A Igreja vive um tempo muito especial, um ano de graças extraordinárias devido ao Ano Santo da Misericórdia! Vejamos as parábolas da misericórdia e como elas nos ensinam que o amor de Deus é incondicional e misericordioso
Jesus Cristo é o rosto da Misericórdia do Pai. Ele revelou esse modo perfeito de amar em toda a sua vida pública. Nada conseguia impedir que Jesus amasse os seus com um amor misericordioso. Ele não se deixava vencer pela falta de amor… nem mesmo quando se deparava com aqueles que resistiam à sua palavra e aos seus gestos de bondade e compaixão.
O Evangelista Lucas nos faz ver claramente essa realidade quando mostra Jesus contando aos discípulos as três parábolas da Misericórdia. Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superado a recusa com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em especial: as da ovelha extraviada, da moeda perdida e a do pai com os seus dois filhos (cf. Lc 15,1-32). Nessas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão (MV, 9).
As parábolas e o rosto misericordioso de Deus
A primeira é a parábola da ovelha perdida, na qual São Lucas narra: “Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? E depois de encontrá-la, a põe nos ombros, cheio de júbilo e voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido. Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não neces- sitam de arrependimento” (Lc 15,4-7).
Jesus coloca todo o amor no pastor de ovelhas. Uma só ovelha perdida do redil já é suficiente para que o pastor deixe as outras noventa e nove no deserto e – mesmo sabendo que elas correm risco – vá em busca daquela perdida até encontrá-la. Impressiona notarmos que medida mais “desmedida” é a misericórdia de Deus por quem está perdido e necessita de socorro, necessita que alguém venha ao seu encontro. É isso mesmo! Ir ao encontro!… Ter a coragem de arriscar o que já se conquistou… Ter a coragem de perder, se for preciso, para ganhar aquilo que está reservado ao amor infinito de Deus! Uma só alma vale cem outras que não precisam de arrependimento!
A moeda perdida
A segunda parábola é a da moeda perdida: “Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas e perdendo uma delas, não acende a lâmpada, varre a casa e a busca diligentemente, até encontrá-la? E tendo-a encontrado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, achei a dracma que tinha perdido. Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa” (Lc 15,8-10). Vemos na busca diligente da moeda da segunda parábola o modo insistente de Deus. Ele faz tudo para encontrar o que lhe importa. Deus acende a lâmpada da nossa casa interior, varre a sujeira do nosso coração, faz tudo o que pode, Ele que pode tudo! Não desiste de nós, procura até nos encontrar… e ainda reúne os seus anjos para celebrar com júbilo o grande encontro do pecador com Aquele que veio para salvar. Ele insiste em fazer festa quando um só pecador volta arrependido.
O Pai das misericórdias
E a terceira é a tão conhecida parábola do filho pródigo, ou, como muitos teólogos preferem chamá-la, a parábola do Pai Misericordioso:
“Disse também Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte da herança que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois, ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou a sua fortuna, vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se ao serviço de um dos habitantes daquela região, que o mandou para os seus campos guardar os porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrou então em si e refletiu: Quantos empregados há na casa de meu pai que têm pão em abundância… e eu, aqui, estou a morrer de fome! Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu- -lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse, então: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia. Ele lhe explicou: Voltou teu irmão. E teu pai mandou matar um novilho gordo, porque o reencontrou são e salvo. Encolerizou-se ele e não queria entrar, mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos. E agora, que voltou este teu filho, que gastou os teus bens com as meretrizes, logo lhe mandaste matar um novilho gordo! Explicou-lhe o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado”(Lc 15,11-32).
A terceira é a parábola que, de maneira mais rica e cheia de detalhes, nos mostra o quanto o Amor de Deus é grande, incondicional e misericordioso. Na figura do filho pródigo, cada um de nós, cada pessoa, cada pecador, se sente e se vê identificado.
