Formação

João Batista, profeta da alegria espiritual

Hoje é 24 de junho e a Igreja celebra o nascimento de São João Batista. Mas afinal, o que a vida deste santo tem a nos ensinar?

Foto | Unsplash

A alegria é uma marca daqueles que tiveram uma experiência com o Ressuscitado que passou pela cruz, pois é um dos frutos da ressurreição: “Jesus veio, pôs-se no meio deles e lhes disse: Shalom! Após essa palavra, Ele lhes mostrou suas mãos e seu lado. Os discípulos ficaram repletos de alegria ao verem o Senhor”.

Pela alegria, testemunhamos que o Senhor não apenas está vivo, mas está no meio de nós, cheio de poder e amor, e nos envia continuamente em missão. João Batista é precursor também ao testemunhar desde o início essa alegria espiritual, fruto do Deus que cumpre Suas promessas.

Depois de termos visto João no deserto, e de termos visto com a ajuda desse olhar de fé que nos faz enxergar além das aparências tudo o que ele lutou e sofreu, é chegada a hora de falarmos desse aspecto da sua missão: dar testemunho da alegria espiritual.

A alegria permeia toda a existência de São João Batista, por isso antes de focarmos no Jordão, onde ele cumpriu a maior parte do seu ministério, vamos dar uma vista geral sobre a alegria na vida desse profeta.

A chegada do Messias seria com certeza um acontecimento cercado de júbilos, segundo o Antigo Testamento, por isso é normal que o precursor esteja banhado desse clima espiritual. Desde o começo dos recitos que falam sobre João vemos a alegria presente.

Zacarias, quando seu filho nasceu e cheio do Espírito Santo, explode em louvores a Deus. No seu hino (Benedictus), diz que João é “expressão da ternura de Deus”, pois anuncia uma salvação que se faz presente. Quando Gabriel anuncia a Zacarias que sua esposa vai conceber, o anjo diz: “Tu te alegrarás e muitos se alegrarão pelo seu nascimento, pois ele será grande diante do Senhor” (69).

Já vimos como a visita de Nossa Senhora à sua prima fez João pular de alegria no ventre. Essa é a primeira alegria que João Batista vem testemunhar: alegria que experimentam aqueles que têm uma experiência do Espírito.

É por isso que João dirá mais tarde: “Quanto a mim, eis que batizo com água; mas no meio de vós está Aquele que vós não conheceis, e Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo!” (70).

João testemunha a alegria da experiência do Espírito, a alegria de permanecer nesta graça, de ter toda a sua vida guiada pelo Seu amor:

“A glória do homem é a perseverança no serviço de Deus”, dizia Santo Irineu. Perseverança que é graça. “Eis os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência (…). Os que pertencem ao Cristo crucificaram a carne com suas paixões e desejos. Se vivemos pelo Espírito, andemos também sob o Seu impulso” (71).

Vimos também que o próprio João, ao falar de si mesmo, se autodenomina “amigo do Esposo” e testemunha:

“Quanto ao amigo do Esposo, ele permanece ali, ele escuta a voz do Esposo, e ele se rejubila. Essa é a minha alegria, e ela é completa” (72). A alegria de uma intimidade profunda com o Senhor, de uma amizade privilegiada. Amigo de Deus! Nosso fundador também não hesitará em dizer: “A amizade com Deus é como uma fonte que faz jorrar em nós o amor. Amor que é divino. Amor que faz com que elejamos para nossa vida tudo aquilo que nos ajude a estarmos mais unidos ao Amado” (73).

E também: “A amizade com Deus é o âmago da nossa Vocação. Decidir-se pela amizade divina e crescer nesta amizade é o segredo da vida” (74).

João Batista tem essa semelhança conosco: ele cresceu no deserto, onde sua intimidade e amizade com Deus se forjaram:

“Ele foi viver no deserto até o dia em que ele deveria ser manifestado a Israel” (75). Ora, nós somos um povo eleito para atravessar a vereda que o Senhor abre no deserto deste mundo: “Deus quer ardorosamente abrir uma nova vereda pelo deserto e assim formar um povo, um povo eleito, formado por suas mãos para atravessá-la, percorrê-la, assumi-la em seu viver. Nós somos este povo. Deus nos chamou a esta magnífica vocação” (76).

