Formação

Lavar os pés sujos

comshalom

 

Os apóstolos, assim como todo o povo de Israel, viviam com seus pés sempre sujos de areia, daquela poeira advinda da vida ordinária no deserto. Aqueles eram outros tempos. Hoje nossos pés se sujam de outras tantas coisas…

Mas, quando, naquele tempo passado, Jesus se baixou para lavar os pés dos apóstolos, o que Ele retirava, que ele queria lavar, retirar daqueles corações? Podemos citar, dentre tantas coisas, a poeira, a areia do farisaísmo, do querer prevalecer sobre Deus ao colocar a Lei acima da caridade, de resistir a não submeter a Lei ao Amor, de não render-se e permitir que o Cristo elevasse a Lei à sua perfeição por meio da vivência dela no Amor. Enfim, o poder supremo de Deus era a maior e a mais transformadora revolução, a de amar sem limites ao poder se ofertar sem limites, se abaixando, se esvaziando, se permitindo amar. Enfim, a caridade na verdade encarnada ali se encontrava em Jesus e no ato de lavar aqueles pés cheios da areia do deserto, cheios de pecados, enganos, distanciamentos da verdadeira perfeição da Lei, mas pés, à exceção do traidor, de futuros e grandes santos da Igreja Católica.

Que outras sujeiras traz a humanidade neste tempo? O que mais Jesus deseja lavar ao abaixar-se? Jesus lava hoje também os enganos de uma geração que pensa poder se relacionar virtualmente com máscaras, que mostra de si apenas o que deseja.

Hoje, Jesus vem lavar os pés dos homens modernos. Pés sujos da poeira do concreto. Concreto que não se restringe ao chão porque agora o homem erigiu muros, montanhas de concreto para impedir o contato entre o Deus Vivo e sua própria existência.

Entretanto, o Lava pés se faz novo pois celebramos de forma atual, a vinda do Cristo Sacerdote que se abaixa e vem convidar toda a humanidade contemporânea a permitir que o mais poderoso dos homens lave seus pés. Infelizmente, são estes mesmos que procuram, iludidos, concretar a religião e obrigá-la a ficar imóvel, morta, gélida assim como é o relacionamento o Divino e o ser humano moderno, indiferente e frio ao fogo do Amor.

Mergulhada no engano, vive tentando se convencer de que não precisa se encontrar e servir o outro com verdade, com caridade, sem máscaras, ao vivo, com suas fraquezas e virtudes expostas. Construindo um enorme prédio de indiferença e falta de tempo para viver na própria carne toda a concretização do plano de felicidade e a razão do próprio viver. É isto que Jesus hoje quer lavar: o distanciamento concreto entre Deus e este homem moderno, tão determinado a manter-se afastado de sua realidade ontológica pessoal. Fugindo de Deus, buscando encobrir seus pecados por meio de ideologias e discursos vazios não sabe que foge de si mesmo, que se perde, porque antes, não permite que Jesus lhe surpreenda e com humildade aniquilante lave todas as imundícies dos seus pés e, por isso, o faça enxergar a beleza esquecida que estes mesmos pés machucados mas escolhidos possuem.

O que Jesus Cristo hoje, agora, nesta semana Santa nos oferece é um glorioso encontro capaz de transformar poderosamente toda a nossa existência através do Amor. Um encontro com Ele e, por isso, conosco mesmos. Um lavar de pés que gera uma inversão total de valores, que nos faz abrir mão da busca pelo sucesso, prestígio e conforto que a propaganda mundana tanto nos exige para um acolher e abraçar o verdadeiro sentido de toda vida humana. É um olhar-se no espelho e encontrar-se com o grande Amor, motivo e razão do nosso nascimento, da nossa vida ordinária e do nosso futuro não mais mortal, mas, imortal, para aqueles que se deixarem lavar por inteiro. Futuro de glória verdadeira, de final feliz não de um conto de fadas ou fábulas imaginárias, mas de uma vida concreta, real e divina. Boa, feliz e santa semana!

Por Hannele Boel


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