O amor do Pai por nós
Podemos perceber no pedido do filho: “Meu pai, dá-me a parte da herança que me toca” o orgulho e a rebeldia de cada um de nós. O que queremos fazer pedindo a parte que nos toca? Em que pretendemos gastar essa herança? Por que temos que tirar do Pai algo que ainda não podemos possuir? Por que temos que nos separar do Pai? Na verdade, a herança que dispomos não é algo para se gastar sozinho ou com egoísmo. A herança que nos cabe é a própria vida divina, é a graça do Senhor, é o seu amor na nossa existência frágil e limitada. Por isso que, ao pedir a parte que lhe cabia, o filho mais novo pediu aquilo que, na verdade, era um bem a ser doado, e, assim, multiplicado, pois é dando que se recebe. A herança do filho era algo a ser plantado e regado para dar fruto no tempo certo. Mas o filho não tinha maturidade suficiente para usar a sua herança e, por isso, ao recebê-la, partiu para bem longe do seu Pai e fez de sua herança a sua própria ruína. Contudo, o que impressiona é que mesmo sabendo disso o Pai não negou ao filho aquilo que era seu, mas entregou prontamente.
Deus é assim, está sempre de prontidão para nos atender. Não se deixa vencer em bondade, em generosidade. Jesus não só nos dá tudo, mas se dá todo a nós. Assim Ele se revela misericordioso nos dando o seu próprio coração, deixando-se alcançar, oferecendo-se a si mesmo até deixar-se ferir, como fez àquele soldado que perfurou o seu lado e abriu a fenda donde jorrou sangue e água (Jo 19,34).
O filho pródigo ainda não estava preparado para receber sua herança, e, por isso, não a aplicou responsavelmente, mas a dissipou vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, começou a passar penúria e a sofrer de fome… Seu destino foi o pior possível: foi comer comida de porcos. Foi então que da sua miséria se abriu uma porta para a Misericórdia. Ele lembrou-se que na casa do seu pai ninguém passava fome, todos comiam e eram saciados. Então caiu em si, arrependeu-se do que tinha feito, e, antes de fazer qualquer coisa, foi surpreendido por alguém que correu ao seu encontro e tomou-o pelos braços… e o encheu de beijos… Era seu Pai… O amor do Pai foi maior que o desamor do filho! A misericórdia do Pai foi maior que a miséria do filho! O Papa Francisco nos diz: “A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar limite ao amor de Deus que perdoa”(MV, 3).
São essas três parábolas que nos ajudam a compreender quão grande é a misericórdia do Pai. “Porém a misericórdia e o perdão não devem permanecer belas palavras, mas realizar-se na vida cotidiana. Amar e perdoar são os sinais concretos e visíveis de que a fé transformou os nossos corações e nos permite exprimir em nós a vida própria de Deus. Amar e perdoar como Deus ama e perdoa. Este é um programa de vida que não pode conhecer interrupções ou exceções, mas nos leva a ir sempre além sem nunca nos cansarmos, com a certeza de sermos sustentados pela presença paterna de Deus”1.
O Santo Padre, dentro desse espírito jubilar, nos anima com suas palavras e fala abertamente desse amor incondicional e infinito de Deus Pai, por isso não devem existir barreiras ou empecilhos para que cada pessoa e todos os homens e mulheres experimentem neste Ano Santo a graça do Senhor e a sua misericórdia. Diz ainda o Papa: “Deus perdoa tudo. Deus nos compreende mesmo nos nossos limites, nos compreende também nas nossas contradições. Não somente, Ele, com o seu amor, nos diz que é justamente quando reconhecemos os nossos pecados que Ele nos é ainda mais próximo e nos encoraja a olhar adiante. Diz mais: que quando reconhecemos os nossos peca- dos e pedimos perdão, há festa no Céu. Jesus faz festa: esta é a sua misericórdia: não desanimemos”2.
Vivamos com todo o fervor e ânimo a graça especial e extraordinária deste Ano Santo da Misericórdia. Tenhamos o coração aberto ao amor do nosso Pai do Céu, que não poupou o seu próprio Filho, mas nos abriu, por Ele, as comportas da Misericórdia que tudo perdoa e tudo cura. Que Maria, Mãe da misericórdia, nos conduza pela porta do coração do seu Filho Jesus, porta da misericórdia, por onde entraremos, sairemos e encontraremos pastagem. Amém!
1 Papa Francisco no Ângelus em 17 de dezembro de 2015.
2 Idem.
Padre Almeida Neto
Missionário da Comunidade Católica Shalom
(artigo originalmente publicado a Revista Shalom Maná)