Formação

Jesus nada falava a não ser em parábolas

Marcos, fiel discípulo de Pedro, nos transmite hoje duas parábolas pequenas, mas que têm um valor muito grande na vida pessoal e comunitária.

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A linguagem teológica é cada vez mais difícil. A maioria do povo não a compreende e não consegue acompanhar muitas das homilias que os nossos pastores fazem, quer sejam bispos ou sacerdotes. Os pregadores do Evangelho, quem sabe tomados por um espírito de ciência, não têm a chave da sabedoria divina humana que chega até o coração. Já escrevi em vários momentos, desagradando os teólogos, dizendo que Jesus é um péssimo teólogo e um grande místico. Ele não está preocupado em falar só para um determinado grupo de pessoas que tiveram oportunidade de se sentar nos bancos de estudos e ter professores, mas para o povo que lida dia a dia com a terra, pesca, árvores, rebanhos de ovelhas e bois. Jesus está preocupado que seus ouvintes possam compreender a sua palavra e colocá-la em prática. Por isso recorre a uma linguagem das parábolas, fatos verídicos ou inventados que transmitem uma mensagem ética espiritual. Marcos, fiel discípulo de Pedro, nos transmite hoje duas parábolas pequenas, mas que têm um valor muito grande na vida pessoal e comunitária.

O que é a Palavra de Deus?

Todo o capítulo IV do Evangelho de Marcos gira ao redor da parábola do semeador e tenta explicar o seu sentido. Jesus nos mostra como o fruto da nossa pregação não depende da nossa preocupação, angústia, pressa, mas da graça de Deus, que tem o “seu tempo”. A nós cabe a responsabilidade de anunciar, semear, proclamar e não se preocupar em ver rapidamente os frutos. Cada semente tem o seu tempo certo para nascer, crescer e produzir frutos. Se ninguém semear, nunca teremos os frutos. O que importa é não desanimar de semear. Qual é a missão do semeador? Lançar a semente. Qual é missão do pregador, do profeta? Anunciar, profetizar. E depois deixar tudo nas mãos de Deus. É Ele quem faz, age, faz acontecer. O semeador pode dormir e acordar; a semente, pela força que está nela, vai fazendo o seu curso. É preciso compreender aqui a teologia mística dos tempos do Espírito Santo. “A terra por si mesma produz fruto”. É bonita a imagem do desenvolvimento da semente como Jesus a apresenta: a erva, no início, não dá para saber a olho nu que semente é. A espiga começa a se definir e amadurecer e por último aparece a espiga cheia de grãos e é quando volta de novo em cena o semeador que, feliz, colhe os frutos, mete a foice. A colheita chegou. Muitas sementes que hoje lançamos não seremos nós a fazer a colheita, serão outros. Não semeamos para nós fazermos a colheita, mas para que o Reino de Deus não pare de acontecer. O egoísmo de alguns evangelizadores é terrível. Estão preocupados consigo mesmos, não estão preocupados com o Reino de Deus, com Cristo-centro. Eles ou elas querem ser o centro e querem fazer tudo e sem ajuda de ninguém: preparar a terra, semear, cuidar da semente, fazer a colheita e por fim colocar uma placa em tudo com uma única palavra: “Eu semeei, eu cuidei, eu colhi!” Estas pessoas já receberam a sua recompensa. A segunda parábola é ainda mais questionadora.

Jesus repudia toda aparência de grandeza, ele quer fazer compreender que a força do Evangelho não está nem no dinheiro, nem no poder, nem na eloquência, nem nos favores dos poderosos, nada do que é humano.

A semente do Reino é pequenina, tão pequena que nem se vê. Como um grão de mostarda que mal se enxerga na palma da mão. Há na semente do Reino uma força que não pode ser medida pela inteligência humana. O que não é respeitado, valorizado por ser “pequeno, insignificante” como uma semente de mostarda, uma vez colocado no lugar certo se transforma em árvore grande, capaz de acolher a todos. A mostarda, que se torna a maior de todas as hortaliças, é a imagem da Igreja; a semente é Jesus, é o amor, pequeno, escondido, mas capaz de acolher a todos. Na Igreja há espaço para todos, ninguém é excluído do Reino. A árvore Igreja tem repouso para todos os pássaros de toda espécie e raça. O coração da Igreja é o amor. A Igreja não acolhe os que não querem ser acolhidos e mesmo quando a Igreja exclui alguém é só para que volte com mais amor e mais compromisso.

A Igreja te espera

Confesso que gastei muitos anos para compreender que a Igreja não excomunga e nem afasta ninguém, não manda
ninguém para o inferno e nem deseja que alguém seja infeliz. A Igreja, Mãe santa, coração de Jesus sem mancha e pura, quando repreende é porque não quer que nos percamos, mas que, reconhecendo os nossos erros, possamos assumir ainda mais o Evangelho de Jesus Cristo. A liberdade que a Igreja tem é ser fiel a Jesus Cristo e não aos caprichos humanos. Jesus não veio para satisfazer os nossos desejos e nem os nossos instintos, mas para que nós tenhamos vida em abundância, em plenitude, para que sejamos fortalecidos pelo seu amor. A Igreja, como campo fértil, espera que nós, sementes, sejamos lançados para que possamos acolher os outros e produzir frutos. Precisamos descer dos nossos pedestais de cultura e de orgulho intelectual, voltar à linguagem das “parábolas” para que todos possam compreender e ser salvos. “Jesus anunciava-lhes a palavra segundo podiam entender, e nada lhes falava sem parábola; mas em particular explicava tudo a seus discípulos. Bonito este gesto de Jesus que explica com maior clareza aos que são anunciadores do Evangelho e testemunhas dele para que eles sejam por sua vez anunciadores da verdade.


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