Estamos na semana santa e a cada leitura da liturgia descortinamos a dramaticidade dos últimos dias de Jesus. Diante das posturas dos discípulos ao confrontarem os seus valores e ideais com os mistérios que Seu Mestre os introduziu, é possível termos um olhar meramente humano de suas ações. É possível cogitar que no lugar deles poderíamos fazer diferente, agir de forma mais nobre e santa. Mas será?
Neste tempo, podemos também, ao meditar as leituras do antigo testamento que falam do povo de Israel e das suas constantes crises de fé, idolatrias e murmurações — mesmo com tantos prodígios inumeráveis de Deus demonstrando o seu amor e cuidado — nos colocar distantes da conduta desta geração que viveu 40 anos no deserto.
Sou o povo de Israel
Nenhum desses acontecimentos são distantes, porque eu faço parte do povo israelita que celebra a Páscoa porque saiu da escravidão do Egito, mas que permanece com o Egito no coração. O Egito é o pecado, é o mundanismo em mim, as facilidades não evangélicas da vida.
Sou essa multidão volúvel que ora proclama Jesus como Senhor e Rei da sua vida e diz “hosana nas alturas”, ora brada com voz forte: “crucifica-o”. Ainda mais quando as coisas não saem do jeito que planejei, quando não tenho a quem atribuir a culpa pelos erros e fracassos da vida. Dependendo da situação, posso bradar o que for conveniente.
Faço parte deste povo que incrivelmente consegue escolher o pior entre o Todo Justo e o assassino. Sou aquela multidão influenciável que vocifera “Barrabás”, quando não me submeto à vontade de Deus e escolho servir a qualquer outro Senhor.
Sou discípulo
Nessa trajetória de cruz, posso ser Judas e trocar Jesus por muito menos, como passar algumas horas nas redes sociais e deixar a minha oração pessoal de lado; ou quando julgo que aquele meu afazer é muito importante para tomar aquela hora destinada à minha adoração semanal, por exemplo. Quantas vezes isso acontece, não é mesmo?
E algo ainda pior! Posso julgar que o meus pecados, misérias e fraquezas me tornarão definitivamente incapaz de receber a Misericórdia de Deus. Eu mesmo decidir se mereço a vida ou a morte, a punição e o desprezo.
Posso ser Pedro, negar Jesus sem mesmo ninguém me acusar ou pressionar. Numa discussão corriqueira, preferir omitir a minha opinião cristã e silenciar diante de tantas mentiras, que hoje são dadas como verdade, afinal é tão difícil dar a cara para bater e ser ridicularizado…
E quando as dificuldades estão quase que insuperáveis, quem eu sou? Como Jesus que a vive a cruz livremente e até o fim ou aquele prisioneiro desesperado que o desafia descer da cruz e mostrar seu poder?
Mas quem realmente desejo ser?
Nessa história também posso ser Nossa Senhora e como ela, diante de tantas cruzes, permanecer de pé até o fim me unindo a Jesus. Posso interceder em silêncio em vez de querer tirar a cruz dos outros. Cruz que salva, liberta, converte e é caminho para a Ressurreição. Posso ser João, o discípulo amado, que viu, creu e testemunhou.
Posso ser Madalena, que de tão desejosa por encontrar a Cristo, nem esperou amanhecer e foi ao túmulo se sentir mais próxima ao seu amado. Ainda bem que o sepulcro estava vazio, porque Jesus Ressuscitou!
Posso ser Tomé também… Porque ele não creu? Sim, mas também porque foi o único a tocar o lado aberto de Jesus e provou de sua Infinita Misericórdia como nenhum outro discípulo pôde provar. Jesus voltou outra vez aos seus discípulos para que o Dídimo também visse, tocasse e cresse. Obrigada, Jesus, por perdoar as minhas ausências e por misericórdia, retornar quantas vezes forem necessárias para que eu possa ver e crer!
A história da salvação é mesmo muito rica de personagens para que cada um se identifique com algum ou todos eles e seja motivado a construir o seu próprio papel. E você, quem o Senhor te chama a ser nessa história?
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