Formação

Jesus se revela aos pequeninos e nos convida ao descanso

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Introdução

Neste 14º Domingo do Tempo Comum, Ano A, continuamos com o Evangelho de Mateus, e o Senhor nos faz um convite que alivia o coração: “Tomai sobre vós o meu jugo, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,29-30). O fardo do mundo é pesado, mas o do Senhor é leve. São apenas seis versículos, mas tão ricos que uma coisa vai puxando a outra.

Como sempre, escolhemos cinco pontos para a sua meditação e oração com este Evangelho, que partilhamos no podcast.

O Evangelho

“Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu peso é leve.”” (Mt 11,25-30).

1. “Eu te louvo, ó Pai…”: o louvor que liberta

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra.” (Mt 11,25). O Evangelho começa com Jesus abrindo o seu coração ao Pai. Na passagem paralela, Lucas diz que Jesus “exultou de alegria” (cf. Lc 10,21-22), expressão que nos remete diretamente aos Salmos. É o louvor da pessoa de Jesus, verdadeiro homem, ao Pai do céu. Aqui aprendemos como Jesus rezava: os discípulos o viam rezar e pediam “ensina-nos a rezar” (cf. Lc 11,1). Jesus abre o seu coração para que nós entremos, conheçamos e descubramos o que há dentro dele.

Que a nossa oração comece sempre pelo louvor. Diante das dificuldades e provações, dizer “eu te louvo, Pai, eu te agradeço, tudo está nas tuas mãos”. Isto não faz as coisas se resolverem por passe de mágica, mas muda o nosso coração, e depois o Senhor, na sua Providência, vai nos ajudando. No deserto, a tribo de Judá, cujo nome significa louvor, caminhava à frente (cf. Nm 2,9; 10,14). Na hora do nosso deserto, quem deve ir à frente é o louvor a Deus, pois ele abre os caminhos. Primeiro muda o coração, depois muda o exterior; ou, como ensina Santo Tomás de Aquino, o hábito também forma a virtude: se você quer ser corajoso, exercite a coragem.

2. As coisas escondidas aos sábios, mas reveladas aos pequeninos

“Escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11,25). No grego ressoam duas palavras: o “apócrifo”, aquilo que está oculto, escondido, e o “apocalipse”, que é a revelação. “Estas coisas” são os “mistérios do Reino” (cf. Mt 13,11). Deus não os esconde por maldade: os sábios e entendidos deste mundo se excluem sozinhos, porque o orgulho não deixa entrar nada. “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.” (Tg 4,6; 1Pd 5,5).

Se você já está com o coração e a cabeça cheios, não cabe mais nada. Quem já acha que entendeu tudo não aprende; quem já tem fechada a sua concepção do que é certo e errado não se deixa ensinar pelo Senhor. Mas quem tem coração de discípulo diz: “Senhor, então me ensina, eu não sei.” Santa Teresa D’Ávila lembra que “a humildade é a verdade”: a nossa mente é muito inferior à mente divina. Os pequeninos são os discípulos de Jesus, aqueles que se fazem pequenos e abrem o entendimento para a Sua revelação.

3. A intimidade do Coração do Filho e do Pai

“Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Mt 11,27). Aqui se manifesta a intimidade e a identidade de Jesus com o Pai. É mais uma prova da sua divindade: a intimidade que Ele tinha com o Pai era tal que somente sendo Deus, da mesma natureza, ela se explica. É a unidade inseparável entre o Pai e o Filho que o Credo de Niceia, no ano 325, professou sobre Jesus: “Deus de Deus, Luz da Luz.” Como diz o Evangelho de João, “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9); o Filho é o rosto de Deus para nós (cf. Jo 1,18). Por isso é tão importante ler a Palavra de Deus na sua totalidade, e não um versículo isolado fora do contexto, que podem nos levar a erros de interpretação e heresias.

E o conhecimento que Jesus quer nos dar não é apenas intelectual: é experiência, é intimidade, é participação. “Vinde e vede”, dizia aos primeiros discípulos (cf. Jo 1,39). Ninguém ama aquilo que não conhece, e conhecer a Deus é entrar na sua intimidade. Isso não significa deixar a inteligência de lado: a fé é assentir com o entendimento, acreditar e aceitar, mas Deus está sempre acima da nossa razão.

4. “Vinde a mim, todos vós que estais cansados”

“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mt 11,28). O convite é a todos, ninguém está excluído, pois quem não está cansado? O fardo pesado de que Jesus fala é tudo aquilo que oprime e torna a vida mais difícil, e o coração deste seu convite é cristológico: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim” (Mt 11,29). O jugo é leve não apenas por ser um peso menor, mas porque é o próprio Cristo que o carrega conosco, nos une a si e nos ensina o seu caminho. Entre esses fardos estava o peso da Lei vivida de modo opressivo. Em Mateus 23,1-36 Jesus critica duramente os Mestres da Lei e fariseus que “amarravam pesados fardos sobre os ombros das pessoas e nem com um dedo os tocavam” (cf. Mt 23,4), os muitos mandamentos que ninguém conseguia cumprir, e disso vinha o peso do pecado.