Esse caminho novo, esse plano amoroso de Deus só pode realizar-se em nós, “completar-se em nossas vidas, se estas estiverem enraizadas na oração profunda” (77). Deserto, lugar onde tradicionalmente o povo foi testemunha de manifestações de Deus, lugar de batalha espiritual, lugar onde cresce a amizade com o Esposo. Como na vida de João Batista.

Assim, no deserto, vemos uma outra característica de João à qual somos chamados a cultivar: a radicalidade de seu amor por Deus, que também é fonte de alegria. Numa vida penitente, João colhia as forças para permanecer todo voltado para sua missão, sem distrações.

Alimentava-se de gafanhoto e mel silvestre, todo o seu ser vivia voltado para Deus, ele estava enraizado em Deus, que era tudo para ele. Sendo Deus seu tudo, sua alegria era perfeita, completa, plena e tão preciosa que ele considerava que qualquer esforço era pequeno para preservar essa alegria interior, como vimos no capítulo precedente.

Alegria de anunciar com todas as suas forças a Boa Notícia de que estava já no meio do povo Aquele que iria batizar no Espírito Santo. A alegria, portanto, de evangelizar!

O verdadeiro evangelizador não consegue calar-se, pois existe no seu ser um fogo devorador, uma alegria que está sempre jorrando e que precisa jorrar através de palavras, de um anúncio, custe o que custar.

Essa característica da vida de João nos lembra uma outra característica da Vocação Shalom:  “Em todas as nossas ações, o anúncio explícito de Jesus Cristo é indispensável para a fidelidade ao chamado que o Senhor nos faz.” (78).

São Paulo dizia: “Ai de mim se eu não evangelizar”. Podemos também dizer: “Feliz de mim se evangelizo!”. Feliz de levar a esposa ao Esposo, feliz de ser instrumento da paz, feliz de ser missionário, feliz de ser eleito, feliz de estar totalmente unido à vida de Jesus que se desenvolve em mim. Sim, feliz, feliz, feliz!

João também experimentou a alegria da paternidade espiritual. Ele tinha discípulos, como nos lembra o Evangelho. E ele os ensinava a rezar, pois os discípulos de Jesus lhe pediram que lhes ensinasse a rezar como João Batista havia ensinado a seus discípulos.

No caminho de discipulado, ele não os levava para si mesmo, não era essa sua alegria na paternidade, mas os preparava para acolher o Messias que estava chegando. André, por exemplo, era um dos discípulos de João (79).

Essa formação dos discípulos não era algo puramente intelectual, mas engajava toda a vida. Santa Teresinha nos lembra que “somente o sofrimento pode gerar almas para Jesus”. João consumiu sua vida, até o martírio, para fecundar almas para Jesus.

Ó profeta da alegria, ensina-nos a permanecer voltados para o nosso Esposo e, assim, poderemos testemunhar com nossas vidas que não há maior amor – e por isso maior alegria – do que dar a vida por aqueles que amamos.

Referências  Bibliográficas

69 Lc 1,14-15ª
70 Lc 3,16
71 Gl 5,22-25
72 Jo 3,29
73 AZEVEDO FILHO, Moysés Louro de. Escritos: Carta à Comunidade 2005, 58. Edições Shalom, 2012
74 Id, n. 55
75 Lc 1,80
76 AZEVEDO FILHO, Moysés Louro de. Escritos: Obra Nova, 01. Edições Shalom, 2012
77 Id, n. 07
78 Estatutos da Comunidade Católica Shalom, 07
79 Jo 1,40

Daniel Ramos | Missionário da Comunidade de Vida Shalom em Toulon (França)

Retirado do livro João Batista, profeta do Amor Esponsal

livro joao batista

Adquira seu exemplar [AQUI]


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *