores condições e seja finalmente um pouco mais livre e, se possível, um pouco mais feliz” (P. Ricœur, in: Reale – Antiseri, Historia da Filosofia, VI, 286).

Enfim, o que vemos neste pretendido humanismo é a dispersão e a decomposição do humano, fragmentando-se na oposição entre natureza e graça, fé e razão, corporal e espiritual, vontade e intelecto, paixões e razão, amor e conhecimento.

 

Recuperando uma visão integral do homem

Diante de tais concepções minimalistas, podemos nos perguntar: poderia o homem seguir adiante negando o seu passado e os autênticos valores recebidos? Poderia ele viver verdadeiramente, se “elimina” em si uma aspiração inata, que supera a realidade puramente naturalístico-material, tais como o desejo do que é bom, do que é belo, do que é verdadeiro?

Sem compreender a sua própria natureza, aspiração e fim ao qual é chamado, o homem torna-se facilmente manipulável. Por isso, é urgente recompor uma visão integral de homem, que leve em conta a sua totalidade bio-psíquico-espiritual. 

Para Jacques Maritain, o erro do humanismo não foi o olhar atento ao homem, mas sim olhá-lo de um modo exclusivo, ou seja, de um olhar antropocêntrico (Cf. Maritain, Humanisme integral, 38.), que não pode responder à totalidade de suas aspirações.

 

O homem na antropologia católica

Eis que, neste campo, a Igreja tem um papel único e fundamental, pois em nenhum outro momento da história houve uma tão profunda transformação no humano, senão quando o Filho de Deus se fez carne em Jesus Cristo. A Igreja vive e é constantemente iluminada por esta Verdade.

Ela sabe que só no olhar divino o homem é visto em sua totalidade e integralidade. Só por meio deste olhar o homem pode, efetivamente, se encontrar e encontrar respostas às suas aspirações mais profundas e autênticas.

Por isso, é indispensável compor esse quadro de reflexões sobre o homem com aqueles pensadores que maturaram a sua inteligência com o auxílio da luz da fé e, deste modo, pensaram toda a realidade em sua relação com Deus. 

Quão necessário se faz hoje este pensamento iluminado pela fé, que, por sua vez, ilumina os vários ambientes da sociedade: a política, a economia, o direito, a educação, os lazeres, enfim, toda a vida humana.

Num caminho pessoal, cabe a cada um de nós ter a humildade e se perguntar sobre a sua própria fragmentação existencial-intelectual, e pedir o socorro divino. Ele está pronto a nos reconduzir da dispersão à unidade, para que sejamos, qualitativamente, mais homens.

 

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Autor:

Elton Alves
Doutorando em Teologia bíblica pela Faculdade de Teologia de Lugano, membro consagrado na Comunidade Shalom

 


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