Como Jesus alivia esse peso? Primeiro, resumindo toda a Lei no amor: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (cf. Lc 10,25-28). “Quem ama cumpre toda a lei”, como diz São Paulo na Carta aos Romanos (cf. Rm 13,8-10). O fardo de Jesus é leve porque é a lei do amor. Em segundo lugar, pelo Seu perdão: o pecado pesa, e por isso devemos voltar sempre ao Sacramento da Reconciliação, para nos acostumarmos a receber o perdão de Deus. É a veste nupcial que nos prepara para o banquete do Cordeiro (cf. Mt 22,11-12; Ap 19,9).

O fardo do Senhor é leve e Ele não veio para nos sobrecarregar. É preciso cuidado com tantos pesos que hoje se inventam em nome da fé, transformando em peso onde o Senhor quer leveza. Diante do Senhor, você precisa ser você mesmo, sem vestir uma “capa de santidade” que não tem. Como ensinava Santa Teresa de Jesus, para que falar do demônio se posso falar de Deus? Um conselho precioso resume tudo: “Cale a boca e fique com Deus.” Às vezes, vamos para a oração com tanta coisa para dizer que esquecemos de simplesmente entregar o nosso fardo e descansar no Senhor.

5. “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”

“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso.” (Mt 11,29). A Bíblia de Jerusalém completa: “…descanso para as vossas almas.” Jesus não promete que os fardos deste tempo desaparecerão. São Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios, recorda os naufrágios, a fome, a sede, os apedrejamentos etc. (cf. 2Cor 11,23-27): “perseguidos, mas não abandonados; atribulados, mas não esmagados” (2Cor 4,8-9). As provações continuam, mas a alma está em paz, porque Jesus nos dá a sua paz: “A paz vos deixo, a minha paz vos dou. No mundo tereis tribulações, mas tende confiança, eu venci o mundo.” (Jo 14,27; 16,33).

“Aprendei de mim” é uma ousadia que só Jesus poderia dizer. Ele foi perseguido, caluniado e atacado mais do que qualquer discípulo, e mesmo assim não se alterava, não revidava, não guardava ressentimento: convidava. “Vinde a mim, vós todos.” Os fariseus não eram excluídos, eles mesmos se excluíam, sem abertura para receber a boa nova. Esta paz vem da união com Jesus, o matrimônio espiritual de que falam Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Não é deixar de sofrer, pois nem Teresa, nem São Paulo, nem os profetas deixaram de sofrer; é ter os olhos fixos no Senhor, na certeza, como dizia Teresa, de que Ele está sempre ao nosso lado. As tribulações acontecem, mas não têm poder de tirar a paz de quem tem o coração em Jesus.

Agora é a sua vez: pegue a sua Bíblia, volte ao texto e reze com a Palavra de Deus, seguindo os passos abaixo.

Passos da Lectio Divina

A Lectio Divina é a leitura orante da Palavra de Deus. Reserve um tempo de silêncio, invoque o Espírito Santo e percorra com calma estes passos, rezando você mesmo com este Evangelho.

1. Leitura (Lectio). O que o texto diz? Leia com atenção, mais de uma vez, o Evangelho deste domingo (Mt 11,25-30). Tome a sua Bíblia ou leia o texto na descrição acima. Anote ou sublinhe as palavras que mais lhe chamam a atenção.

2. Meditação (Meditatio). O que o texto diz a mim? Volte aos cinco pontos acima e deixe que uma palavra toque o seu coração: o louvor ao Pai, o que é escondido e o que é revelado, a intimidade do Pai e do Filho, o “vinde a mim”, o aprender de Jesus, manso e humilde. Onde estão os meus fardos? Que pesos eu carrego que o Senhor quer aliviar?

3. Oração (Oratio). O que digo a Deus a partir do texto? Responda ao Senhor com as suas próprias palavras. Se não tiver inspiração comece assim: “Senhor, toma o meu coração e todos os pesos e fardos que há nele; tira de mim os apegos e as preocupações exageradas que me arrastam para trás, e coloca o Teu jugo, que é leve. Ensina-me a ser manso e humilde como Tu és; dá-me a paciência, a coragem, a temperança, a humildade e, acima de tudo, a fé e a confiança. Ó Maria, toma a minha mão e me ajuda neste caminho, tu que o percorreste tão bem.”

4. Contemplação (Contemplatio). Que olhar novo Deus me dá? Permaneça em silêncio diante do Senhor. “Cale a boca e fique com Deus.” Descanse no Seu fardo leve, deixando que a Sua paz, a paz que o mundo não pode dar, repouse na sua alma.

5. Ação (Actio). Que ação concreta o Senhor me chama hoje? Tome uma resolução: voltar ao Sacramento da Reconciliação para me deixar perdoar por Deus? Colocar o louvor à frente do seu deserto? Levar uma palavra de paz a alguém que carrega fardos pesados? Partilhe esta Palavra com alguém da sua família ou amizade.

Até a próxima semana!

Shalom!

De segunda a sábado, temos um pequeno vídeo; no domingo, o nosso podcast com o Evangelho Dominical para você meditar e rezar. Inscreva-se no canal e convide outras pessoas, para que mais pessoas amem a Palavra de Deus. Deixe o seu “like” e encaminhe aos seus amigos. Deus te abençoe. Shalom!

Acesse aqui o vídeo do podcast com legendas que você seleciona no seu idioma.

Por José Ricardo Bezerra e Felipe Bezerra