Era uma noite muito iluminada, a lua cheia no alto céu brilhava como a chama da fogueira, estava muito silencioso, as oliveiras com suas pequenas folhas verdes paradas como se esperassem ansiosas o grande acontecimento. Jesus, olhava para mim, quando lá no fim do campo surgem luzes muito pequenas e começava-se a ouvir o tintilar das armaduras dos soldados. Entre tantos rostos sedentos de sangue que vinham, um era diferente, nunca o vi assim, era Judas, nosso irmão, mas não o de sempre, tinha algo nele que o desfigurou, uma sede de poder, um ódio, mas ao se aproximar do mestre pude ver no interior de seus olhos, uma amargura, uma terrível tristeza que fazia sua alma sangrar de dor, mas o que ele faria? Então, com uma saudação que para nós era demonstração de maior amor e respeito pelo mestre, com um beijo em seu rosto ele o entrega, tudo está consumado. – É com um beijo que trais o filho do homem? – exclama com uma transbordante dor o meu senhor.
Depois do beijo, os soldados avançaram, vinham de todos os lados, parecia que havia o mais brutal dos assassinos ali. Não poderia ficar parado, mas o que fazer? Não dava para lutar. Eram muitos, minha mão tremia na bainha da espada, lembrava das palavras do mestre quando nos dizia para amar os inimigos, mas era diferente, tinha que ser, não era disso que ele falara, não podia ser, quando dei por mim estavam amarrando-o, “-Não!”, foi o meu grito quando puxei minha espada e disposto a morrer pelo meu senhor ataquei o soldado que tentava o amarrar. Enquanto avançava meus olhos se encontraram com os olhos do mestre, -Pedro, porque ainda não tens fé? era o que aquele olhar dizia à minha alma. Era tarde, a espada já chegara ao ápice do golpe, não dava mais pra parar, olhando ainda para o mestre encontrei força e desviei, fui fraco. Havia muito sangue, uma orelha, isso mesmo minha espada tinha encontrado em seu caminho a orelha de um soldado, vendo isso Jesus me repreendeu dizendo para eu guardar a espada pois quem usa a espada por ela perece.
Em meio a toda essa situação, triste perigosa e confusa, eu me apavorei, e se o soldado buscasse vingança? Então o meu amigo, emboscado como um lobo que cai na armadilha dos caçadores, mas manso como a menor e mais mansa das ovelhas , tomou a orelha e o curou, devolvendo-a ao rosto do soldado. Foi então que fugi com os outros, nessa hora olhei pros céus, eles choravam também, a lua não tinha mais brilho, nuvens de chuva tomaram todo o céu e com que em prantos de dor o céu chorou comigo. Levaram o meu mestre.
André Filipe
